24/06/2008

Exames Nacionais


Enquanto não há tempo para mais...

Está aqui

Retirei-lhe a legenda porque orientava a leitura para um sentido que, agora, me não importa tanto.

14/06/2008

Coisas

1

Fica na Avenida da Índia, junto a Belém. É a mais importante biblioteca e arquivo da arqueologia portuguesa. Grande parte do seu espólio está por estudar, porque isto da arqueologia em Portugal só pode ser feito em tempo parcial – nas férias dos professores universitários que se fazem acompanhar dos seus alunos. Tratando-se de um acervo importante da nossa memória colectiva, merece ser tratado com carinho.

O Museu dos Coches, bem sei, é o mais visitado museu português porque os luxos ostensivos de D. João V espalharam ouro por tudo quanto era meio de transporte da realeza. Merece ser visto. Assim o intuiu D. Amélia que lhe proporcionou abrigo condigno.

Hoje, em que o gosto de mostrar é, pelos vistos, superior ao gosto de fazer, querem mudar o Museu dos Coches. Destinaram-lhe o espaço da biblioteca de arqueologia (que será demolido) para a qual nenhuma das pessoas com competência de decidir se preocupou em encontrar alojamento alternativo. Nem para os livros, nem para os materiais arqueológicos que lá se conservam, em condições técnicas de que mais nenhum espaço dispõe. Para que não sejam só os arqueólogos a importarem-se, aqui fica o link para a petição que está a circular na internet.



2

Calcorrear Lisboa é dos maiores prazeres que tenho. Em Abril, subindo ao Castelo, parei numa pequena praça que se forma na Rua Augusto Rosa, encostada à Sé Patriarcal. Entrei na Fabula Urbis que é um espaço pequeno mas magnificamente aproveitado como livraria e sala de exposições e é pertença do meu amigo João Pimentel. À saída comentei: está tão linda, esta praça. Que bem ficam aqui as floreiras. A Câmara esmerou-se! Qual Câmara? Fomos nós, os moradores, que fizemos tudo! Bem-hajam, então, os moradores que deram vida nova a este bocadinho da cidade.

Agora, pelos vistos, a Câmara quer retirar tudo e os moradores até tiveram que se pôr de atalaia. Quem diabo entende estes serviços e estes senhores que nos governam?

31/05/2008

Assaltos

Recebi por via electrónica. Não sei quem é o autor, mas não resisto a publicar. Sobretudo, porque não há tempo para mais.

26/05/2008

Recados

E ao baixar os olhos mais de espaço,
mirabilmente vi que era torcido
cada um entre seu mento e o busto lasso,
que o rosto para os rins era volvido,
e só vir para trás lhe conviria,
pois por diante lhe era tolhido.
Talvez por força de paralisia
torcer-se alguém assim todo, reputo,
mas nunca vi ninguém nem haveria.
Leitor, se Deus te deixa colher fruto
desta lição, por ti pensa por certo,
como eu podia ter o rosto enxuto,
quando essa nossa imagem vi de perto,
mas tão torta seu choro desabrocha
que as nalgas vai banhar em rego aberto.

Dante, O Inferno Canto XX (Círculo oitavo)






Botticelli, ilustração para o Canto XVIII do Inferno de Dante







«Ai de mim, mestre, o que é isto que vejo?»
disse eu. «Ah, esta escolta antes desfaçam,
e vamos sós; que eu cá não a desejo.
Tão avisado que és, não vês que passam
eles agora a arreganhar os dentes,
e os cenhos carregados ameaçam?»
E ele a mim: «Ao medo não te tentes,
deixa-os arreganhar se a gana é tal,
que o fazem aos cozidos lá dolentes.»
Voltam no dique à esquerda do local;
mas não sem que cada um a língua meta
entre os dentes, ao chefe, por sinal:
e ele tinha do cu feito trombeta.

Dante, O Inferno Canto XXI (Círculo oitavo)
Trad. Vasco Graça Moura

22/05/2008

Chamam honra a isto. Malditos sejam!



Vídeo retirado daqui

17/05/2008

ASAE

Hoje deu-me para isto: o plágio. Não das ideias nem do conteúdo, que não sou de tais manhas, antes da forma. Aí sim, é plágio integral e continuará a ser plágio, embora o anuncie. Despudoradamente, plagio a forma criada pela, por mim muito estimada, Porca da Vila. Vamos lá, então.

A Autoridade para a Segurança Alimentar e Económica (ASAE) está a aplicar com rigor os regulamentos comunitários de higiene às instituições de solidariedade social: exige que as cozinhas tenham os mesmos requisitos que as de um restaurante, proíbe as instituições de aceitar alimentos dados pelas populações e deita fora toda a comida congelada em arcas normais. A ASAE alega que o regulamento comunitário sobre legislação alimentar se aplica a qualquer empresa do sector "com ou sem fins lucrativos".
(...)
Uma das exigências é a existência de um túnel de congelação - uma máquina que faz uma congelação ultra-rápida dos alimentos.

17.05.2008, Sofia Rodrigues, in Público


Segundo a DREL, os cerca de 300 alunos da escola deverão ser transferidos para a vizinha Secundária Gago Coutinho, que tem melhores condições e perto de 800 alunos. Mas subsistem dúvidas quanto à continuidade dos cursos que existiam na Infante D. Pedro e sobre o futuro dos professores e funcionários. A presidente do conselho executivo da Gago Coutinho já disse que esta escola vai ter muitas dificuldades em acolher todos os alunos da SIDP. Segundo refere, o estabelecimento tem capacidade para 42 turmas, já está a funcionar com 44 e deverá ter que formar 56 com a entrada dos 300 alunos da Infante D. Pedro.
17.05.2008, Jorge Talixa, in Público

A fotografia foi roubada, despudoradamente, daqui

A ASAE, benza-a Deus, vela por nós e assegura o cumprimento da garantia constitucional de que nenhum português pode ser alvo de discriminação. Se nenhum português, na cantina da empresa, pode comer comidinha caseira, cozinhada com produtos da horta em panela mexida com colher de pau, porque hão-de poder os pobres?

A ASAE, benza-a Deus, sonha com o dia em que, por lei, poderá invadir as nossas casas para atestar da existência de túneis de congelação. Não havendo, zás, vai tudo para o lixo. Os ratos que engordem, porque mais vale portugueses famélicos do que portugueses que não obedecem às leis da higiene alimentar.

A ASAE, benza-a Deus, só se dará por satisfeita quando, a bem das regras, sobre a mesa dos portugueses nada restar não ser a esterilidade desinfectada.

Para quando a criação de uma ASAE das escolas?

10/05/2008

Carta de Pina Manique

Ferreira Fernandes lembrou-me ontem dela, no DN. Deixo-a aqui, inteirinha, endereçada a todos os de direito.

Exmo. Sr. Duque de Cadaval:

Se meu nascimento, embora humilde, mas tão digno e honrado como o da mais alta nobreza, me coloca em circunstância de V. Excia. me tratar por TU - Caguei para mim que nada valho.

Se o alto cargo que exerço, de Corregedor da Justiça do Reino em Santarém, permite a V. Excia., Corregedor Mor da Justiça do Reino, tratar-me acintosamente por TU, - Caguei para o cargo.

Mas, se nem uma nem outra coisa consentem semelhante linguagem, peço a V. Excia. que me informe com brevidade sobre estas particularidades, pois quero saber ao certo se devo ou não Cagar para V. Excia.

Santarém, 22 de Outubro de 1795

PINA MANIQUE Corregedor de Santarém


Sói lembrar-se que Pina Manique, então, Corregedor de Santarém, será o futuro Intendente Geral de Polícia. O Duque de Cadaval, Corregedor-Mor da Justiça do Reino, era, à data da carta, o superior hierárquico de Pina Manique. Esta carta está na Biblioteca Nacional de Lisboa.

07/05/2008

Louros e nódoas

Grande Lisboa, a meio da tarde. A senhora estaciona o automóvel perto de casa. Sai e anda meia dúzia de passos. Três jovens aproximam-se dela: "A chave do carro!" - exigem, ameaçando com a faca no bolso.

Duas semanas mais tarde, noutro local da grande Lisboa, a meio da tarde. A senhora estaciona o automóvel e larga a filha à porta da casa da explicadora. Inexperiente, porque o modelo era novo, trancara a direcção e não estava a ser capaz de voltar a pôr o carro em marcha. Senta-se e abre o livro de instruções, atenta ao automóvel da frente, onde, três jovens cochicham, entram e saem, mexem em objectos. A senhora assusta-se e telefona para a polícia que chega em breves minutos, no preciso momento em que o condutor suspeito, manobrando, encostava o seu ao lado do carro da senhora, tolhendo-lhe os movimentos. Os dois comparsas têm tempo de fugir, mas o condutor é preso.

No mesmo dia, à noitinha, a primeira das duas senhoras recebe um telefonema da polícia: o seu atomóvel fora encontrado. Na esquadra relatam-lhe as circunstâncias e informam-na de que o seu veículo ficará apreendido por alguns dias para que a Judiciária possa fazer as necessárias peritagens.

Três dias depois, ansiosa, a senhora vai levantar o carro. Estava sujo por fora e por dentro, por causa do pó de detecção de impressões digitais, mas fora isso, não se vislumbrava nenhum problema. Dentro do porta-bagagens, informam-na, fora apreendida uma caçadeira.

Apesar da boa aparência, pareceu-lhe conveniente levar o carro ao mecânico, seu conhecido de longa data. Chegada a casa, recebe telefonema do mecânico, insistindo com ela para que fosse à oficina. Não lhe podia dizer nada por telefone. Aí chegada, o mecânico pede-lhe que veja o que está dentro da bolsa pendente das costas do banco do condutor: uma pistola foi o que os seus olhos viram. Calibre de guerra, foi o que lhe disse a brigada da Judiciária onde se dirigiu para a entregar.

E esta história, que começara tão bem com a intervenção pronta da PSP, termina desta maneira!

04/05/2008

Máxima

Olho para os meus filhos e não gosto de os ver velhos. Deus não fez as coisas bem!


Tia Maria Amélia

01/05/2008

Trabalho

Desde a Idade Média que o trabalho é considerado direito do povo: apenas daí lhe vinha o sustento e a vida. Séculos passados, a revolução de Abril consagraria constitucionalmente tal direito. Hoje, pese embora, as sucessivas revisões constitucionais, tal direito mantém-se consagrado, embora com redacção distinta da original. A versão actual fui buscá-la ao portal do governo que faria bem se a consultasse todos os dias. Reza assim:

Constituição da República Portuguesa


(Sétima revisão constitucional - 2005)

PARTE I - Direitos e deveres fundamentais


TÍTULO III
Direitos e deveres económicos, sociais e culturais

CAPÍTULO I
Direitos e deveres económicos

Artigo 58.º
(Direito ao trabalho)

1. Todos têm direito ao trabalho.

2. Para assegurar o direito ao trabalho, incumbe ao Estado promover:

a) A execução de políticas de pleno emprego;

b) A igualdade de oportunidades na escolha da profissão ou género de trabalho e condições para que não seja vedado ou limitado, em função do sexo, o acesso a quaisquer cargos, trabalho ou categorias profissionais;

c) A formação cultural e técnica e a valorização profissional dos trabalhadores.

25/04/2008

Nem que fosse só por isto

Ora amarelos, ora verdes, dobrados em partes, deixavam ver no exterior algumas linhas traçadas a negro. Eram os aerogramas.

Chegavam ao ritmo do possível; aflita a espera se havia demora. Lá dentro, algumas palavras calculadamente riscadas no intuito de impedir a leitura do engano ou da mensagem. E nós sem sabermos se fora o autor ou alguém sem nome nem rosto nem corpo, mas tão presente, tão abafadoramente presente, como o medo da guerra e o temor pelos nossos.










Os aerogramas eram lidos com a avidez de quem sacia longa sede. Primeiro baixo, movendo os lábios. Era assim que a mãe bebia cada palavra dos filhos e os outros presentes ficavam suspensos dos rictos desses lábios e das pausas que faziam. No fim, a mãe dizia para uma das filhas: "lê lá tu, alto." E no fim: "Lê outra vez." E em cada leitura pedia que se repetissem passagens, como se quisesse gravar aquelas palavras para ser capaz de as reproduzir, para si própria, imaginando a voz dos filhos. Só o pai assumia comportamento diferente: sentado, cabeça descaída, olhar fixo no chão. As mãos cruzava-as sobre os joelhos, para que ninguém visse quando cravava as unhas na carne, a esconjurar a dor.

Nos aerogramas falava-se da saudade e do carinho, perguntava-se pela família, sendo eloquentes pelo que silenciavam e nós nem nos atrevíamos a supor. Calava-se o medo e iludia-se a morte.

Um dia, de madrugada, duas canções: primeira senha, segunda senha. Começara o fim do medo. Não tardaria, aqueles que escreviam os aerogramas diriam, ao vivo, as misérias que viveram, em catadupa como se tivessem medo de esquecer e quisessem fazer de nós testemunhas.

Bem-haja quem no-los devolveu.

*****
O aerograma amarelo foi retirado daqui e o verde daqui.

21/04/2008

Pra não dizer que não falei das flores

/div>

Alguém se lembra, ainda, desta maravilha? Quem se lembra que o autor se chama Geraldo Vandré e que a escreveu para a realidade da ditadura brasileira, irmã gémea da nossa?

Palavras simples, mas que interpelam tanto!


Caminhando e cantando

E seguindo a canção

Somos todos iguais

Braços dados ou não

Nas escolas, nas ruas

Campos, construções

Caminhando e cantando

E seguindo a canção...


Vem, vamos embora

Que esperar não é saber

Quem sabe faz a hora

Não espera acontecer...


Pelos campos há fome

Em grandes plantações

Pelas ruas marchando

Indecisos cordões

Ainda fazem da flor

Seu mais forte refrão

E acreditam nas flores

Vencendo o canhão...


Vem, vamos embora...


Há soldados armados

Amados ou não

Quase todos perdidos

De armas na mão

Nos quartéis lhes ensinam

Uma antiga lição:

De morrer pela pátria

E viver sem razão...


Vem, vamos embora...


Nas escolas, nas ruas

Campos, construções

Somos todos soldados

Armados ou não

Caminhando e cantando

E seguindo a canção

Somos todos iguais

Braços dados ou não...

Os amores na mente

As flores no chão

A certeza na frente

A história na mão

Caminhando e cantando

E seguindo a canção

Aprendendo e ensinando

Uma nova lição...


Vem, vamos embora...

19/04/2008

Máximas tiradas de Lot

Lot's Wife, de E. Thor Carlson

Quando saíres de um lugar abominável não tenhas pena dos justos que lá deixaste, porque todos os justos saíram contigo.

Nunca olhes para trás nem te apiedes: a maldade dos que ficaram sorverá o teu olhar, secar-te-á o ser e transformar-te-á em estátua de sal.

11/04/2008

Depois de nós

A Natureza conserva a memória do início dos tempos. Pode parecer quieta mas, em silêncio, aguarda que os pés dos homens deixem de trilhar os caminhos. Então, sem mais delongas, adona-se novamente do chão que lhes emprestara.

Também as casa, santuários protectores dos elementos, conhecerão o mesmo destino. Talvez sejamos nós as últimas testemunhas de que, aqui, se ouviram os risos dobrados das crianças: os nossos risos! Talvez, por isso, sejamos nós os únicos a sentir este nó que nos sufoca a garganta.

06/04/2008

O Gato Malhado e a Andorinha Sinhá

No artigo anterior referia-me ao facto de, sob meu ponto de vista, a autora não ter escrito uma única frase que fosse apelativa e me prendesse a atenção. Hoje apetece-me dar exemplo do contrário. Escolhi um autor maior da literatura em Língua Portuguesa, em texto muito pequeno. O livrinho pode ler-se num piscar de olhos, mas quem gosta de desbravar o significado das palavras e dos gestos, de se deleitar a visualizar as imagens e de se surpreender com elas, enfim, quem aprecia a escrita com o mesmo prazer com que degusta o melhor dos manjares, certamente lerá, com todo o vagar, O Gato Malhado e a Andorinha Sinhá, de Jorge Amado. Transcrevo, aqui, algumas passagens.

Manhã vem chegando devagar, sonolenta; três quartos de hora de atraso, funcionária relapsa. Demora-se entre as nuvens, preguiçosa, abre a custo os olhos sobre o campo, ai que vontade de dormir até não ter mais sono! Se lhe acontecer arranjar marido rico, a Manhã não mais acordará antes das onze e olhe lá. (...) Sonhos de donzela casadoira, outra a realidade da vida, de uma funcionária subalterna, de rígidos horários. Obrigada a acordar cedíssimo para apagar as estrelas que a Noite acende com medo do escuro. A Noite é uma apavorada, tem horror às trevas.

Com um beijo, a Manhã apaga cada estrela enquanto prossegue a caminhada em direção ao horizonte. Semi-adormecida, bocejando, acontece-lhe esquecer algumas sem apagar. Ficam as pobres acesas na claridade, tentando inutilmente brilhar durante o dia, uma tristeza. Depois a Manhã esquenta o Sol, trabalho cansativo, tarefa para gigantes e não para tão delicada rapariga. (...) Sozinha, a Manhã levaria horas para iluminar o Sol, mas quase sempre o Vento, soprador de fama, vem ajudá-la. Por que o bobo faz questão de dizer que estava passando ali por acaso quando todos sabem não existir tal casualidade e sim propósito deliberado? Quem não se dá conta da secreta paixão do Vento pela Manhã? (...)

Por mais cedo fosse, mais frio fizesse, estivesse onde estivesse, (...) pela madrugada arribava ele em casa do Sol para cooperar com a Manhãzinha. Sopra que sopra com a imensa bocarrona de ar. Apenas porém a brasa crescia em labareda, o Vento deixava por conta da Manhã atiçar a chama com o abanador das brisas e começava a recordar aventuras (...).
Fanática por uma boa história, a Manhã se atrasa ainda mais (...). Pouco dada ao trabalho, a manhã deixa-se ficar embevecida a escutar (...) causando irremediável transtorno aos relógios, obrigados a diminuir o ritmo dos pêndulos e ponteiros, na dependência da chegada da Manhã para marcar as cinco horas em ponto. Muitos relógios enlouqueceram, não voltaram jamais a marcar a hora certa (...). (pp. 15-18)


Também os galos deixaram de saber às quantas andavam e, por isso, num dia em que o atraso foi ainda maior, eles e os relógios queixaram-se ao Tempo, "senhor de todos eles". O Tempo, para quebrar a monotonia da eternidade, aceita não castigar a Manhã se ela lhe contar a história que a fez atrasar-se tanto. E a Manhã conta-lhe a história que ouviu do Vento sobre os amores do Gato Malhado e da Andorinha Sinhá, história que não pode ter desenlace feliz, pois não se está mesmo a ver que os gatos e as andorinhas foram sempre inimigos figadais?

É no Outono que os protagonistas percebem que o seu amor não pode durar. Jorge Amado dá-nos conta da mudança com as seguintas palavras:


No outro dia o Outono chegou, derrubando as folhas das árvores. O Vento sentia frio, e, para esquentar-se, corria zunindo pelo parque. O Outono trazia consigo uma cauda de nuvens e com elas pintou o céu de cores cinzentas.
(p. 85)


A Andorinha Sinhá casa-se com o rouxinol.


No momento em que o cortejo nupcial, numa revoada, saía da capela, a Andorinha viu o Gato no seu canto. Não sei que jeito ela deu no voar que conseguiu derrubar sobre ele uma pétala de rosa, das rosas vermelhas do seu buquê de noiva. O Gato a colocou sobre o peito, parecia uma gota de sangue. (...) Já não havia futuro com que alimentar o seu sonho de amor impossível. Noite sem estrelas, a da festa de casamento da Andorinha Sinhá. Apenas uma pétala vermelha sobre o coração, uma gota de sangue.


A música doía-lhe no coração. Canção nupcial para os noivos; para o Gato Malhado, canto funerário. Tomou da pétala de rosa: olhou mais uma vez o parque coberto pelo Inverno, saiu andando devagar. Conhece um lugar longínquo, onde vive apenas a Cobra Cascavel, que ninguém aceita nos parques nem nas plantações. O Gato tomou a direção dos estreitos caminhos que conduzem à encruzilhada do fim do mundo. (pp. 107-109)

Jorge Amado, O Gato Malhado e a Andorinha Sinhá, Publicações D. Quixote, 2002

01/04/2008

Um livro



Apresentação

D. Sebastião e Miguel Leitão de Andrada nasceram em datas muito próximas. Deana Barroqueiro faz dessa coincidência o início e o pretexto do romance: “D. Sebastião e o Vidente”. O vidente é, naturalmente, Miguel de Andrada, o autor da “Miscelânea”, obra que reúne vários poemas, lendas, etc. e uma bela descrição da batalha de Alcácer Quibir na qual o autor participou.

É um livro muito longo que termina na página 629 com o latino “Finis”. Ao longo dessas páginas, a autora dá mostras da muita e árdua pesquisa que fez e que lhe serviu para descrever bem os ambientes e situar correctamente as personagens e os factos históricos. Para mim terminam aí as virtudes do livro.

Estilo

Há pouco a dizer sobre o estilo de Deana Barroqueiro, a não ser que não escreve capítulos maiores do que três ou quatro páginas facto que, só por si (porque se trata de artimanhas para prender o leitor), já é um insulto ao próprio leitor, insulto que vai repetindo pela voz do narrador com tiradas parecidas com isto: haverá já muitos leitores que estão de garras de fora para criticarem; esses que parem por aqui. A autora saberá (e quem a leu, também) que obras tomou por modelo quando começou a recear a crítica!

O romance está escrito numa prosa escorreita e certinha, pouco entusiasmante como uma linha recta. Ali não há rasgos literários e não se encontra uma frase em que o leitor se possa deter para a saborear melhor.

Toda a gente sabe de quem é o verso "amor é fogo que arde sem se ver". As normas da escrita ordenam, no entanto, que se utilizem aspas ou itálico e, naturalmente, se faça referência ao autor. Frequentemente, Barroqueiro não faz uma nem outra coisa. Mas faz mais: quando cita (percebe-se que é citação porque surge em itálico) não indica a fonte, o que, além de irritante, está errado. Ainda sobre citações, faz aparecer alguns poemas em contexto algo que, sendo exercício interessante a realizar com alunos, me parece de pouca valia para a literatura, tanto mais que faz parecer que os poetas não pensam os poemas e que os não trabalham, surgindo-lhes prontos e perfeitos.

Enredo

1 – A ideia não me parece má para um romance: uma criança nasce em data próxima do nascimento do rei Desejado e começa, desde menino, a ter visões terríveis. O romance, para fazer sentido (e jus ao título), deveria ter aproximado as duas personagens, mas a verdade histórica, a que a autora quer ser fiel, impede tal aproximação. Os dois falam-se, apenas, uma vez, durante o périplo de D. Sebastião pelo Algarve. E é por essa distância que o enredo não faz sentido, já que as visões de Miguel Leitão de Andrada nunca chegam ao conhecimento do Rei nem, coisa estranha, advertem o vidente dos perigos que o seu rei irá correr. Pelo contrário, ao longo da trama, apesar das visões, Miguel mostra-se um defensor acérrimo do Desejado e um entusiasta da conquista de África.

2 – A autora quer, a todo o custo, explicar a aversão de D. Sebastião pelo casamento. Para isso, lança mão da tese, (contestadíssima pelos historiadores) segundo a qual, o rei sofria de gonorreia. Não é a verosimilhança da doença que aqui se contesta. O que não posso tolerar é o ferrete lançado sobre uma figura real: Cristóvão de Moura.

Para quem se não lembra, Cristóvão de Moura, fidalgo português, partiu para Espanha integrando a casa da princesa D. Joana, mãe de D. Sebastião que, pouco tempo depois de ver o filho nascido, regressou ao seu país, tendo ajudado o irmão Filipe na governação e assumido, por algumas vezes, o cargo de regente. Cristóvão de Moura tem o seu nome manchado entre os mais férreos patriotas portugueses que o acusam de traidor porque, desde sempre, se assumiu fiel de D. Filipe, tendo-lhe sido muito útil nos meandros da compra do voto da nobreza portuguesa. Não vem ao caso defendê-lo nem atacá-lo, antes, estranhar como é que alguém, sem provas concretas, o acusa de acto profundamente maquiavélico e ignóbil. Segundo a autora, Cristóvão de Moura, de conluio com os próceres do rei menino (então com onze anos), terá feito com que uma prostituta infectada com gonorreia seduzisse o donzel, tendo como único objectivo impedir que o rei viesse a ter filhos e assim, quando D. Sebastião morresse, Filipe II alcançaria a almejada união ibérica. É uma acusação medonha que escamoteia os conselhos que Filipe II deu ao sobrinho, no sentido de evitar que se lançasse na loucura africana!

3 – De novo, a questão do vidente. O livro chega ao fim com o desenlace da batalha de Alcácer Quibir cuja descrição é das poucas páginas com interesse. Tendo em conta a importância da personagem, seria de esperar que, ao menos em breve resumo, nos fosse contado o resto da vida de Leitão de Andrada, até porque a autora nos deixou suspensos dos seus amores com a prima Beatriz que enviuvara muito antes da batalha. Ora, em termos amorosos, a biografia do cronista de Alcácer Quibir diz-nos que, regressado ao reino após o cativeiro em Fez, se casou em primeiras núpcias com D. Inez de Atouguia e, só depois da morte desta, logrou casar-se com sua prima Beatriz de Andrada. Enfim, fios que ficaram por tecer, dando origem a uma urdidura frouxa e pouco cativante.

*****
Nota
: o livro já recebeu, pelo menos, o prémio Máxima de Literatura, de 2007

24/03/2008

Máxima

Os mortos já se foderam, bamos mas é falar dos bibos!
Tia Maria
Na terra do sossego cada alma é sábia criadora de máximas, mas as da tia Maria são sempre assim, bem humoradas!

01/03/2008

DECÁLOGO DO TIRANO PRINCIPIANTE

No dia 3 de Junho de 2006, inspirada pelos primeiros passos do actual governo, escrevi o seguinte decálogo. Reedito-o hoje, sem nada ter que mudar.


Nos tempos pós-modernos (ainda é assim que se escreve?), o príncipe deve saber, antes de mais, que algumas máximas de Maquiavel estão desactualizadas: já não interessa parecer virtuoso, importa parecer. Apenas parecer, parecer qualquer coisa (corajoso, obstinado, trabalhador, bem vestido...).

Para conservar o poder, o príncipe deve:

1 - Escolher um alvo a abater. Um de cada vez, porque abrir várias frentes de guerra pode conduzir à derrota. Esse alvo pode ser dividido em vários alvos menores, para parecer que a luta é dura. Quanto mais duro parecer o combate, mais corajoso parecerá o príncipe.

2 - Considerar como essencial que o alvo escolhido para abatimento deve ser composto por gente com pouca capacidade de combate.

3 - Antes de iniciar a guerra, o príncipe precisa de preparar o "terreno", semeando mentiras que pareçam verdades. Algumas das mentiras podem ser verdades parciais. Por exemplo, generalizar a todo o grupo as más práticas de alguns, ou mostrar como esse grupo goza de privilégios a que mais ninguém tem acesso. Com este exercício, o príncipe conseguirá:

a) semear a discórdia entre os membros do grupo a abater e encontrar apoiantes, até, entre aqueles que quer arrasar;

b) o aplauso de todos aqueles que ainda não são os alvos a abater. A melhor prova de que a estratégia teve sucesso surgirá quando, aqueles que ainda não são os alvos a abater, começarem a rotular os membros do alvo a abater de preguiçosos, parasitas, etc.

4 - Preparado o terreno, o príncipe pode responsabilizar o alvo a abater de todos os males da república. Nessa altura, os membros do alvo a abater estarão tão fragilizados que, mesmo que consigam falar, os apupos da populaça não permitirão que sejam ouvidos ou, sendo-o, serão acusados de apenas quererem manter os seus privilégios e de não se importarem com o bem comum. O príncipe nem precisará de falar.

5 - É preciso que pareça que o príncipe trabalha muito. Ele deve parecer a antítese do alvo a abater. O príncipe deve comparecer a muitas reuniões, a maioria das quais aos fins-de-semana, chamar as televisões e aproveitar a oportunidade para divulgar mais algumas meias-verdades.

6 - É preciso que pareça que o príncipe se sacrifica, a si e à família, em prol do bem comum. As reuniões de fim-de-semana, feriados, etc. para isso contribuirão também. Com isto, o príncipe conseguirá envergonhar os membros do alvo a abater. Por esta altura, alguns membros do alvo a abater já se sentirão, de facto, privilegiados, e disponíveis para receber, de braços abertos, a sentença que o príncipe vier a decretar.

7 - Os membros envergonhados do alvo a abater serão apresentados como prova de que o príncipe tem razão. Serão instrumentos utilíssimos na guerra inter-pares que convém espicaçar. A autofagia provará a vitória do príncipe.

8 - Destruído o primeiro alvo a abater, o príncipe escolherá o próximo alvo a abater. A estratégia a seguir será exactamente a mesma. Os membros do alvo abatido engrossarão as fileiras dos que apoiarão as medidas que o príncipe tomar contra o alvo a abater no momento.

9 - Demagogia, populismo e fascismo serão palavras que alguns escreverão ou dirão, mas serão muito poucos. A esses, se não lhes conseguir tocar, o príncipe deve chamá-los às franjas do poder: eles iluminarão os seus salões e provarão que o príncipe é pessoa que aprecia a crítica e gosta de ouvir. Contribuirão para a aparência.

10 - O príncipe deve ter sempre em mente que o seu objectivo não é governar bem, é manter o poder. O poder só pode ser mantido se for exercido sobre súbditos submissos.

27/02/2008

Avaliações

1 - Os serviços do M. Educação avaliam as direcções das escolas e os coordenadores de departamento.

2 -
As direcções das escolas avaliam os coordenadores de departamento e restantes professores.

3 -
Os coordenadores de departamento avaliam os professores dos seus departamentos.

4 -
Para todos: membros da direcção; coordenadores e restantes professores há quotas na atribuição das duas classificações máximas, ou seja:

quem avalia é candidato à mesmas (escassas) classificações dos avaliados.

Onde está a seriedade do processo?

Mas só eu é que reparo nisto?

24/02/2008

Hino


Procuro-te e invoco o teu nome
Ó benfazeja!
Quando te derramas sobre a Terra
É como se mil dedos lhe acariciassem o corpo
E os passos de mil pardais
A tocassem levemente
Fazendo ecoar infinitos e ínfimos tambores.

És o corpo bem-amado
Que a terra, ventre sequioso,
Espera e recebe em espasmo.
És o sémen que os céus vertem
Para que a vida se multiplique e seja pródiga.

Quando vens,
Ó chuva,
Os meus sentidos cantam de alegria!