29/09/2009

Mafaldinha

Bem sei que Quino não permite a publicação da sua Mafaldinha na internet. Apesar disso, não resisto à tentação, porque fez hoje 45 anos! Parabéns Mafaldinha...



(...e uma tirinha surripiada para nos fazer rir...)



29/06/2009

S. PAULO


El Greco, S. Paulo


Hoje é dia de S. Paulo. Também é de S. Pedro, porque a igreja cristã achou por bem reunir as duas pessoas numa única celebração, que é a dos fundadores dessa igreja. Entre nós, S. Paulo tem saído a perder e não me parece justo porque foi do seu labor que nasceu um cristianismo aberto a todos (outros do seu tempo queriam-no limitado aos circuncisos) e foi do seu pensamento, alicerçado na absoluta dedicação à mensagem de Cristo, que a dignidade humana foi alcandorada a alturas, antes, impensáveis:



Não há judeu nem grego;
não há escravo nem livre;
não há homem e mulher,
porque todos sois um só em Cristo.

(Epístola aos Gálatas, 3, 27-28)


A escrita de S. Paulo é poética, embora não quebre os versos. Aqui fica aquela que é, talvez, a mais bela das suas poesias - o capítulo 13 da primeira carta aos Coríntios, hoje, dia em que termina a celebração do ano paulino dedicado aos 2000 anos do nascimento do apóstolo que não conheceu Jesus em pessoa.

Ainda que eu fale as línguas dos homens e dos anjos, se não tiver caridade, sou como um bronze que soa ou um címbalo que retine. Ainda que eu tenha o dom da profecia e conheça todos os mistérios e toda a ciência e ainda que eu tenha toda a fé, de tal modo que remova montanhas, se não tiver caridade, nada sou. Ainda que eu distribua todos os meus bens e ainda que eu entregue o meu corpo para ser queimado, se não tiver caridade, de nada me aproveita. A caridade é paciente, bondosa é a caridade, não ferve de inveja, não se ostenta, não se orgulha, nada faz de inconveniente, não procura o seu interesse, não se irrita, não guarda ressentimento, não se alegra com a injustiça, mas alegra-se com a verdade; tudo suporta, tudo crê, tudo espera, tudo aguenta. A caridade jamais acaba. As profecias serão abolidas, as línguas cessarão e a ciência será abolida. Pois o nosso conhecimento é fragmentário e fragmentária é também a nossa profecia. Mas, quando vier o que é perfeito, o que é imperfeito será abolido. Quando eu era criança, falava como criança, pensava como criança, raciocinava como criança. Mas, quando me tornei homem, deixei o que era próprio de criança. Agora vemos como num espelho, de maneira enigmática; depois veremos face a face; agora conheço de modo fragmentário; depois reconhecerei como fui reconhecido. Agora permanecem a fé, a esperança, a caridade, estas três; mas a maior delas é a caridade.

(1Cor, 13)

25/04/2009

Abril

Porque hoje é Abril e faz falta acordar


Acordai
acordai
homens que dormis
a embalar a dor
dos silêncios vis
vinde no clamor
das almas viris
arrancar a flor
que dorme na raíz

Acordai
acordai
raios e tufões
que dormis no ar
e nas multidões
vinde incendiar
de astros e canções
as pedras do mar
o mundo e os corações

Acordai
acendei
de almas e de sóis
este mar sem cais
nem luz de faróis
e acordai depois
das lutas finais
os nossos heróis
que dormem nos covais
Acordai!

Não será preciso, mas:
Poema de José Gomes Ferreira
Música de Fernando Lopes Graça (in Canções Heróicas)
Canta o Coro da Academia de Amadores de Música, vulgo, Coro Lopes Graça

17/04/2009

GERAÇÃO Y

Saída directamente da minha caixa de correio:

What is Generation Y? Hmm, I've always wondered this myself. Now I know.


- The Silent generation, people born before 1946.

- The Baby Boomers, people born between 1946 and 1959.

- Generation X, people born between 1960 and 1979.

- Generation Y, people born between 1980 and 1995

Why do we call the last one generation Y? I did not know, but acartoonist explains it eloquently below...
Learned something new today!

27/02/2009

A Crise

Interessantíssima, esta explicação da crise. Vale a pena ver tudo.


The Crisis of Credit Visualized from Jonathan Jarvis on Vimeo.

01/12/2008

Senhor Inverno

Seja muito bem-vindo, senhor Inverno

com sua chuva doce e benfazeja,

sua neve calma, bela e límpida

e seu frio útil e retemperador!




Seja muito bem-vindo, senhor Inverno, pela promessa do recomeço!

Fotografias gentilmente oferecidas por minha irmã A.M.

25/11/2008

Ironia às escâncaras

Imagem retirada daqui.

Investido em Presidente do Conselho, Salazar ter-se-á rido com este pedido , digamos assim, escrito em Português Técnico, dirigido ao ministro da agricultura:


- E X P O S I Ç Ã O -

Porque julgamos digna de registo
a nossa exposição, senhor Ministro,
erguemos até vós, humildemente,
uma toada uníssona e plangente
em que evitámos o menor deslize
e em que damos razão da nossa crise.

Senhor: Em vão, esta província inteira,
desmoita, lavra, atalha a sementeira,
suando até à fralda da camisa.
Falta a matéria orgânica precisa
na terra, que é delgada e sempre fraca!
- A matéria, em questão, chama-se caca.

Precisamos de merda, senhor Soisa!...
E nunca precisámos de outra coisa.

Se os membros desse ilustre ministério
querem tomar o nosso caso a sério,
se é nobre o sentimento que os anima,
mandem cagar-nos toda a gente em cima
dos maninhos torrões de cada herdade.
E mijem-nos, também, por caridade!

O senhor Oliveira Salazar
quando tiver vontade de cagar
venha até nós solícito, calado,
busque um terreno que estiver lavrado,
deite as calças abaixo com sossego,
ajeite o cú bem apontado ao rego,
e… como Presidente do Conselho,
queira espremer-se até ficar vermelho!

A Nação confiou-lhe os seus destinos?...
Então, comprima, aperte os intestinos;
se lhe escapar um traque, não se importe,
… quem sabe se o cheirá-lo nos dá sorte?
Quantos porão as suas esperanças
n'um traque do Ministro das Finanças?...
E quem vier aflito, sem recursos,
Já não distingue os traques dos discursos.

Não precisa falar! Tenha a certeza
que a nossa maior fonte de riqueza,
desde as grandes herdades às courelas,
provém da merda que juntarmos n'elas.

Precisamos de merda, senhor Soisa!...
E nunca precisámos de outra coisa.

Adubos de potassa?... Cal?... Azote?...
Tragam-nos merda pura, do bispote!
E todos os penicos portugueses
durante, pelo menos uns seis meses,
sobre o montado, sobre a terra campa,
continuamente nos despejem trampa!

Terras alentejanas, terras nuas;
desespero de arados e charruas,
quem as compra ou arrenda ou quem as herda
sente a paixão nostálgica da merda…

Precisamos de merda, senhor Soisa!...
E nunca precisámos de outra coisa.

Ah!... Merda grossa e fina! Merda boa
das inúteis retretes de Lisboa!...
Como é triste saber que todos vós
Andais cagando sem pensar em nós!

Se querem fomentar a agricultura
mandem vir muita gente com soltura.
Nós daremos o trigo em larga escala,
pois até nos faz conta a merda rala.

Venham todas as merdas à vontade,
não faremos questão da qualidade.
Formas normais ou formas esquisitas!
E, desde o cagalhão às caganitas,
desde a pequena poia à grande bosta,
de tudo o que vier, a gente gosta.

Precisamos de merda, senhor Soisa!...
E nunca precisámos de outra coisa.

Pela Junta Corporativa dos Sindicatos Reunidos, do Norte, Centro e Sul do Alentejo
Évora, 13 de Fevereiro de 1934

O Presidente
D. Tancredo (O Lavrador)
Texto gentilmente enviado pelo meu amigo António Fernandes

22/11/2008

Explicação

Imagem retirada daqui

E até não sei se a certa altura não é bom haver seis meses sem democracia, mete-se tudo na ordem e depois então venha a democracia
. Estas palavras de Manuela Ferreira Leite provocaram um sururu dos diabos e o senhor deputado Alberto Martins veio de lá com o seu abrenúncio, não foi para ouvir destas que eu pedi a palavra, e ma não deram, num plenário académico à frente de Hermanos Saraivas e Américos Tomás! Figuras tristes, isso sim. Bem feita, tivessem-me lido!

Quem me leu há-de embrar-se que o senhor primeiro ministro, convidando-nos a um silogismo, afirmou ser ele a Lei. Perante isto, a interpretação das palavras de Manuela Ferreira Leite só pode ser esta: E até não sei se a certa altura não é bom haver seis meses sem José Sócrates, mete-se tudo na ordem e depois então venha a democracia.

Sem ironias: quem lhe tira a razão?

13/11/2008

Tempos levados da breca







J. Bosch, Navio de Tolos (estudo)






"Quem governa é a lei", disse o senhor primeiro ministro. Ouve-se e não se acredita!


Pegar nesta expressão pelo lado da anedota seria entrar no jogo que nos querem fazer jogar, de fingir que não vemos a realidade, escapando à incómoda tarefa de a nomear. Tenho a certeza de que o senhor primeiro ministro disse o que queria dizer. Ele sabe bem que quem governa é o governo corporizado na sua pessoa e o silogismo mais elementar dá-nos a exacta conclusão que quer que tiremos, para que todos passemos a agir em conformidade:

Quem governa é a lei
Sócrates governa
logo
Sócrates é a lei

O senhor primeiro ministro proferiu tais palavras no dia seguinte ao da avassaladora manifestação de professores. Não foi por acaso! Ele quer que os professores e, através deles, todos os cidadãos, assimilem aquela máxima, corolário de toda a sua prática governativa e não hesita em socorrer-se da intimidação para atingir as metas que se propôs: criar um país onde lhe sejam cantados hossanas. Nos seus sonhos mais ousados, quiçá, imagina o dia em que os professores serão os sacerdotes mais devotados da sua liturgia política.

Na soberba das suas certezas, ele crê que inventa um mundo novo e nem se lembra de quantas vezes se rompeu a cadeira do poder a tantos outros como ele.

02/11/2008

Sequências

Chega Novembro e é assim, lá para as bandas do ocaso. Do céu vêm as cores da alegria e do deslumbramento. Assim venham as da paz!




17/10/2008

O voto






Este de cartaz de Obama, tão cheio de ironia e de duplo sentido, trouxe-me à lembrança uma das obras mais discutidas de Saramago e, também, uma das mais mal interpretadas: Ensaio Sobre a Lucidez.








Lançado em cima das últimas eleições legislativas e lido de forma superficial, o livro foi entendido como sendo um apelo ao voto em branco. Quem só é capaz de entender assim deveria voltar aos bancos da escola! Na verdade, a obra é um libelo contra a redução da democracia aos seus elementos formais, prática que subverte o sistema transformando-o em ditadura disfarçada.

Dou conta, aqui, de algumas reflexões e notas que tomei aquando da leitura do livro e que me parecem profundamente actuais:

  1. profissão de fé, do autor, nas práticas da democracia: os cidadãos vão votar.
  2. o governo age como se fosse tirânico: desconfia dos cidadãos, usa práticas fascistas, superioriza-se face ao parlamento que é esvaziado de importância e significado:
  • Perante o desconhecido, a democracia actua como qualquer ditadura? Ou seja: os modelos democráticos são passíveis de funcionar, apenas e só, nas circunstâncias do prevísivel, do não sobressalto?
  • A democracia é frágil ao ponto de a sua existência , de facto, depender do maior ou menor pendor democrático dos governantes?
  • A democracia que existe é meramente formal?
  • A democracia existe se, e apenas se, os eleitores forem democratas?
  • O voto legitima todos os actos dos governantes eleitos?
  • Pode um governo democrático (eleito democraticamente) tornar-se governo de terror para os cidadãos?

Lido imediatamente a seguir ao Ensaio sobre a Cegueira, este segundo Ensaio soube-me a pouco. Agora que reli as minhas notas...

___
Não vindo totalmente a despropósito: Pacheco Pereira publicou um artigo admirável na Sábado e que transcreveu para o seu Abrupto. Fala da publicidade do governo, de um mundo que querem mostrar admirável mas que é (seria) horrendo. Vale a pena ler.

11/10/2008

Coisas Boas (III)

Fui sempre tontinha por gatos. Já baptizei um Mestre Finezas e um Malhadinhas a quem só não chamava meus porque eram dos quintais. Minha, minha só uma, Jerica de alcunha, mas que respondia por qualquer nome desde que fosse a minha voz a chamar por ela. Nos momentos de ternura, bem enroladas uma na outra, eu arrulhava-lhe um “és a minha raposeta, senhora de muita treta” e ela ronronava-me algo equivalente.

Aquilino está-me entranhado no ser, como se fosse mais um constituinte do sangue, e, do mesmo modo que o sangue me dá a cor dos vivos, Aquilino salta-me ao estilo quando a palavra resvala para a pieguice.

Apesar de reconhecer a importância que Aquilino Ribeiro tem para mim, li-o apenas uma vez e não voltei a pegar nele. Ou melhor: li-o em duas etapas, primeiro ainda mal libertada das trancas do soletrar e, depois, naquela idade em que a iniciação à filosofia nos convida a deixar as letras cor-de-rosa. Depois mais nada, como se não fosse preciso. Mas era. É preciso!

Dei-me conta disso depois de ler uma série de ensaios da autoria de António A. Fernandes reunidos sob o título: Aquilino Ribeiro – Sob o Signo da Terra e do Homem.

António Fernandes oferece-nos uma tese sobre a obra do Mestre. Leu, releu, pensou e amadureceu ideias, por isso não encontramos pontas soltas no seu raciocínio e, o que é mais, sugere-nos um fio condutor e uma lógica de leitura. Mas o melhor de tudo é constatarmos a erudição que subjaz por detrás de cada frase e a utilização de um léxico que, não sendo aquiliniano, nele bebe o gosto e o modo de dizer sem aqui d’el-reis que é regionalismo e podem não entender. Introduz-nos ao estudo de O vinho em o Malhadinhas com as seguintes palavras:

Na aldeia não há clubes nem teatros nem concertos; esterlóquios só quando muito bem calha ou o rei faz anos; como desporto o chincalhão (...) Por isso, supremo prazer é a pinguita bebida com todos os vagares, em amena cavaqueira com os amigos, nas tardes de domingo, divagando sobre tudo e coisa nenhuma, ao sabor sagrado do ripanço. (p. 74)

É um trabalho académico sem academismos parvos, um estudo de literatura sem cair em tentações peralvilhas. Lançando mãos da sua experiência como professor, enquanto sugere que Aquilino deveria ser lido nas escolas e lhe descobre uma insuspeita vocação para João de Deus (farpa minha), vai-nos desvendando o seu modo de entender o ensino. Eis um exemplo, a propósito de Cinco Réis de Gente que, segundo defende, se estrutura em torno de uma dupla de valores, (…) a fome de liberdade e o sentido da descoberta. Sem a sua presença, qualquer sistema educativo ou qualquer modelo pedagógico mais não farão que descaracterizar o ser humano em formação e predispô-lo para o desempenho passivo de uma qualquer função social de meteco, porque a escola que não liberta não educa. (p. 174)

As grandes personagens de Aquilino estão todas contempladas, embora A. Fernandes não dedique um ensaio a cada uma delas ou a cada uma das obras em que Aquilino as forjou. Em vez disso, descobre grandes linhas temáticas – “humanitas”, liberdade, viagem, educação – e é através desses temas que nos conduz na compreensão do pensamento do autor, saltando de obra para obra, como que guiando-nos em viagem de descoberta, assunto e método tão caros a Aquilino como ao seu intérprete.

A terra, “a grande matriarca” (p. 110) personagem activa em todos e cada um dos romances de Aquilino, é-nos apresentada do seguinte modo: A presença avassaladora da terra na ficção aquiliniana não pode entender-se como mera contemplação estática e estética da paisagem como elemento decorativo, mas apresenta uma dimensão dinâmica que lhe permite impregnar-se de irrequietude pela errância das personagens que lhe andam associadas. (p 110) Aquilino cria um conceito de espacialidade em torno do qual se gera um impressionante, ainda que menos perceptível, fenómeno que poderíamos designar por espacialização do tempo – o espaço da narrativa esmaga e molda o tempo. (p. 111) Se dúvidas ainda tivesse, nesta passagem encontraria motivos de sobra para reler Aquilino. E testar a tese.

O ensaio intitulado Quando os Lobos Uivam – A casa do homem pareceu-me muito especial. O pensamento e o método de Aquilino são analisados à lupa, mas está lá muito mais do que Aquilino, está lá uma entrega tamanha ao assunto que é como se António Fernandes se transfigurasse no narrador do romance, um narrador que tivesse estado presente ou, mesmo, participado dos acontecimentos. Atentemos nas palavras com que descreve a cena dos confrontos entre os serranos e as forças policiais:

Os sinos tocam a rebate e os habitantes de dez povoados em redor acorrem em fúria tumultuosa (…). Acendem-se altercações entre camponeses e agentes da sacrossanta ordem, das palavras passa-se aos actos, soam tiros, há homens tombados, feridos uns, mortos outros, sobrevém o pânico e a debandada do gentio, desarvorando serra abaixo. Na sequência destes acontecimentos, a Pide invade as aldeias adscritas ao perímetro do projecto florestal e deita o gatázio a uns quantos dos mais influentes (…) (p. 86/87)

A obra de António A. Fernandes ensina-nos Aquilino enquanto nos presenteia com páginas e páginas de boa literatura. Termino com um excerto do ensaio trabalhado com pinças sobre O Livro do Menino Deus:

Não, Aquilino não amava o povo: tresandaria a romantismo e raposinho. Aquilino amava a Beira, enquanto terra, enquanto paisagem. Ao beirão, admirava-o pela sua tenacidade, pela sua resistência face à vida, pela ralé que lhe permite imprevistos golpes de rins quando a sorte se lhe mostra mais madrasta. [Anteriormente escrevera “É uma afeição incapaz de anular a lucidez crítica” (p.57)] Por muito que nele se pretenda ver o paladino dos desprotegidos da mofina, nunca se deu ao cuidado de os transfigurar, como Júlio Dinis ou Trindade Coelho, em macerados mártires do destino, resignados e contentes com a vida que lhes coube em sorte. Havia no escritor um excesso de clarividência, temperada de cepticismo, que o impedia de amenizar humanas debilidades e manhas de que o homo sapiens se apetrechou a partir do momento em que passou a alçar-se sobre os membros inferiores e olhar a vida de frente.” (p.267)

Para o Tonho, com o meu abraço e o meu bem-haja.
______
Este livro deveria estar à venda nas boas livrarias. Mas não está e só pode adquirir-se por encomenda à editora:

CENTRO DE ESTUDOS AQUILINO RIBEIRO
UNIVERSIDADE CATÓLICA
ESTRADA DA CIRCUNVALAÇÃO
3504 -505 VISEU
ou:
cear.aquilinoribeiro@gmail.com

04/10/2008

A crise

Esta merece honras de publicação. Nem imagino quem seja o autor, mas faz-nos rir no meio da desgraceira e, só por isso, vale a pena. É a visão de um brasileiro.

Para quem não entendeu ou não sabe bem o que é ou gerou a crise americana, segue breve relato econômico para leigo entender...

É assim:

O seu Biu tem um bar, na Vila Carrapato, e decide que vai vender cachaça "na caderneta" aos seus leais fregueses, todos bêbados, quase todos desempregados. Porque decide vender a crédito, ele pode aumentar um pouquinho o preço da dose da branquinha (a diferença é o sobre preço que os pinguços pagam pelo crédito).

O gerente do banco do seu Biu, um ousado administrador formado em curso de emibiêi, decide que as cadernetas das dívidas do bar constituem, afinal, um ativo recebível, e começa a adiantar dinheiro ao estabelecimento, tendo o pindura dos pinguços como garantia.

Uns seis zécutivos de bancos, mais adiante, lastreiam os tais recebíveis do banco, e os transformam em CDB, CDO, CCD, UTI, OVNI, SOS ou qualquer outro acrônimo financeiro que ninguém sabe exatamente o que quer dizer.

Esses adicionais instrumentos financeiros, alavancam o mercado de capitais e conduzem a operações estruturadas de derivativos, na BM&F, cujo lastro inicial todo mundo desconhece (as tais cadernetas do seu Biu).

Esses derivativos estão sendo negociados como se fossem títulos sérios, com fortes garantias reais, nos mercados de 73 países.

Até que alguém descobre que os bêbados da Vila Carrapato não têm dinheiro para pagar as contas, e o Bar do seu Biu vai à falência. E toda a cadeia sifudeu !

Viu... é muito simples...!!!

24/09/2008

Camilo


Camilo Castelo Branco tem um ódio de estimação: o Marquês de Pombal. Por alturas do centenário da sua morte, em que se organizaram grandes comemorações com particular empenho dos republicanos, Camilo, no melhor do seu estilo eloquente e verrinoso, traçou-lhe o retrato. Transcrevo algumas passagens do final da obra.



(Capa da 4.ª edição, de 1943, revista pelo Dr. Augusto César Pires de Lima)

O rei estava a expirar, quando o Marquês foi demitido de um modo original. Saiu-lhe o cardeal da Cunha ao salão da entrada, e disse-lhe: V. Ex.ª pode retirar-se do paço, onde já não tem que fazer. A intimação brutal partia de um homem que o Marquês elevara depois de o ter humilhado a vilíssimas condescendências. O cardeal vingava-se. – Ponha-se na rua! E depois o proscrito assanhado vingava-se do cardeal: - que ele votara pela morte dos meninos da Palhavã, que ficara com a baixela da casa de Aveiro sem pagar. «Ah! Ele é isso? O ladrão das pratas disse que fui eu que as roubei? Então deixa estar que eu já te arranjo, patife!» Supremos biltres, os dois ministros! (P. 243)

(…)

O Marquês deixara o povo na sua velha miséria bestial, e o fidalgo na sua arrogante imbecilidade – mas povo e nobreza sem vislumbres de dignidade. A opressão, um longo sofrimento são os maiores aviltadores da alma. O povo beijava a fímbria do hábito andrajoso de Fr. Miguel da Anunciação, que saía trôpego e cego do cárcere de Pedroiços. Os Távoras aceitavam comandâncias de tropas, e o marquês de Alorna esquivou-se a aparecer na côrte sem que a sua augusta senhora e rainha o ilibasse da mancha de conspirar contra seu augusto senhor e rei D. José. O Marquês não tinha que temer-se da ira do povo nem da honra da nobreza. O despotismo embrutecera-os todos em vinte e sete anos de terror, de tristeza, de uma desconsolação profunda, que se revela na paralisação da jovialidade popular daquele longo período. Durante o reinado de D. José I não houve uma festa nacional (…). A inauguração da estátua equestre foi ainda um violento assalto aos haveres do comércio, quebrantado pelas Companhias, e à classe dos operários, espoliados pela rapacidade do correeiro (1), uma das trombas absorventes do Marquês. (p 251-252)

(…)

A História, para vingar a Justiça, levantou um patíbulo a esse infame imortal, e a democracia engrinaldou-lhe o cadafalso em altar, volvido um século. Há muito que recear da doblez de tais sacerdotes. A Liberdade, essa então não tem nada que esperar dêstes seus filhos bastardos. Ao passar pelo monumento ao Marquês, que vai erigir-se, a Justiça há-de procurar nas praças de Lisboa a estátua do conde de Basto; e, não a encontrando, perguntará se as fôrcas da Cordoaria e de Belém eram mais necessárias que as fôrcas do Cais-do-Tôjo e da Praça-Nova ao progresso do género humano. (p. 264)

S. Miguel de Seide, 31 de Maio de 1882
___
(1) O juiz do povo Manuel José Gonçalves

11/09/2008

Antero

Não é pelo dia, porque dele prefiro outros. É para que este soneto se ligue com o artigo anterior. Do seu "Tese e Antítese" escolho a última parte:

Num Céu intemerato e cristalino
Pode habitar talvez um Deus distante,
Vendo passar em sonho cambiante
O Ser, como espectáculo divino:

Mas o homem, na terra onde o destino
O lançou, vive e agita-se incessante...
Enche o ar da terra o seu pulmão possante...
Cá da terra blasfema ou ergue um hino...

A ideia encarna em peitos que palpitam:
O seu pulsar são chamas que crepitam,
Paixões ardentes como vivos sóis!

Combatei pois na terra árida e bruta,
Té que a revolva o remoinhar da luta,
Té que fecunde o sangue dos heróis.



Há Homens cujo exemplo nos deve servir de bandeira. Assim Salvador Allende. As últimas palavras que dirigiu ao povo chileno atestam a dignidade e a coragem do seu carácter, tornando mais infame a perfídia de que foi primeira vítima. (Pode ouvir o discurso aqui)



Yo no voy a renunciar! Colocado en un tránsito histórico, pagaré con mi vida la lealtad del pueblo.
(…)
El pueblo debe defenderse, pero no sacrificarse. El pueblo no debe dejarse arrasar ni acribillar, pero tampoco puede humillarse.

Trabajadores de mi patria: tengo fe en Chile y su destino. Superarán otros hombres este momento gris y amargo, donde la traición pretende imponerse. Sigan ustedes sabiendo que, mucho más temprano que tarde, de nuevo abrirán las grandes alamedas por donde pase el hombre libre para construir una sociedad mejor.
¡Viva Chile! ¡Viva el pueblo! ¡Vivan los trabajadores!

Éstas son mis últimas palabras y tengo la certeza de que mi sacrificio no será en vano. Tengo la certeza de que, por lo menos, habrá una lección moral que castigará la felonía, la cobardía y la traición.


Hoje, é este o 11 de Março que quero recordar, iluminando-o, embora, com as palavras de esperança de Sergio Ortega

El Pueblo Unido - Victor Jara



El pueblo unido jamás será vencido,
el pueblo unido jamás será vencido...

De pie, cantar
que vamos a triunfar.
Avanzan ya
banderas de unidad.
Y tú vendrás
marchando junto a mí
y así verás
tu canto y tu bandera florecer,
la luz
de un rojo amanecer
anuncia ya
la vida que vendrá.

De pie, luchar
el pueblo va a triunfar.
Será mejor
la vida que vendrá
a conquistar
nuestra felicidad
y en un clamor
mil voces de combate se alzarán
dirán
canción de libertad
con decisión
la patria vencerá.

Y ahora el pueblo
que se alza en la lucha
con voz de gigante
gritando: ¡adelante!

El pueblo unido jamás será vencido,
el pueblo unido jamás será vencido...

La patria está
forjando la unidad
de norte a sur
se movilizará
desde el salar
ardiente y mineral
al bosque austral
unidos en la lucha y el trabajo
irán
la patria cubrirán,
su paso ya
anuncia el porvenir.

De pie, cantar
el pueblo va a triunfar
millones ya,
imponen la verdad,
de acero son
ardiente batallón
sus manos van
llevando la justicia y la razón
mujer
con fuego y con valor
ya estás aquí
junto al trabajador.

Poema de Sergio Ortega

28/08/2008

Os Velhos

Um dia também nós ganharemos a aparência etérea dos velhos. O corpo dos velhos parece que perde consistência e balanceia submetido a forças que nós não sentimos. Talvez seja por isso que os seus pés quase não pisam o chão e o seu caminhar se torna oscilante, como se flutuassem. O andar dos velhos é o primeiro sinal de que eles se despedem de nós.

Depois são os olhos, afundados por cataratas de vento. Em que momento perderam o brilho e a cor, como se já não houvesse vida dentro deles nem vida fora deles que possa ser olhada e transmitida do mesmo modo que antes? A cor esbatida dos olhos dos velhos conduz-lhes o olhar para lugares inacessíveis a quem não tem a idade deles.



O mundo dos velhos está todo guardado em recordações. Um dia, também eles hão-de desejar ser recordação. E o nosso coração aperta-se por nós, que os queremos abraçar sempre.

06/08/2008

Amores

Antes de ir de férias, e sem comentários, deixo aqui esta pérola de D. Dinis, provando-se que Trás-os-Montes foi e será terra de amores, furtivos ou nem tanto.

Em nome de Deus amen. Conheçam quantos esta carta virem e leer ouvirem que eu dom Deniz pella graça de Deus Rey de Portugal e do algarve com ho infante dom Afomso meu filho primeiro herdeiro dou e outorgo a vos Branca Lourenço a minha villa de Mirandella com todos seus termhos velhos e novos, dereictos e dereicturas, rendas, padroados e com todo o dereito e jur reall que eu ey e de direicto devo a aver em essa villa e em seus termhos velhos e novos e que vos ajades e possoyades em toda vossa vida. E se Deus tiver por bem que eu aja de vos filho ou filha ou filhas a vossa morte fique a dicta villa com todos seus termhos velhos e novos e pertenças e com todo dereyto reall ao filho ou filhos, filha ou filhas se ho eu de vos ouver. E mando e outorgo que aquel ou aquelles que dese filho ou filhos filha ou filhas se ho eu de vos ouver decenderem de dereicta linha liidimamente aja ou ajam a dicta villa com seus termhos velhos e novos e direictos e padroados como dicto he. E se esse filho ou filhos, filha ou filhas se o eu de vos ouver ou aquelles que delles descenderem de dereicta linha liidimamente morrerem sem filhos liidimos a sobredicta villa com seus termhos, padroados e dereictos torne-se aa coroa do Regno com todos seus melhoramentos livremente e sem embargo nenhum.

E esto vos faço por compra de vosso corpo
. E todollos Reys de Portugal que depos mi veerem que aguardarem e manteverem esta doaçam que eu faço e nunca contra ella veerem em todo nem em parte ajam a beençam de Deus e a minha pera todo o sempre; e se alguns dos Reys de Portugal que depos mim veerem nom aguardarem e manteverem esta minha doaçam e contra ella veerem em todo ou em parte aja a maldiçam de Deus e a minha pera todo o sempre. E por esta doaçam seer firme e mais stavel e nunca viir em dovida dei a vos Branca Lourenço esta minha carta sellada do meu sello do chumbo.

Feita em Lixboa viinte e oyto dias de Joynho. El-Rey o mandou. Afomsso Martins a fez era de mil trezentos trinta nove annos. [Para os mais distraídos: 1301 da era de Cristo.]

In Francisco Manuel Alves, Abade de Baçal, Memórias Arqueológico-Históricas do Distrito de Bragança, Tomo IV, p 443, ed. Câmara Municipal de Bragança, 2000
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Borges de Figueiredo, ao interpretar o túmulo de D. Maria Afonso presente no mosteiro de Odivelas deduz que esta monja será a filhas nascida destes amores de D. Dinis. Teria vindo ao mundo cerca de 1302 e morrido com 18 anos de idade. Ganhou fama de santidade. Deve ter saído à madrasta!

20/07/2008

Coisas boas (II)

Costumo ensinar isto aos meus alunos: na democracia existe o primado da lei. Nas ditaduras, a lei é o arbítrio do chefe. A partir de agora, poderei ler-lhes o seguinte excerto de As Benevolentes de Jonathan Littell:


[Thomas] Expusera-me uma vez em termos luminosos o princípio do funcionamento do sistema (devia ter sido em 1939, ou talvez até nos finais de 1938, por ocasião dos conflitos internos que tinham sacudido o movimento depois da kristallnacht): «Que as ordens continuem a ser vagas, é normal, até qualquer coisa de deliberado, e que decorre da própria lógica do Führerprinzip. Compete ao destinatário reconhecer as intenções do dispensador e agir em consequência. Os que insistem querendo ter ordens claras ou medidas legislativas não compreenderam que é a vontade do chefe e não as suas ordens o que conta, e que compete ao receptor das ordens saber decifrar e até antecipar essa vontade. Aquele que sabe agir assim é um excelente nacional-socialista, e nunca lhe hão-de censurar o seu excesso de zelo, embora possa cometer erros (…).» (p.499)

A obra As Benevolentes é um murro no estômago. Merecidamente, conquistou o prémio Goncourt, apesar de ser uma primeira obra. Nenhum aspecto do nazismo, dos mais horrendos aos mais desconcertantes, ficou de fora do escrutínio do autor. Da meticulosidade com que se estuda quem é judeu de sangue ou, simplesmente, adoptou a religião no cadinho de povos que é o Cáucaso; da justificação da perseguição aos judeus (os únicos verdadeiros inimigos porque são os únicos que permanecem racialmente puros e bastaria deixar dois vivos para, cinquenta anos depois, o problema voltar a existir) às dissertações sobre música, arte e literatura (afinal, havia nazis que liam Kafka). Confesso, no entanto, que o mais desconcertante para mim foi ler a deturpação dos princípios essenciais da grande filosofia alemã. Fica, aqui, a dissertação sobre Kant.

Eichmann continuava: «O imperativo [categórico], tal como o compreendo, diz: O princípio da minha vontade individual deve ser tal que possa tornar-se o princípio da Lei moral. Agindo, o homem legisla.» Limpei a boca: «Creio que estou a ver onde quer chegar. Pergunta-se se o nosso trabalho está de acordo com o Imperativo Kantiano.» -«Não é bem isso. Mas um dos meus amigos, que se interessa também ele por este género de questões, afirma que em tempo de guerra, em virtude se você quiser do estado de excepção causado pelo perigo, o Imperativo Kantiano fica suspenso, porque bem entendido, aquilo que desejamos fazer ao inimigo não desejamos que o inimigo no-lo faça, e portanto o que fazemos não pode tornar-se base de uma lei geral. É a opinião dele, claro está. Ora, pelo meu lado, eu sinto que ele não tem razão (…) mas ainda não encontrei um argumento imparável que lhe prove que ele está errado.» - «Apesar de tudo, é bastante simples, penso eu. Todos convimos em que num Estado nacional-socialista o fundamento último da lei positiva é a vontade do Führer. Trata-se do princípio bem conhecido: Führerworte haben Gesetzeskraft. Bem entendido, reconhecemos na prática que o Führer não pode ocupar-se de tudo e que por isso outros devem também agir e legislar em seu nome. Em princípio, esta ideia devia ser alargada a todo o Volk. Foi assim que o Dr. Frank, no seu tratado de direito constitucional, alargou a definição do Führer Prinzip nos seguintes termos: Agi de maneira a que o Führer, se conhecesse a vossa acção, a aprovasse. Não há qualquer contradição entre este princípio e o Imperativo de Kant.» (…) «Todo o direito deve assentar num fundamento. Historicamente, este foi sempre uma ficção ou uma abstracção: Deus, o Rei ou o Povo. O grande avanço que fizemos foi fundar o conceito jurídico de Nação sobre qualquer coisa de concreto e de inalienável; o Volk, cuja vontade colectiva se exprime através do Führer que o representa.» (pp. 515, 516)

O interlocutor de Eichmann é Max Aue, simultaneamente narrador e protagonista deste livro em que só a história pessoal dessa figura é ficção. Obra de leitura imprescindível que impressiona pelo rigor histórico, pela minúcia e pela capacidade de nos conduzir ao mais fundo horror humano. Ao contrário de Dante na descida ao Inferno, aqui é o próprio verdugo quem nos orienta os passos e nos explica tudo.

05/07/2008

Coisas boas (I)

É preciso sair deste arrepelar os cabelos, deste só reparar no que está mal. Por isso mesmo, quero falar de coisas boas. Começo pelos meus alunos.

Os meus alunos são uns heróis e ninguém pense que isto é falácia.

De manhã, respondem com um sorriso aberto ao meu sorriso rasgado e brincam comigo: “A s’tora vem sempre com uma pica!...” Umas vezes aguentam-me hora e meia de enfiada, outras vezes três quartos de hora e, sem intervalo, ainda eu não acabei a aula de História e já a professora de Matemática entrou na sala, para me render. Os coitados nem têm tempo de sacudir a cabeça para arrumar as ideias. Mesmo assim, lá vem outro sorriso aberto e o trocar de cadernos e de livros sem demora. Depois de outros três quartos de hora virá o intervalo. Comem, vão à casa de banho, jogam à bola, conversam. Conseguem fazer tudo isso em quinze minutos. Abençoados!

Os horários deles são mais longos do que os de muitos trabalhadores. Se forem bons alunos têm trinta e cinco horas de aulas semanais. Se tiverem dificuldades, às trinta e cinco horas acrescentam-se mais uma série de apoios que, tudo somado, dá para assustar qualquer um. Todos têm que cumprir, ainda, horas de estudo em casa e quando chegam de manhã à escola, vêm carregados com muitos quilos de livros e de cadernos. De que nos espantamos, de que nos queixamos se, por vezes, não fazem os trabalhos de casa ou não trazem o manual?

Bastaria isto para já os considerar heróis. Mas heróis a valer, aqueles que provam ter capacidades humanas extraordinárias são os bons alunos e os bem-educados. Eles sabem que nada acontece aos seus colegas que não estudam, que faltam às aulas, que são violentos para os condiscípulos e insolentes para com os professores. Mesmo assim, têm brio em ser bons alunos, pedem que o professor lhes explique o mundo e os ajude a compreender e mantêm uma delicadeza extrema. Acredite-se, ou não, há garotos destes em todas as turmas. Tão resistentes para não sucumbirem à tentação da facilidade, tão corajosos!

Quase todos nos aproximam da família. Trazem-nos fotografias dos avós, dos irmãos… De outros, somos a única família verdadeira, porque só de nós recebem a atenção, o afecto e o conselho que merecem. Quantas vezes, o alimento!

É por estas razões que me confunde ouvir falar mal da garotada. Também eu tenho alunos malandros, daqueles que merecem um bom par de estalos; também me passam marginais pelas mãos. Mas estes plurais podem contar-se pelos dedos de uma mão e todos os outros não merecem a desconsideração de serem confundidos com eles.

Enquanto preencho papéis insanos e redijo relatórios para que conste, sinto saudades dos meus garotos, os únicos que dão sentido, alegria e beleza ao meu trabalho.