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28/08/2008

Os Velhos

Um dia também nós ganharemos a aparência etérea dos velhos. O corpo dos velhos parece que perde consistência e balanceia submetido a forças que nós não sentimos. Talvez seja por isso que os seus pés quase não pisam o chão e o seu caminhar se torna oscilante, como se flutuassem. O andar dos velhos é o primeiro sinal de que eles se despedem de nós.

Depois são os olhos, afundados por cataratas de vento. Em que momento perderam o brilho e a cor, como se já não houvesse vida dentro deles nem vida fora deles que possa ser olhada e transmitida do mesmo modo que antes? A cor esbatida dos olhos dos velhos conduz-lhes o olhar para lugares inacessíveis a quem não tem a idade deles.



O mundo dos velhos está todo guardado em recordações. Um dia, também eles hão-de desejar ser recordação. E o nosso coração aperta-se por nós, que os queremos abraçar sempre.

04/05/2008

Máxima

Olho para os meus filhos e não gosto de os ver velhos. Deus não fez as coisas bem!


Tia Maria Amélia

25/04/2008

Nem que fosse só por isto

Ora amarelos, ora verdes, dobrados em partes, deixavam ver no exterior algumas linhas traçadas a negro. Eram os aerogramas.

Chegavam ao ritmo do possível; aflita a espera se havia demora. Lá dentro, algumas palavras calculadamente riscadas no intuito de impedir a leitura do engano ou da mensagem. E nós sem sabermos se fora o autor ou alguém sem nome nem rosto nem corpo, mas tão presente, tão abafadoramente presente, como o medo da guerra e o temor pelos nossos.










Os aerogramas eram lidos com a avidez de quem sacia longa sede. Primeiro baixo, movendo os lábios. Era assim que a mãe bebia cada palavra dos filhos e os outros presentes ficavam suspensos dos rictos desses lábios e das pausas que faziam. No fim, a mãe dizia para uma das filhas: "lê lá tu, alto." E no fim: "Lê outra vez." E em cada leitura pedia que se repetissem passagens, como se quisesse gravar aquelas palavras para ser capaz de as reproduzir, para si própria, imaginando a voz dos filhos. Só o pai assumia comportamento diferente: sentado, cabeça descaída, olhar fixo no chão. As mãos cruzava-as sobre os joelhos, para que ninguém visse quando cravava as unhas na carne, a esconjurar a dor.

Nos aerogramas falava-se da saudade e do carinho, perguntava-se pela família, sendo eloquentes pelo que silenciavam e nós nem nos atrevíamos a supor. Calava-se o medo e iludia-se a morte.

Um dia, de madrugada, duas canções: primeira senha, segunda senha. Começara o fim do medo. Não tardaria, aqueles que escreviam os aerogramas diriam, ao vivo, as misérias que viveram, em catadupa como se tivessem medo de esquecer e quisessem fazer de nós testemunhas.

Bem-haja quem no-los devolveu.

*****
O aerograma amarelo foi retirado daqui e o verde daqui.

11/04/2008

Depois de nós

A Natureza conserva a memória do início dos tempos. Pode parecer quieta mas, em silêncio, aguarda que os pés dos homens deixem de trilhar os caminhos. Então, sem mais delongas, adona-se novamente do chão que lhes emprestara.

Também as casa, santuários protectores dos elementos, conhecerão o mesmo destino. Talvez sejamos nós as últimas testemunhas de que, aqui, se ouviram os risos dobrados das crianças: os nossos risos! Talvez, por isso, sejamos nós os únicos a sentir este nó que nos sufoca a garganta.

24/03/2008

Máxima

Os mortos já se foderam, bamos mas é falar dos bibos!
Tia Maria
Na terra do sossego cada alma é sábia criadora de máximas, mas as da tia Maria são sempre assim, bem humoradas!