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27/02/2011

11/09/2008

Antero

Não é pelo dia, porque dele prefiro outros. É para que este soneto se ligue com o artigo anterior. Do seu "Tese e Antítese" escolho a última parte:

Num Céu intemerato e cristalino
Pode habitar talvez um Deus distante,
Vendo passar em sonho cambiante
O Ser, como espectáculo divino:

Mas o homem, na terra onde o destino
O lançou, vive e agita-se incessante...
Enche o ar da terra o seu pulmão possante...
Cá da terra blasfema ou ergue um hino...

A ideia encarna em peitos que palpitam:
O seu pulsar são chamas que crepitam,
Paixões ardentes como vivos sóis!

Combatei pois na terra árida e bruta,
Té que a revolva o remoinhar da luta,
Té que fecunde o sangue dos heróis.



Há Homens cujo exemplo nos deve servir de bandeira. Assim Salvador Allende. As últimas palavras que dirigiu ao povo chileno atestam a dignidade e a coragem do seu carácter, tornando mais infame a perfídia de que foi primeira vítima. (Pode ouvir o discurso aqui)



Yo no voy a renunciar! Colocado en un tránsito histórico, pagaré con mi vida la lealtad del pueblo.
(…)
El pueblo debe defenderse, pero no sacrificarse. El pueblo no debe dejarse arrasar ni acribillar, pero tampoco puede humillarse.

Trabajadores de mi patria: tengo fe en Chile y su destino. Superarán otros hombres este momento gris y amargo, donde la traición pretende imponerse. Sigan ustedes sabiendo que, mucho más temprano que tarde, de nuevo abrirán las grandes alamedas por donde pase el hombre libre para construir una sociedad mejor.
¡Viva Chile! ¡Viva el pueblo! ¡Vivan los trabajadores!

Éstas son mis últimas palabras y tengo la certeza de que mi sacrificio no será en vano. Tengo la certeza de que, por lo menos, habrá una lección moral que castigará la felonía, la cobardía y la traición.


Hoje, é este o 11 de Março que quero recordar, iluminando-o, embora, com as palavras de esperança de Sergio Ortega

El Pueblo Unido - Victor Jara



El pueblo unido jamás será vencido,
el pueblo unido jamás será vencido...

De pie, cantar
que vamos a triunfar.
Avanzan ya
banderas de unidad.
Y tú vendrás
marchando junto a mí
y así verás
tu canto y tu bandera florecer,
la luz
de un rojo amanecer
anuncia ya
la vida que vendrá.

De pie, luchar
el pueblo va a triunfar.
Será mejor
la vida que vendrá
a conquistar
nuestra felicidad
y en un clamor
mil voces de combate se alzarán
dirán
canción de libertad
con decisión
la patria vencerá.

Y ahora el pueblo
que se alza en la lucha
con voz de gigante
gritando: ¡adelante!

El pueblo unido jamás será vencido,
el pueblo unido jamás será vencido...

La patria está
forjando la unidad
de norte a sur
se movilizará
desde el salar
ardiente y mineral
al bosque austral
unidos en la lucha y el trabajo
irán
la patria cubrirán,
su paso ya
anuncia el porvenir.

De pie, cantar
el pueblo va a triunfar
millones ya,
imponen la verdad,
de acero son
ardiente batallón
sus manos van
llevando la justicia y la razón
mujer
con fuego y con valor
ya estás aquí
junto al trabajador.

Poema de Sergio Ortega

26/05/2008

Recados

E ao baixar os olhos mais de espaço,
mirabilmente vi que era torcido
cada um entre seu mento e o busto lasso,
que o rosto para os rins era volvido,
e só vir para trás lhe conviria,
pois por diante lhe era tolhido.
Talvez por força de paralisia
torcer-se alguém assim todo, reputo,
mas nunca vi ninguém nem haveria.
Leitor, se Deus te deixa colher fruto
desta lição, por ti pensa por certo,
como eu podia ter o rosto enxuto,
quando essa nossa imagem vi de perto,
mas tão torta seu choro desabrocha
que as nalgas vai banhar em rego aberto.

Dante, O Inferno Canto XX (Círculo oitavo)






Botticelli, ilustração para o Canto XVIII do Inferno de Dante







«Ai de mim, mestre, o que é isto que vejo?»
disse eu. «Ah, esta escolta antes desfaçam,
e vamos sós; que eu cá não a desejo.
Tão avisado que és, não vês que passam
eles agora a arreganhar os dentes,
e os cenhos carregados ameaçam?»
E ele a mim: «Ao medo não te tentes,
deixa-os arreganhar se a gana é tal,
que o fazem aos cozidos lá dolentes.»
Voltam no dique à esquerda do local;
mas não sem que cada um a língua meta
entre os dentes, ao chefe, por sinal:
e ele tinha do cu feito trombeta.

Dante, O Inferno Canto XXI (Círculo oitavo)
Trad. Vasco Graça Moura

24/02/2008

Hino


Procuro-te e invoco o teu nome
Ó benfazeja!
Quando te derramas sobre a Terra
É como se mil dedos lhe acariciassem o corpo
E os passos de mil pardais
A tocassem levemente
Fazendo ecoar infinitos e ínfimos tambores.

És o corpo bem-amado
Que a terra, ventre sequioso,
Espera e recebe em espasmo.
És o sémen que os céus vertem
Para que a vida se multiplique e seja pródiga.

Quando vens,
Ó chuva,
Os meus sentidos cantam de alegria!

01/02/2008

Regicídio

O CAÇADOR SIMÃO
(a Fialho d'Almeida)

Jaz el-rei entrevado e moribundo
Na fortaleza lobrega e silente ...
Corta a mudez sinistra o mar profundo ...
Chora a rainha desgrenhadamente ...

Papagaio real, diz-me, quem passa ?
_É o princípe Simão que vae à caça.

Os sinos dobram pelo rei finado ...
Morte tremenda, pavoroso horror !...
Sae das almas atónitas um brado,
Um brado immenso d'amargura e dor ...

Papagaio real, diz-me, quem passa ?
_É el-rei D. Simão que vae à caça.

Cospe o estrangeiro affrontas assassinas
Sobre o rostro da pátria a agonisar ...
Rugem nos corações furias leoninas,
Erguem-se as mãos crispadas para o ar !...

Papagaio real, diz,me, quem passa ?
_É el-rei D. Simão que vae à caça.

A Pátria é morta ! a Liberdade é morta !
Noite negra sem astros, sem faroes !
Ri o estrangeiro odioso à nossa porta,
Guarda a Infamia os sepulchros dos Heroes!

Papagaio real, diz-me, quem passa ?
_É el-rei D. Simão que vae à caça.

Tiros ao longe n'uma lucta accesa!
Rola indomitamente a multidão ...
Tocam clarins de guerra a Marselheza ...
Desaba um throno em subita explosão !...

Papagaio real, diz-me, quem passa ?
_É alguém, é alguém que foi à caça
Do caçador Simão ...

(Vianna do Castello, 8 d'abril de 1890.Guerra Junqueiro)

O caçador Simão era Carlos Fernando Luís Maria Víctor Miguel Rafael Gabriel Gonzaga Xavier Francisco de Assis José Simão: o rei D. Carlos. Guerra Junqueiro apela, inquestionavelmente, ao regicídio!


Formalmente, como todos os de Junqueiro, este é um poema magnífico. Mas é o conteúdo que agora me importa.

Nas duas primeiras estrofes acusa-se D. Carlos de ser mau filho, aludindo-se à sua ausência perante a agonia do pai. A ausência é real, mas D. Carlos fora enviado ao estrangeiro, numa daquelas viagens tão necessárias à educação dos príncipes reais. O príncipe cumpria o que lhe estava destinado!

As estrofes seguintes referem-se ao ultimatum britânico. “A Pátria morta; a liberdade morta”! A verve de Junqueiro é portentosa e a História contada por meio dá-lhe razão: Portugal recuou; os Braganças são os coveiros da grandeza Pátria! Mas isto é confundir, voluntariamente, a putrefacção do segundo rotativismo (esse sim, responsável pelas desditas nacionais) com o regime monárquico! Alguém, nos nossos dias, é capaz de responsabilizar a Presidência da República pela incapacidade dos partidos políticos enquanto governo e oposição?

D. Carlos foi um homem de bem, um homem da ciência e das artes. Na imprensa era ridicularizado (Eça, por exemplo) e apresentado como um ser vazio que apenas gosta da caça e da pintura. A demagogia tem destas coisas e o recurso à calúnia esteve sempre à mão de muitas campanhas políticas. É bom lembrar que escritores e caricaturistas tinham acesso livre à imprensa e também é bom lembrar que o Partido Republicano teve deputados eleitos no tempo de D. Carlos!

Matou-se o rei e D. Luís, o príncipe real. Dois anos depois implantava-se a República. Na primeira lei eleitoral da República retirou-se o direito de voto aos analfabetos. Na segunda retirou-se, explicitamente, o mesmo direito às mulheres. Qual o regime mais tacanho?

A democracia que agora somos devia ser capaz de prestar a devida homenagem a D. Carlos. Infelizmente, hoje como ontem, os demagogos estão a levar a melhor. Quem preza a justiça e a verdade não pode silenciar-se. Como republicana senti que tal responsabilidade me pesava mais.

29/01/2008

Cada lugar imagina a face de Minerva segundo a coruja que tem.
Em todos os sítios é bela!
coruja1.JPG coruja2.jpg

O olhar desperto e atento é instrumento de conhecimento. O seu conhecimento meditado frutifica em sabedoria. Minerva personifica a RAZÃO humana. Ela é a filosofia.

*

Há pessoas que têm os olhos de Minerva.
Há pessoas que são capazes de compreender;
há pessoas sábias e
há pessoas tão sábias que até compreendem a estultícia alheia.

Há pessoas sábias que são governadas
por outras pessoas que nada mais são do que membros articulados.
Há pessoas que gostariam de mostrar às mãos que as governam
que o mundo não termina no seu olhar voltado para dentro.
Há pessoas que gostariam de mostrar aos pés que as pisam
que o mundo é maior do que os passos que são capazes de andar!

*

Há pessoas que espantam como, de tão pequenas por dentro,
conseguem ocupar tanto espaço no mundo:
o espaço das pessoas verdadeiras!
Há pessoas que espantam como, de tão pardas,
se imaginam com o brilho de todas as estrelas do universo
e incham na proporção daquilo que imaginam...
até não sobrar espaço para a luz. Nem para a ideia de luz!

*

E há as vozes!
Vozes que, quem as tem, deveria obrigar-se a ouvi-las
tantas vezes quantos os ouvidos que teimam em ferir.

*

E há a "Cena do Ódio"
que só não a escrevo
porque Almada já o fez por mim!

*

Ah! Minerva! Foi bênção ou maldição quando me ofereceste o teu olhar?