Abraão estendeu a mão e agarrou a faca, para sacrificar o próprio filho. Mas, do céu, o mensageiro do Senhor chamou por ele: “Abraão! Abraão! (…) E Deus disse-lhe: “Não levantes a mão contra o menino; não lhe faças nenhum mal.(…)Abraão voltou-se e viu atrás de si um cordeiro que estava preso pelos chifres a um arbusto. Foi buscá-lo e ofereceu-o em sacrifício, em lugar do seu filho. Génesis, 22, 10-13
Todos conhecemos esta história que vem narrada no primeiro dos livros da Bíblia. Para os muçulmanos, que também entendem Abraão como seu fundador, este acontecimento transformou-se numa festa importante: a do Aid El Quebir que se celebra, anualmente, após o Ramadão, sendo a festa do sacrifício ou do cordeiro.
Dando cumprimento a uma sentença iníqua, o governo iraquiano enforcou, hoje, Saddam Hussein. Dificilmente poderia haver decisão mais estúpida: a festa do Aid El Quebir coincidirá, este ano, com a nossa passagem de ano! (1)

Este não é um tiro no pé, é um tiro nos miolos! Pode argumentar-se que foi uma decisão de muçulmanos, mas todos sabemos que ela só aconteceu devido à invasão ocidental do Iraque. E, embora haja iraquianos a comprazerem-se com a morte do seu tirano, muitos outros milhões por todo o mundo entenderão o acontecimento como intromissão dos cristãos em assuntos e terras islâmicos. Apesar de detestado por quase todos os muçulmanos do mundo, na sua morte, Saddam transformar-se-á em pretexto para agudizar as tensões religiosas do nosso tempo. Quem decidiu a sua morte e a data da execução tinha obrigação de pensar em tudo isto!
Reli, hoje, estas palavras que o ismaelita Faranaz Keshavjee publicou na véspera de Natal:
Já tinha ouvido o Aga Khan, o Imã dos Ismailitas, dizer numa entrevista recente que não se pode pensar em choque de religiões quando existe tanto em comum entre as religiões de Abraão. De resto, também o sr. cardeal-patriarca Dom José Policarpo recentemente o disse, que há muito mais convergências do que divergências nestas tradições religiosas. Agora, reflectindo sobre o que fiquei a conhecer, compreendo melhor o que isto quer dizer.Jesus é para os muçulmanos não só um Profeta mas também um Guia Espiritual que se demarcou de muitos outros tanto na forma como o Alcorão o descreve, enquanto um ayat (sinal) de Deus, mas também como um exemplo a seguir, na forma como os Evangelhos Muçulmanos proporcionaram o conhecimento sobre Jesus e moldaram a espiritualidade nas várias civilizações islâmicas. Jesus surge no Alcorão e nos Evangelhos (ditos) Muçulmanos como o Profeta do Amor; o Guia das virtudes cardinais: a Paciência, a Humildade, a Renúncia ao materialismo, o Silêncio. Jesus também aparece como o "obreiro dos milagres"; o "viajante"; o "arrependido"; o "Redentor". Jesus é para os muçulmanos o Selo dos Santos. Jesus, é o grande Sufi. Jesus também é muçulmano! (…)
Há uma semana, estas palavras pareceram-me uma porta aberta. Hoje, a náusea só me deixou sentir um nó na garganta.
(1) Pelos vistos não fui a única a dar importância à coincidência das datas. No seu editorial do dia 1 de Janeiro no DN, António José Teixeira faz notar isso mesmo.