A grande revolução no modo de encarar a História operou-se no início do séc. XX, reflectindo directamente as novas teorias da Física de Einstein. Ela está associada à revista Annales mas, sobretudo, à História Nova cuja cúpula é Fernand Braudel. Entre nós, o seu representante maior é Vitorino Magalhães Godinho que, numa interpretação muito original e lúcida dos tempos e ritmos da História, criou o conceito de Complexo Historico-Geográfico. Tal conceito significa que uma determinada realidade tem que ser interpretada à luz das estruturas da época e das diversas conjunturas que estabelecem relações múltiplas entre si e com outras de outros lugares, construindo um todo com sentido. É uma História vista à luz de modelos e, para mim, continua a ser aquela que melhor interpreta o tempo histórico que não é linear nem simples nem simplista. A ideia de que a velocidade confere características diferentes ao tempo é, pois, o grande contributo da Física para a História.
A História é antiga como a ciência e a sua mãe é a Grécia clássica. A História ciência, porém, nasceu no séc. XIX pela mão dos positivistas. Se quisermos, Herculano foi um positivista. A sua História é cristalina porque rigorosa; avessa a sentimentos porque contrários à real explanação dos factos. O positivista é escrupuloso na leitura dos documentos; apresenta apenas os factos que pode comprovar – somente esses – e recusa qualquer veleidade interpretativa. Foi por isso que Herculano rejeitou a integração na sua História de Portugal do milagre de Ourique, o que lhe valeu crítica acesa dos contemporâneos. Mas é por isso que, ainda hoje, se queremos a verdade dos factos é em Herculano que os procuramos. Nele e em Oliveira Marques (e em poucos mais), o último historiador positivista que sempre se recusou a utilizar a História como instrumento político. É por isso que a sua História de Portugal, ao contrário de outras, integra a minha biblioteca e, ao contrário de outras também, fornece-me os dados de que preciso, sempre que busco informação. O seu critério é a verdade, por isso é fidedigno.
Mas não deve o historiador combater a ditadura? Deve! Como? Estudando os assuntos proibidos e aqueles que são deturpados pelo regime, porque usados como propaganda! E foi por isso que Oliveira Marques estudou a I República, tema tabu para o Estado Novo, e nos deu a conhecer os documentos que nos ensinam como era a vida quotidiana durante a Idade Média.

Uma sociedade que preza a sua História deveria conhecer os seus historiadores. Oliveira Marques faleceu outro dia. Quem deu por isso?