27/02/2011

16/04/2010

É UM CLUBE CADA VEZ MAIS RESTRITO...

31/12/2009

A SARAMAGO COMO SE DISSESSE CRIME

Eu era indefectível de Saramago.

Aquando do lançamento de Caim gerou-se uma polémica enorme, não em torno da obra (pelos vistos, ninguém a lera), mas em torno das declarações que o autor teceu sobre a Bíblia, apodando-a de “manual de maus costumes”. Dei pouca importância à contenda porque me convenci de que o Saramago da Caminho, já velho e frágil, se deixara enlear pelas manobras publicitárias da capitalista Leya. Erro meu. Saramago não se deixou enlear, ao contrário, pragmaticamente, serviu-se da capacidade publicitária da editora para que muitos mais quisessem ler o seu livro, tornando a mensagem mais eficaz.

Li toda a obra do autor e reconheço-lhe a rara capacidade de ter escrito duas obras-primas que são o Memorial do Convento e o Ensaio sobre a Cegueira e uma quase obra-prima, o Todos os Nomes. Desculpei-lhe os actos falhados de O Homem Duplicado e de A Caverna, enterneci-me com o Evangelho Segundo Jesus Cristo e com O Ano da Morte de Ricardo Reis e agradeci-lhe o tanto que me ensinou sobre a vida do camponês alentejano no Levantado do Chão.

Agora li Caim, nome de uma personagem Bíblica que Saramago aproveita e a quem, na sua liberdade criativa, inventa uma biografia, levando-o a passear-se por episódios do Génesis e do Êxodo. Identificando-se com o protagonista, Saramago faz de Caim o agente concretizador da sua utopia. Caim é Saramago e Saramago é a descrença.

As utopias são filhas do tempo, deixando-o transparecer mas, no fundo, trazem com elas a crença de que o ser humano é capaz de construir um futuro que seja perfeito. Onde encaixa, então, o pessimista Saramago na ideia de utopia? Encaixa perfeitamente, se aceitarmos que existem utopias negras, aquelas que pressupõem o extermínio de tudo quanto possa contribuir para a sua não concretização, que vociferam contra a violência quando é praticada pelos outros, mas instigam à sua prática se for para atingir os objectivos que almejam. Existem utopias destas e a de Saramago nem sequer tem o mérito de ser a primeira!

No Memorial do Convento associei-me a Saramago no nojo contra os autos-de-fé e a profunda hipocrisia do braço condenador. Em Caim percebi que Saramago não é contra os autos-de-fé, que não chora a morte pelo desperdício da vida – de qualquer vida – ele apenas se irrita por não ser a sua, a mão do carrasco e o seu motivo, o motivo da condenação. As vítimas seriam as mesmas e muitas mais!

A obra é um manifesto anti-semita na versão de anti-judaísmo e, não vá algum leitor deixar escapar a filosofia, o autor semeia juízos desses por toda a parte, nem sequer falhando a associação de episódios bíblicos com a leitura que faz da actual situação do país que é Israel.

Saramago, porém, não se satisfaz com o sangue dos judeus. A ele, só o sangue de todos os crentes o saciará e nisso se consubstancia a sua utopia. Antes de passar a ela, devo referir a ideia de mulher que o autor deixa transparecer: lascívia, nada mais que lascívia. De nenhuma das mulheres referidas sai uma ideia, uma palavra que marque; apenas a volúpia da sua entrega consciente ao corpo de Caim, para já não falar de Eva que se serviu da fraqueza da carne do querubim, guardião do jardim do Éden, para conseguir iludir o castigo de Deus e obter alimentos (e da repugnância que é a sugestão de que a espada de fogo do querubim é, afinal, o seu falo).

Como já disse, Saramago põe Caim a percorrer alguns episódios dos dois primeiros livros da Bíblia. Logo no início, Caim mata Abel porque não pode matar a Deus; mais adiante, será Caim a segurar o braço de Abraão quando este se preparava para sacrificar Isaac e o mesmo Caim instila o germe da descrença no patriarca, ao dizer-lhe que Deus foi cruel por não ter poupado os habitantes puros de Sodoma: as crianças! Sodomitas com filhos! Saramago tem de explicar o prodígio! À medida que Caim percorre os episódios bíblicos vai-se convencendo da suprema maldade de Deus e, quando chega à narrativa da construção da Arca da Aliança por Noé, toma uma decisão: se não pode matar Deus, matará todos os crentes, os únicos que Deus salvara do dilúvio. É por suas mãos que mata cada um dos filhos de Noé; é por suas mãos que mata cada uma das noras de Noé com quem se deitara e que estavam grávidas de si, tão grávidas como a mulher de Noé que também quis dormir com este Caim inventado por Saramago e este Caim-Saramago, que não cessa de chorar os filhos improváveis dos sodomitas, não hesita em matar as crianças que ainda não nasceram porque cometeram o supremo crime de terem sido geradas no ventre de gente obediente a Deus. Caim-Saramago só não mata Noé porque quer que seja ele o instrumento da sua vitória definitiva sobre Deus, obrigando-o ao suicídio.

Saramago salva Caim e, presume-se, será este assassino o primeiro habitante da sua utopia. Quem leu a obra, há-de entender a razão de ser do título que dei a este artigo.

Na classificação pessoalíssima que faço dos livros, merecidamente, arrumarei Caim ao lado do Mein Kampf. Não citei passagens de Caim pelo mesmo motivo que, a não ser no estrito cumprimento do dever profissional, me recuso a citar Hitler.

Eu era indefectível de Saramago!

01/12/2009

1640 e mais Fialho

Esta manhã, de nevoeiro e chuva, está de feição para nos trazer o Encoberto. Verdade, verdadinha, ele já chegou na pessoa de D. João IV. Quem o afirma é o jesuíta Padre António Vieira, e eu acredito mais nele do que em mim própria (será que a sanha antijesuítica se deve à lucidez dos seus membros?).

Volvidos 369 anos sobre a manhã refundadora da liberdade pátria em 1640 (outras existiram!)que povo somos nós? Seguidores acríticos da propaganda republicana que repetimos como papagaios, sem lhe conhecer a origem, atiramos mancheias de lama sobre 270 anos de História, o tempo da IV dinastia. À História de Portugal exigimos que cumpra a impossibilidade de se manter eternamente no apogeu, enquanto todos aceitamos a inevitabilidade da queda dos impérios, em sinal do devir histórico. E que fazemos por nós, para não soçobrarmos de todo? Em vez de delinearmos o futuro, atiramo-nos como cães raivosos a quem nos não dá a vida de lordes a que julgamos ter direito. Lá está: "a quem nos não dá", como se não fosse obrigação de cada um suar para conseguir o próprio sustento. Acusamos a Pátria da quimera sebastianista e não reconhecemos nesse "não nos dá" o nosso contributo pessoal para a alimentar. Acusamos todo o mundo, menos a nós.

É muito interessante este trecho do Fialho:


Como se todos tivessem nascido para destinos de príncipes, o menor contratempo desilude esses inermes (...). À preguiça que lhes deu o clima, juntam o fatalismo sorna que a tradição histórica lhes deu, e a cobardia física, vinda da dependência estrangeira e da esmoplante miséria em que Portugal tem vivido, desde o senhor D. João IV. Nenhum país possui, sob esse ponto de vista, mais autómatos. A iniciativa particular escandaliza a nossa inércia. Qualquer vontade medianamente enérgica nos faz medo E daqui dois males graves. O primeiro é aguardarmos toda a vida, por um fundo sebastiânico da raça, esse protector misterioso que numa manhã de névoa há-de vir pôr-nos a mesa, arranjar-nos o emprego, mobilar-nos a casa, casr-nos rico, e que não vindo nunca, constantemente nos impede de ganhar a vida por um trabalho sólido e higiénico. O segundo é estarmos aptos a sofrer constantemente o jugo dum subalterno audaz que qualquer golpe de mão leve ao pináculo, e que uma vez sagrado chefe, chicoteie a seu gosto a caterva de humildes pulhas que nós somos. Estes dois males ponte-vistam a história de todas as nossas misérias e de todas as nossas subserviências, internas ou externas, quaisquer que sejam (...).

E o que mais confrange é esta abdicação, no Estado como no indivíduo, ser feita de indolência estúpida, de desgoverno insólito, de falta de brio cívico. Não nos cerceia a miséria filha dum estancamento completo de recursos; cerceia-nos o desleixo, derivante dum descaminho de força, e de uma aplicação viciada e de predilecções e faculdades. (...) O resultado é este:em cima, o País gozado por dez ou doze charlatães, de parceria com dez ou doze bandidos, o todo fazendo permutaç~oes d'infâmias e jigajogas de negociatas, que lhes permite aguentarem-se alguns meses mais no tombadilho; em baixo a massa avulsa, morrinhenta, sórdida, sem força, desiludida de tudo, irrespeitosa de tudo, insultando-se como os cães, vendo passar as afrontas indiferente, e deixando-se cair alfim no próprio vómito, onde a letargia a açovaca, té que uma chicotada nova a faça outra vez estrebuchar!

(...)De sorte que o salve-se quem puder não deve exprimir-se no momento actual, por este grito: «quem nos livra dos ingleses!» mas por este outro - quem nos livra de nós mesmos!

In: Os Gatos, 31 de Agosto de 1890


Em 2009 damos por nós um vintém, ou vendemo-nos por um vintém?

24/10/2009

Do Fialho de Almeida

À parte outras virtudes, a política tem esta de prática: tira os vadios do caminho da cadeia, e pespega com eles no caminho da fortuna. Há safardanas que estavam hoje de capuz na Penitenciária, se S.M. os não tem posto de farda nos conselhos da coroa. O cadastro dos mesmos crimes dá aos malandros destino antípoda, conforme o edifício público em que se faz visar: - o Governo Civil chancela gatunos; S. Bento, homens de Estado. Et plus cela change plus c'est la même chose.

***
A instrução ficará assim nas mãos dum pessoal abstruso e ignaro, descultivado e indiferente (...).

Este pessoal, jungido do do famoso conselho de instrução pública, a quem se deve o estado humilhador do ensino actual, exercerá, segundo já por aí se diz, sobre escolares e professores, uma espécie de magistratura de carácter hierático e inviolável, reservando-se o direito de legislar sobre o que não conhece, de reformar o que lhe fizer conta, de impor às escolas os castigos e os prémios, quer a discípulos, quer a mestres, com solércia e aplomb, iguais aos que o foro privado da Universidade deixa exercer aos lentes, mesmo fora da alçada académica, sobre a desprotegida carneirada de estudantes.

Eu não quero pensar o que será o corpo docente das nossas escolas, onde, apesar da decadência do ensino, ainda podem contar-se muitas cabeças de excepção, mandado pelo Sr. Arroio e pelos gros bonnets do seu Ministério, nem vejo bem por que caminhos mentais derive a mocidade portuguesa, seguindo planos de estudo onde haja parágrafos do conselheiro Amorim, corrigidos pelo Luciano Cordeiro e pelo Alberto Pimentel. Lamento só, com uma filosofia desabusada, que, mercê das poucas-vergonhas vistas, me proibiu de há muito a indignação, lamento só que nem as matérias da ciência, nem os profundos prolblemas da educação, escapem ao dilúvio do amanuense que atola tudo, e pergunto a mim mesmo, se não é aviltante, irremissivelmente aviltante, para certas corporações superiores, esta lotaria política que põe sábios e antigos servidores, encanecidos nas austeridades da honra e do trabalho, à mercê do primeiro rapazola que o sr. Serpa e o sr. José Luciano se lembram de fazer ministro, e dos bisbórrias que esse ministro escolha para estado-maior dos seus estardalhaços (...).

Fialho de Almeida, Os Gatos

__________ //__________

Fialho tem, do Conselho de Instrução Pública do séc. XIX, a mesma visão crítica que eu tenho dos mestres saídos da escola de Boston que, tragicamente, lançaram ideias daninhas e práticas assassinas sobre o nosso sistema de ensino a partir dos anos 80 do séc. XX. São eles os agentes importadores do modelo americano das ciências da educação, designação que seria hilariante se a realidade que nos impuseram não fosse trágica. À estatística, ou a brandem como arma, ou jenuflectem perante ela como se ela fosse o credo da verdade e a medida de todas as coisas. A estatística é o dogma da religião que professam, a que chamam ciência. Os mestres de Boston, não satisfeitos por controlarem todo o processo da formação de professores, quiseram que as suas ideias tivessem forma de lei. Conseguiram-no, chegando ao Ministério da Educação na última legislatura. Por lá se mantêm, apesar de ser outra a ministra. Queira Deus que eu me engane como o (às vezes reaccionário) Fialho se enganou tantas vezes.

Das restantes acusações que Fialho faz, nem me apetece falar!

Faz sentido, ainda!





O microfone e a lente são incapazes de captar a atmosfera que se respirou, ontem à noite, no Campo Pequeno. Foi muito bom. Eh! Companheiros!

06/10/2009

Gracias a la vida

Quatro versões de uma só canção que estará na memória afectiva de muitos de nós. Começou no Chile, pelas mãos e voz de Violeta Parra. Depois correu o mundo inteiro, sendo a voz cheia e intensa de Mercedes Sosa aquela que, certamente, lhe deu maior visibilidade e alcance. Mercedes Sosa está, agora, a encher de encanto todo o espaço do céu.







29/09/2009

Mafaldinha

Bem sei que Quino não permite a publicação da sua Mafaldinha na internet. Apesar disso, não resisto à tentação, porque fez hoje 45 anos! Parabéns Mafaldinha...



(...e uma tirinha surripiada para nos fazer rir...)



29/06/2009

S. PAULO


El Greco, S. Paulo


Hoje é dia de S. Paulo. Também é de S. Pedro, porque a igreja cristã achou por bem reunir as duas pessoas numa única celebração, que é a dos fundadores dessa igreja. Entre nós, S. Paulo tem saído a perder e não me parece justo porque foi do seu labor que nasceu um cristianismo aberto a todos (outros do seu tempo queriam-no limitado aos circuncisos) e foi do seu pensamento, alicerçado na absoluta dedicação à mensagem de Cristo, que a dignidade humana foi alcandorada a alturas, antes, impensáveis:



Não há judeu nem grego;
não há escravo nem livre;
não há homem e mulher,
porque todos sois um só em Cristo.

(Epístola aos Gálatas, 3, 27-28)


A escrita de S. Paulo é poética, embora não quebre os versos. Aqui fica aquela que é, talvez, a mais bela das suas poesias - o capítulo 13 da primeira carta aos Coríntios, hoje, dia em que termina a celebração do ano paulino dedicado aos 2000 anos do nascimento do apóstolo que não conheceu Jesus em pessoa.

Ainda que eu fale as línguas dos homens e dos anjos, se não tiver caridade, sou como um bronze que soa ou um címbalo que retine. Ainda que eu tenha o dom da profecia e conheça todos os mistérios e toda a ciência e ainda que eu tenha toda a fé, de tal modo que remova montanhas, se não tiver caridade, nada sou. Ainda que eu distribua todos os meus bens e ainda que eu entregue o meu corpo para ser queimado, se não tiver caridade, de nada me aproveita. A caridade é paciente, bondosa é a caridade, não ferve de inveja, não se ostenta, não se orgulha, nada faz de inconveniente, não procura o seu interesse, não se irrita, não guarda ressentimento, não se alegra com a injustiça, mas alegra-se com a verdade; tudo suporta, tudo crê, tudo espera, tudo aguenta. A caridade jamais acaba. As profecias serão abolidas, as línguas cessarão e a ciência será abolida. Pois o nosso conhecimento é fragmentário e fragmentária é também a nossa profecia. Mas, quando vier o que é perfeito, o que é imperfeito será abolido. Quando eu era criança, falava como criança, pensava como criança, raciocinava como criança. Mas, quando me tornei homem, deixei o que era próprio de criança. Agora vemos como num espelho, de maneira enigmática; depois veremos face a face; agora conheço de modo fragmentário; depois reconhecerei como fui reconhecido. Agora permanecem a fé, a esperança, a caridade, estas três; mas a maior delas é a caridade.

(1Cor, 13)

25/04/2009

Abril

Porque hoje é Abril e faz falta acordar


Acordai
acordai
homens que dormis
a embalar a dor
dos silêncios vis
vinde no clamor
das almas viris
arrancar a flor
que dorme na raíz

Acordai
acordai
raios e tufões
que dormis no ar
e nas multidões
vinde incendiar
de astros e canções
as pedras do mar
o mundo e os corações

Acordai
acendei
de almas e de sóis
este mar sem cais
nem luz de faróis
e acordai depois
das lutas finais
os nossos heróis
que dormem nos covais
Acordai!

Não será preciso, mas:
Poema de José Gomes Ferreira
Música de Fernando Lopes Graça (in Canções Heróicas)
Canta o Coro da Academia de Amadores de Música, vulgo, Coro Lopes Graça

17/04/2009

GERAÇÃO Y

Saída directamente da minha caixa de correio:

What is Generation Y? Hmm, I've always wondered this myself. Now I know.


- The Silent generation, people born before 1946.

- The Baby Boomers, people born between 1946 and 1959.

- Generation X, people born between 1960 and 1979.

- Generation Y, people born between 1980 and 1995

Why do we call the last one generation Y? I did not know, but acartoonist explains it eloquently below...
Learned something new today!

27/02/2009

A Crise

Interessantíssima, esta explicação da crise. Vale a pena ver tudo.


The Crisis of Credit Visualized from Jonathan Jarvis on Vimeo.

01/12/2008

Senhor Inverno

Seja muito bem-vindo, senhor Inverno

com sua chuva doce e benfazeja,

sua neve calma, bela e límpida

e seu frio útil e retemperador!




Seja muito bem-vindo, senhor Inverno, pela promessa do recomeço!

Fotografias gentilmente oferecidas por minha irmã A.M.

25/11/2008

Ironia às escâncaras

Imagem retirada daqui.

Investido em Presidente do Conselho, Salazar ter-se-á rido com este pedido , digamos assim, escrito em Português Técnico, dirigido ao ministro da agricultura:


- E X P O S I Ç Ã O -

Porque julgamos digna de registo
a nossa exposição, senhor Ministro,
erguemos até vós, humildemente,
uma toada uníssona e plangente
em que evitámos o menor deslize
e em que damos razão da nossa crise.

Senhor: Em vão, esta província inteira,
desmoita, lavra, atalha a sementeira,
suando até à fralda da camisa.
Falta a matéria orgânica precisa
na terra, que é delgada e sempre fraca!
- A matéria, em questão, chama-se caca.

Precisamos de merda, senhor Soisa!...
E nunca precisámos de outra coisa.

Se os membros desse ilustre ministério
querem tomar o nosso caso a sério,
se é nobre o sentimento que os anima,
mandem cagar-nos toda a gente em cima
dos maninhos torrões de cada herdade.
E mijem-nos, também, por caridade!

O senhor Oliveira Salazar
quando tiver vontade de cagar
venha até nós solícito, calado,
busque um terreno que estiver lavrado,
deite as calças abaixo com sossego,
ajeite o cú bem apontado ao rego,
e… como Presidente do Conselho,
queira espremer-se até ficar vermelho!

A Nação confiou-lhe os seus destinos?...
Então, comprima, aperte os intestinos;
se lhe escapar um traque, não se importe,
… quem sabe se o cheirá-lo nos dá sorte?
Quantos porão as suas esperanças
n'um traque do Ministro das Finanças?...
E quem vier aflito, sem recursos,
Já não distingue os traques dos discursos.

Não precisa falar! Tenha a certeza
que a nossa maior fonte de riqueza,
desde as grandes herdades às courelas,
provém da merda que juntarmos n'elas.

Precisamos de merda, senhor Soisa!...
E nunca precisámos de outra coisa.

Adubos de potassa?... Cal?... Azote?...
Tragam-nos merda pura, do bispote!
E todos os penicos portugueses
durante, pelo menos uns seis meses,
sobre o montado, sobre a terra campa,
continuamente nos despejem trampa!

Terras alentejanas, terras nuas;
desespero de arados e charruas,
quem as compra ou arrenda ou quem as herda
sente a paixão nostálgica da merda…

Precisamos de merda, senhor Soisa!...
E nunca precisámos de outra coisa.

Ah!... Merda grossa e fina! Merda boa
das inúteis retretes de Lisboa!...
Como é triste saber que todos vós
Andais cagando sem pensar em nós!

Se querem fomentar a agricultura
mandem vir muita gente com soltura.
Nós daremos o trigo em larga escala,
pois até nos faz conta a merda rala.

Venham todas as merdas à vontade,
não faremos questão da qualidade.
Formas normais ou formas esquisitas!
E, desde o cagalhão às caganitas,
desde a pequena poia à grande bosta,
de tudo o que vier, a gente gosta.

Precisamos de merda, senhor Soisa!...
E nunca precisámos de outra coisa.

Pela Junta Corporativa dos Sindicatos Reunidos, do Norte, Centro e Sul do Alentejo
Évora, 13 de Fevereiro de 1934

O Presidente
D. Tancredo (O Lavrador)
Texto gentilmente enviado pelo meu amigo António Fernandes

22/11/2008

Explicação

Imagem retirada daqui

E até não sei se a certa altura não é bom haver seis meses sem democracia, mete-se tudo na ordem e depois então venha a democracia
. Estas palavras de Manuela Ferreira Leite provocaram um sururu dos diabos e o senhor deputado Alberto Martins veio de lá com o seu abrenúncio, não foi para ouvir destas que eu pedi a palavra, e ma não deram, num plenário académico à frente de Hermanos Saraivas e Américos Tomás! Figuras tristes, isso sim. Bem feita, tivessem-me lido!

Quem me leu há-de embrar-se que o senhor primeiro ministro, convidando-nos a um silogismo, afirmou ser ele a Lei. Perante isto, a interpretação das palavras de Manuela Ferreira Leite só pode ser esta: E até não sei se a certa altura não é bom haver seis meses sem José Sócrates, mete-se tudo na ordem e depois então venha a democracia.

Sem ironias: quem lhe tira a razão?

13/11/2008

Tempos levados da breca







J. Bosch, Navio de Tolos (estudo)






"Quem governa é a lei", disse o senhor primeiro ministro. Ouve-se e não se acredita!


Pegar nesta expressão pelo lado da anedota seria entrar no jogo que nos querem fazer jogar, de fingir que não vemos a realidade, escapando à incómoda tarefa de a nomear. Tenho a certeza de que o senhor primeiro ministro disse o que queria dizer. Ele sabe bem que quem governa é o governo corporizado na sua pessoa e o silogismo mais elementar dá-nos a exacta conclusão que quer que tiremos, para que todos passemos a agir em conformidade:

Quem governa é a lei
Sócrates governa
logo
Sócrates é a lei

O senhor primeiro ministro proferiu tais palavras no dia seguinte ao da avassaladora manifestação de professores. Não foi por acaso! Ele quer que os professores e, através deles, todos os cidadãos, assimilem aquela máxima, corolário de toda a sua prática governativa e não hesita em socorrer-se da intimidação para atingir as metas que se propôs: criar um país onde lhe sejam cantados hossanas. Nos seus sonhos mais ousados, quiçá, imagina o dia em que os professores serão os sacerdotes mais devotados da sua liturgia política.

Na soberba das suas certezas, ele crê que inventa um mundo novo e nem se lembra de quantas vezes se rompeu a cadeira do poder a tantos outros como ele.

02/11/2008

Sequências

Chega Novembro e é assim, lá para as bandas do ocaso. Do céu vêm as cores da alegria e do deslumbramento. Assim venham as da paz!




17/10/2008

O voto






Este de cartaz de Obama, tão cheio de ironia e de duplo sentido, trouxe-me à lembrança uma das obras mais discutidas de Saramago e, também, uma das mais mal interpretadas: Ensaio Sobre a Lucidez.








Lançado em cima das últimas eleições legislativas e lido de forma superficial, o livro foi entendido como sendo um apelo ao voto em branco. Quem só é capaz de entender assim deveria voltar aos bancos da escola! Na verdade, a obra é um libelo contra a redução da democracia aos seus elementos formais, prática que subverte o sistema transformando-o em ditadura disfarçada.

Dou conta, aqui, de algumas reflexões e notas que tomei aquando da leitura do livro e que me parecem profundamente actuais:

  1. profissão de fé, do autor, nas práticas da democracia: os cidadãos vão votar.
  2. o governo age como se fosse tirânico: desconfia dos cidadãos, usa práticas fascistas, superioriza-se face ao parlamento que é esvaziado de importância e significado:
  • Perante o desconhecido, a democracia actua como qualquer ditadura? Ou seja: os modelos democráticos são passíveis de funcionar, apenas e só, nas circunstâncias do prevísivel, do não sobressalto?
  • A democracia é frágil ao ponto de a sua existência , de facto, depender do maior ou menor pendor democrático dos governantes?
  • A democracia que existe é meramente formal?
  • A democracia existe se, e apenas se, os eleitores forem democratas?
  • O voto legitima todos os actos dos governantes eleitos?
  • Pode um governo democrático (eleito democraticamente) tornar-se governo de terror para os cidadãos?

Lido imediatamente a seguir ao Ensaio sobre a Cegueira, este segundo Ensaio soube-me a pouco. Agora que reli as minhas notas...

___
Não vindo totalmente a despropósito: Pacheco Pereira publicou um artigo admirável na Sábado e que transcreveu para o seu Abrupto. Fala da publicidade do governo, de um mundo que querem mostrar admirável mas que é (seria) horrendo. Vale a pena ler.

11/10/2008

Coisas Boas (III)

Fui sempre tontinha por gatos. Já baptizei um Mestre Finezas e um Malhadinhas a quem só não chamava meus porque eram dos quintais. Minha, minha só uma, Jerica de alcunha, mas que respondia por qualquer nome desde que fosse a minha voz a chamar por ela. Nos momentos de ternura, bem enroladas uma na outra, eu arrulhava-lhe um “és a minha raposeta, senhora de muita treta” e ela ronronava-me algo equivalente.

Aquilino está-me entranhado no ser, como se fosse mais um constituinte do sangue, e, do mesmo modo que o sangue me dá a cor dos vivos, Aquilino salta-me ao estilo quando a palavra resvala para a pieguice.

Apesar de reconhecer a importância que Aquilino Ribeiro tem para mim, li-o apenas uma vez e não voltei a pegar nele. Ou melhor: li-o em duas etapas, primeiro ainda mal libertada das trancas do soletrar e, depois, naquela idade em que a iniciação à filosofia nos convida a deixar as letras cor-de-rosa. Depois mais nada, como se não fosse preciso. Mas era. É preciso!

Dei-me conta disso depois de ler uma série de ensaios da autoria de António A. Fernandes reunidos sob o título: Aquilino Ribeiro – Sob o Signo da Terra e do Homem.

António Fernandes oferece-nos uma tese sobre a obra do Mestre. Leu, releu, pensou e amadureceu ideias, por isso não encontramos pontas soltas no seu raciocínio e, o que é mais, sugere-nos um fio condutor e uma lógica de leitura. Mas o melhor de tudo é constatarmos a erudição que subjaz por detrás de cada frase e a utilização de um léxico que, não sendo aquiliniano, nele bebe o gosto e o modo de dizer sem aqui d’el-reis que é regionalismo e podem não entender. Introduz-nos ao estudo de O vinho em o Malhadinhas com as seguintes palavras:

Na aldeia não há clubes nem teatros nem concertos; esterlóquios só quando muito bem calha ou o rei faz anos; como desporto o chincalhão (...) Por isso, supremo prazer é a pinguita bebida com todos os vagares, em amena cavaqueira com os amigos, nas tardes de domingo, divagando sobre tudo e coisa nenhuma, ao sabor sagrado do ripanço. (p. 74)

É um trabalho académico sem academismos parvos, um estudo de literatura sem cair em tentações peralvilhas. Lançando mãos da sua experiência como professor, enquanto sugere que Aquilino deveria ser lido nas escolas e lhe descobre uma insuspeita vocação para João de Deus (farpa minha), vai-nos desvendando o seu modo de entender o ensino. Eis um exemplo, a propósito de Cinco Réis de Gente que, segundo defende, se estrutura em torno de uma dupla de valores, (…) a fome de liberdade e o sentido da descoberta. Sem a sua presença, qualquer sistema educativo ou qualquer modelo pedagógico mais não farão que descaracterizar o ser humano em formação e predispô-lo para o desempenho passivo de uma qualquer função social de meteco, porque a escola que não liberta não educa. (p. 174)

As grandes personagens de Aquilino estão todas contempladas, embora A. Fernandes não dedique um ensaio a cada uma delas ou a cada uma das obras em que Aquilino as forjou. Em vez disso, descobre grandes linhas temáticas – “humanitas”, liberdade, viagem, educação – e é através desses temas que nos conduz na compreensão do pensamento do autor, saltando de obra para obra, como que guiando-nos em viagem de descoberta, assunto e método tão caros a Aquilino como ao seu intérprete.

A terra, “a grande matriarca” (p. 110) personagem activa em todos e cada um dos romances de Aquilino, é-nos apresentada do seguinte modo: A presença avassaladora da terra na ficção aquiliniana não pode entender-se como mera contemplação estática e estética da paisagem como elemento decorativo, mas apresenta uma dimensão dinâmica que lhe permite impregnar-se de irrequietude pela errância das personagens que lhe andam associadas. (p 110) Aquilino cria um conceito de espacialidade em torno do qual se gera um impressionante, ainda que menos perceptível, fenómeno que poderíamos designar por espacialização do tempo – o espaço da narrativa esmaga e molda o tempo. (p. 111) Se dúvidas ainda tivesse, nesta passagem encontraria motivos de sobra para reler Aquilino. E testar a tese.

O ensaio intitulado Quando os Lobos Uivam – A casa do homem pareceu-me muito especial. O pensamento e o método de Aquilino são analisados à lupa, mas está lá muito mais do que Aquilino, está lá uma entrega tamanha ao assunto que é como se António Fernandes se transfigurasse no narrador do romance, um narrador que tivesse estado presente ou, mesmo, participado dos acontecimentos. Atentemos nas palavras com que descreve a cena dos confrontos entre os serranos e as forças policiais:

Os sinos tocam a rebate e os habitantes de dez povoados em redor acorrem em fúria tumultuosa (…). Acendem-se altercações entre camponeses e agentes da sacrossanta ordem, das palavras passa-se aos actos, soam tiros, há homens tombados, feridos uns, mortos outros, sobrevém o pânico e a debandada do gentio, desarvorando serra abaixo. Na sequência destes acontecimentos, a Pide invade as aldeias adscritas ao perímetro do projecto florestal e deita o gatázio a uns quantos dos mais influentes (…) (p. 86/87)

A obra de António A. Fernandes ensina-nos Aquilino enquanto nos presenteia com páginas e páginas de boa literatura. Termino com um excerto do ensaio trabalhado com pinças sobre O Livro do Menino Deus:

Não, Aquilino não amava o povo: tresandaria a romantismo e raposinho. Aquilino amava a Beira, enquanto terra, enquanto paisagem. Ao beirão, admirava-o pela sua tenacidade, pela sua resistência face à vida, pela ralé que lhe permite imprevistos golpes de rins quando a sorte se lhe mostra mais madrasta. [Anteriormente escrevera “É uma afeição incapaz de anular a lucidez crítica” (p.57)] Por muito que nele se pretenda ver o paladino dos desprotegidos da mofina, nunca se deu ao cuidado de os transfigurar, como Júlio Dinis ou Trindade Coelho, em macerados mártires do destino, resignados e contentes com a vida que lhes coube em sorte. Havia no escritor um excesso de clarividência, temperada de cepticismo, que o impedia de amenizar humanas debilidades e manhas de que o homo sapiens se apetrechou a partir do momento em que passou a alçar-se sobre os membros inferiores e olhar a vida de frente.” (p.267)

Para o Tonho, com o meu abraço e o meu bem-haja.
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Este livro deveria estar à venda nas boas livrarias. Mas não está e só pode adquirir-se por encomenda à editora:

CENTRO DE ESTUDOS AQUILINO RIBEIRO
UNIVERSIDADE CATÓLICA
ESTRADA DA CIRCUNVALAÇÃO
3504 -505 VISEU
ou:
cear.aquilinoribeiro@gmail.com

04/10/2008

A crise

Esta merece honras de publicação. Nem imagino quem seja o autor, mas faz-nos rir no meio da desgraceira e, só por isso, vale a pena. É a visão de um brasileiro.

Para quem não entendeu ou não sabe bem o que é ou gerou a crise americana, segue breve relato econômico para leigo entender...

É assim:

O seu Biu tem um bar, na Vila Carrapato, e decide que vai vender cachaça "na caderneta" aos seus leais fregueses, todos bêbados, quase todos desempregados. Porque decide vender a crédito, ele pode aumentar um pouquinho o preço da dose da branquinha (a diferença é o sobre preço que os pinguços pagam pelo crédito).

O gerente do banco do seu Biu, um ousado administrador formado em curso de emibiêi, decide que as cadernetas das dívidas do bar constituem, afinal, um ativo recebível, e começa a adiantar dinheiro ao estabelecimento, tendo o pindura dos pinguços como garantia.

Uns seis zécutivos de bancos, mais adiante, lastreiam os tais recebíveis do banco, e os transformam em CDB, CDO, CCD, UTI, OVNI, SOS ou qualquer outro acrônimo financeiro que ninguém sabe exatamente o que quer dizer.

Esses adicionais instrumentos financeiros, alavancam o mercado de capitais e conduzem a operações estruturadas de derivativos, na BM&F, cujo lastro inicial todo mundo desconhece (as tais cadernetas do seu Biu).

Esses derivativos estão sendo negociados como se fossem títulos sérios, com fortes garantias reais, nos mercados de 73 países.

Até que alguém descobre que os bêbados da Vila Carrapato não têm dinheiro para pagar as contas, e o Bar do seu Biu vai à falência. E toda a cadeia sifudeu !

Viu... é muito simples...!!!