29/12/2007

Passeio Filosófico

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Embora cansadas, porque isto da idade já lhes não permite atravessar, impunemente e a pé, meia cidade, entraram entusiasmadas no Palácio da Ajuda. Queriam ver “A Rússia dos Czares” e relembrar o próprio palácio, morada inconclusa e mal amada dos últimos reis de Portugal.

A exposição, como o nome indica, está vocacionada para mostrar o poder e fá-lo bem devido à qualidade dos objectos expostos: inúmeras pinturas; objectos cerimoniais e do quotidiano e, até, as botas e algumas roupas de Pedro, o Grande. Tudo assevera o fausto da casa real russa e da nobreza a ela associada. Altos painéis dão conta dos principais acontecimentos relacionados com cada um dos czares representados, mas sente-se falta de informação adicional. Fazem falta, por exemplo, pequenas biografias de cada uma das figuras cujo retrato consta da exposição, porque se o nome de Bolkonski nos é familiar da Guerra e Paz, já quase todos os outros não nos dizem nada. E é pena! Fernando António Baptista Pereira, o comissário da exposição, já deu provas de que sabe fazer bem. Porque o não terá feito desta vez?

As duas visitantes demoraram-se bastante na observação de duas pinturas que retratavam, uma, o casamento de Alexandre III e a outra, o de Nicolau II. Que contraste! A primeira é uma obra magistral, vivíssima pelo realismo com que apresenta a enorme catedral repleta de gente que se mostra e mostra o seu poder pelo traje, penteados e jóias. A segunda arrepia por parecer premonitória. O fausto está presente, mas o pintor parece que só quis pintar a decrepitude, fazendo incidir a luz – que se não percebe de onde vem – sobre as rugas dos rostos que a farinha ou o pó-de-arroz não conseguem disfarçar. Era como se ali coubesse todo o arcaísmo e a agonia da Rússia imperial!


2

A visita às salas que o Palácio da Ajuda tem abertas ao público magoou as duas visitantes. Num palácio cheio de janelas, situado numa cidade luminosa como Lisboa, é incompreensível que tudo tenha que ser visto com luz artificial! E tão mal colocada que, em certas salas, quem quiser olhar para os tectos ou, simplesmente, para a parte superior das paredes, fica encandeado e nada pode ver. Elas bem sabem que o sol é má companhia das antiguidades, mas também sabem que há sistemas que, aplicados às janelas, permitem coar a luz solar.

A distância imposta ao observador impede que se vislumbre, sequer, o recheio de muitos dos armários do recheio das salas e a informação disponível peca por escassa. Ou seja: quem não sabe o que é determinada peça ou qual a personalidade representada nos diversos retratos, bustos, etc. continua sem saber. Às vezes, é a simpatia de alguns guias (existentes só para grupos, mas ali presentes mesmo quando não há grupos a quem guiar) que, ouvindo os queixumes dos visitantes, esclarecem um ou outro pormenor. E foram os ouvidos de alguns desses guias que escutaram as reclamações das duas visitantes a quem chocou, além da questão da luz, a caducidade geral do edifício, o desagradável cheiro a mofo mas, sobretudo, as horrendas plantas artificiais espalhadas por todas as salas. Nem no jardim de Inverno se vislumbra uma planta verdadeira, daquelas que têm clorofila e função clorofilina!

A sala de banquetes mostrava a mesa à qual se sentaram tiranos e tiranetes que se aboletam com o sangue dos seus povos e que foram locupletados pelos democratas de Lisboa, tudo em sã harmonia, porque nisto dos negócios o sangue dos outros não é nódoa, é mais-valia, mormente quando se trata de cimeira entre África e Europa!

E quando as duas visitantes se preparavam para entrar na dita sala, uma guia despedia um grupo em Língua Castelhana. A alguém que lhe dirigiu a palavras em Português, ela pediu uma pausa para ser capaz de mudar de idioma porque, desabafou, nem Português nem Castelhano eram a sua língua materna. Qual é, então? Foi a pergunta imediata da mais vivaz das duas visitantes; que era o Francês, e um envergonhado “sou dos invasores”, foi a resposta escutada. “ Que faz aqui, então?” insistiu, curiosa.

Quero estudar o outro lado do Império!
"Nesse caso, suponho que já alguém lhe deve ter falado da infâmia praticada entre nós pelos exércitos de Junot!” Disse, em desabafo, a segunda visitante.
Que não, mas que se ela soubesse do assunto, por favor lhe contasse. A segunda visitante mal tinha começado a falar quando foi interrompida por uma senhora de belo penteado que proferiu doutorais palavras:
“Nós temos que agradecer aos franceses porque vieram trazer a civilização!”
Os olhos arregalados da segunda visitante devem ter sido eloquentes. A doutoral figura virou costas mas a gaulesa pediu-lhe que continuasse a falar. E ela disse do que sabia, e a ouvinte soltou um “oh!” arrepiado quando ouviu dizer que Junot desmembrara o exército nacional e que reunira os nossos melhores soldados e os obrigara a integrar a “Legião Estrangeira” do exército imperial, soldados que iriam combater numa guerra que não era deles e muitos dos quais, sabe Deus quantos, morreram nas estepes geladas da Rússia. A ouvinte, como que a pedir desculpa, dizia: “Mas sabe que Napoleão não queria guerra contra Portugal, a guerra era contra os ingleses…” claro que sabia isso, mas que importavam os motivos se o resultado era o mesmo? Portugal fora invadido, pilhado e, pior que tudo, humilhado! Que diferença fazia se era para combater os ingleses ou não? Aliás, em sua opinião, já que de opinião não passa, Napoleão era um grande cínico porque, sendo filho da revolução, traiu a revolução. Ele cresceu na República e fez-se coroar imperador! Ele afirmava-se libertador dos povos que invadia, mas tratava os países como feudos que concedia a familiares e sequazes! Napoleão só difere de Hitler porque não matou judeus! Aliás, era pior do que Hitler porque, ao menos, Hitler não entrava nos países com promessas de libertação!

A conversa foi longa, mas cordial. A guia despediu-se dizendo: “sabe, não aprendemos nada disso no liceu!” e a segunda visitante retribuiu: “a França começou a limpar-se no séc. XX quando recebeu tantos portugueses que, na sua Pátria, não tinham como sobreviver!”

3

A tarde já ia a meio e as duas visitantes ainda não tinham almoçado. Desceram a Calçada da Ajuda e entraram na primeira tasca que viram aberta. Saciadas, prosseguiram a descida, decididas a encerrar a jornada com um delicioso pastel de Belém. A meio da Calçada, frente ao Picadeiro Real, luzidio automóvel captou a atenção da primeira visitante, agora, caminhante. A discrição nunca foi o seu forte, por isso não se coibiu de dar a volta à antiguidade enquanto pensava em voz alta: “Parece um Saab!"

“Parece-lhe o quê?” ouviu-se dizer a uma voz masculina. “Repare bem”; "Pois, já vi que é um Renault”; “Mas não é um Renault qualquer” “qual é então?” “digo-lhe que veio para fazer concorrência ao Volkswagen” “a qual Volkswagen?” “Diga lá a senhora que está aí tão calada” “Por aquilo que diz deve ser de fins dos anos 40, início dos anos 50, mas olhe que eu não percebo nada de carros” “não percebe mas acertou, este é de 1950. “Então o carro é seu?” insistiu a primeira caminhante “está em meu nome, mas é mais do banco!” “E quanto custa um brinquedo destes?” “Minha senhora, as contas não são para aqui chamadas!” “Ele está todo renovado, deve ter gasto um dinheirão”, e o homem, pouco amigo de números, continuou “a senhora deve ser economista… olhe, na Renault guardam ficheiro de todos os carros vendidos, por isso, com o número de série, consegui mandar fabricar estofos iguais aos originais e também está pintado com a cor de fábrica!” “O senhor anda por aí com ele? Vai a corridas de carros antigos? Quanto consome de gasolina?” “Que importa isso? Eu bem digo que é economista! O que importa é o prazer de o conduzir. Entre e experimente!” “Eu nem carta tenho, mas mesmo que quisesse não cabia lá!” “Entre a senhora!” “Eu não gosto de conduzir, nem sei quantas velocidades tem o carro. Três?” “Não importa, entre para o lugar do passageiro!” Sem saber porquê, a segunda visitante sentiu-se na necessidade de agradar à masculina figura e, gargalhando para dentro, pensou que estava a interpretar uma adaptação invertida da Rosa Púrpura do Cairo de Woody Allen.


Os avanços da tarde que já tinha escondido o sol e a necessidade de regressar a casa puseram fim a esta cena de comédia. As duas caminhantes tiveram que prescindir do pastel de Belém porque, em dia de Benfica-Belenenses, a bicha era de susto. A gargalhada foi companhia do regresso.

Epílogo

O português parolo (incapaz de fazer a destrinça entre as jóias da família e a fancaria lustrosa), o português basbaque (para quem é ouro tudo aquilo que vem de fora, mesmo que de fora venha a destruição e a miséria) e o português perdulário (que gasta o que não tem, de preferência adquirindo no estrangeiro): eis a súmula deste autêntico passeio filosófico aos defeitos nacionais. Uma das amigas chegou a casa e releu a última página de A Ilustre Casa de Ramires para se irmanar com Eça na descrição dos vícios nacionais e, mesmo assim, encontrar motivos para amar profundamente a Pátria e o seu povo. Somos, de facto, Gonçalo Mendes Ramires!

23/12/2007

Saudades

Vem, neve, e traz o silêncio!

21/12/2007

Da Suíça

Os suíços têm muitos defeitos. Mas os suíços não têm o defeito de se esquecer dos seus, mesmo aqueles que vivem fora da Pátria. Para estes, de entre muitas iniciativas, destaco a publicação de uma revista que lhes é particularmente dedicada e, porque a suíça é País de muitas línguas, cada cidadão pode optar por receber a revista em qualquer uma das línguas nacionais.









Eis a lindíssima capa da revista deste Natal.












Lá dentro, um apanhado das notícias mais relevantes. Algumas caricaturas mostram que, afinal, os suíços não são totalmente desprovidos de sentido de humor autocrítico.









Mas o mais interessante é a reportagem sobre a abadia beneditina de Einsiedeln, fundada em 934.


Do edifício original, por aquilo que as imagens deixam ver, pouco ou nada sobrará, mas resta o mais importante, que é a obediência à máxima de S. Bento: “Ora et Labora”.
E foi pelo muito laborar que os monges permitiram que chegasse até nós aquilo que, pessoalmente, mais me interessa destacar. Cito, em tradução livre: “A biblioteca da abadia reúne 1230 manuscritos (dos quais 500 foram escritos antes de 1500); 1100 incunábulos e primeiras edições (até 1520) e 230 000 volumes impressos (do século XVI até aos nossos dias).”


Na abadia existe uma Virgem Negra colocada numa capela barroca. Volto a citar: “Originalmente, a estátua da Virgem não era negra, conta o Abade Martin. Como a primeira capela era pequena, ao longo dos séculos, o fumo das velas enegreceu a imagem. Durante a Revolução Francesa, para preservar a estátua, ela foi enviada para a Áustria onde foi restaurada. Como tivesse recuperado a brancura, as pessoas sentiram-se decepcionadas. Então foi pintada de negro.”

O povo acredita na vocação miraculosa de Einsiedeln mas, nas palavras do seu abade, “os maiores milagres não são aqueles que se vêem, antes, aqueles em que as pessoas encontram um sentido para a vida e novas esperanças.”

Assim seja!

06/12/2007

Ainda os franceses

Contrariamente ao escol da sociedade que contextualiza, explica, justifica e, por isso, relativiza, a memória do povo é longa porque conserva a memória do vivido. É por isso que a avó do Jofre, há quarenta anos, ainda designava alguns tratantes com o apelativo «Jinó»: Junot!
Foi a memória portentosa do Jofre Alves que me ofereceu as preciosidades que se seguem, dizendo:

Antigamente o povo cantava estas cantilenas:

Quem oprime os Portugueses
Quem os rouba sem ter dó?
É esta Tropa Francesa
De quem é chefe Jinó.

Ou esta:...

É jurar
De matarmos o Jinó
E antes que ele se vá
Havemos fazê-lo em pó.

E havia, também, rezas anti-napoleónicas:

Conheces o Jinó?
Eu nunca cheguei a ver.
Pois é bom de conhecer(fazia aqui o “Pelo sinal”).
Da França é general,
É um impostor, usuário
E, também adversário
Da Santa Cruz.
Santo nome de Jesus!
Não há quem dele dê cabo?
De semelhante diabo
Livre-nos Deus!

Tenho a certeza que a reza só se encerrava com um Padre Nosso e três Avé-Marias!

Obrigada, Jofre!

30/11/2007

HÁ 200 ANOS: VÉSPERA DO 1.º DE DEZEMBRO...

... Junot, o invasor a mando de Napoleão, entra em Lisboa. No Tejo ainda se avistavam os mastros dos navios que transportavam a família real para o Brasil. Na praia de Belém jaziam milhares de caixotes que não couberam nas embarcações disponíveis. Entre esses, dezenas continham as obras raras e preciosas da Biblioteca da Ajuda. Os franceses serviram-se lautamente.



Junot, que seguira a linha do Tejo, avançara com dificuldade pelas terras alagadas da Beira e do Ribatejo. Era um Inverno muito frio e chuvoso e, por causa dele, o poderoso exército de Napoleão mais parecia uma matilha de esfaimados e pedintes. D. João, o Príncipe Regente, para poupar a população à vingança que se oferece aos derrotados, ordenara que os franceses fossem recebidos como amigos. Assim, só a natureza lhes ofereceu resistência! Apesar de saber disso, Junot proclamava que nos vinha libertar das grilhetas da tirania absolutista. Viu-se bem depressa de que libertação se tratava!


Protecção á Franceza

Que vem a ser ter entrado
Dias antes do Natal
Tropa estranha em Portugal
Mal calçada, e mal vestida,
Esfaimada, e intorpecida
De cançasso, ou de fraqueza?
He protecção á Franceza!

Que vieraão cá fazer,
Sem lhes mandarmos recado?
Comerem-nos pão, e gado,
Pondo tudo em cofuzão!
Desta gente a protecção
Tem diversa natureza
He protecção á Franceza!

José Daniel Rodrigues da Costa, 1808

Rapidamente a acção dos franceses transforma em ódio a simpatia que, antes, algumas pessoas tinham pelos ideais da Revolução Francesa:

Se inda houver, o que não creio,
Maniacos desgraçados,
Que sejão apaixonados
Da aleivosia Franceza;
Tomemos a grande empreza
De lhes curar a loucura;
Porque dos Doidos a vêa
O que preciza he corrêa.

Onde está o Patriotismo
Honra de antigos varões?
São heroicas acções,
Ser traidor, ser de má fé?
Apoiando só quem he
Usurpador, e Tyrano?
Para curar estas falhas,
Récipe; chicote, e palhas.

António José Maria Capela, 1808

Décima

Entre os titres Generaes
Entrou hum de genio altivo,
Que ou era o diabo vivo,
Ou tinha os mesmos sinaes:
Aos alheios cabedaes
Lançava-se como setta;
Namorava branca e preta;
Toda a idade lhe convinha;
Comsigo tres = Emes = tinha,
Manhozo, Máo, e Manêta.

Idem

26/11/2007

VERA PYRRAIT



Vera Pyrrait é uma grande pintora. Um pedacinho de qualquer coisa é, pela sua mão e sensibilidade, transformado numa narrativa contada pelas cores e pela textura dos materiais de suporte. As suas cores, sobretudo os azuis, são transparentes como um dia claro e a mancha cromática tem a enorme capacidade de despertar ternura.

Desta vez Vera Pyrrait decidiu ilustrar palavras terceiras, em história para a infância. Pede um Desejo, da autoria de Inês Barros Baptista, ganhou brilho e harmonia com as cores e o traço de Vera Pyrrait.

O traço e as cores escolhidas remetem o leitor para um imaginário de ternura, distante daquelas figuras angulosas e de linhas vincadas que, ultimamente, se têm oferecido às crianças. É verdade que algumas características físicas das personagens, como a cor do cabelo das duas fadas, advêm do próprio texto, mas a escolha da forma do rosto, a expressão e cada um dos gestos figurados nasceram do mundo doce e afectuoso que Vera Pyrrait deseja que seja o da infância. É por isso que os abraços e as mãos que se dão ou se oferecem são gestos presentes na maior parte das páginas ilustradas.

O livro apaixona quem o vê. A título de exemplo (porque não sei se não estarei a violar direitos de ©) publico partes de algumas das ilustrações. Quem tem netos, filhos pequenos ou, simplesmente, continua a deslumbrar-se com a literatura para a infância, tem aqui uma excelente aquisição a fazer. A editora Âmbar não regateou na qualidade das reproduções.



Vera Pyrrait representa, assim ...

...a "Tristeza"...

... e o "Medo"...

... que as duas pequenas fadas irão ajudar a ultrapassar.

Resta-me uma provocaçãozinha final. Todas as personagens são representadas de corpo inteiro, à excepção da rainha cuja coroa é quase do tamanho do rosto. Ela tem olhos grandes (para ver tudo?), nariz bem marcado (para o meter em tudo?) e boca aberta (para mandar?). Mas não se lhe vêem os ouvidos (porque nada quer ouvir?). Querida Vera, às vezes dizemos aquilo que o momento nos sugere. Só pergunto se foi sem querer!

19/11/2007

Bendita seja a chuva

venusmarte.JPG




Que bela é a chuva! Que bela é a lua espreitada por entre as nuvens (mesmo que a fotografia tenha sido tirada em tempo de céu limpo e dias de horas mais longas)!


A beleza não cessa: haja quem disponha de coração limpo para poder contemplá-la!





Bendita a chuva mansa que penetra a terra e lhe devolve a vida.


Bendita a chuva reunida que dá caudal aos rios, enche as fontes e as nascentes e alimenta as grutas.


Bendita a chuva que limpa o ar e alarga o horizonte.


Bendita a chuva que lava o olhar e conforta a alma.


Benditos os dias de chuva em sucessão.


Benditos os astros que iluminam os sonhos mesmo se as nuvens não nos deixam vê-los!

11/11/2007

ARMISTÍCIO


Hoje é dia de S. Martinho, o monge bondoso que foi abençoado por Deus por ter oferecido a sua capa a quem, no Inverno, precisava dela.

Deus recompensa a bondade.

Por esta altura, nas terras da castanha, os donos dos castanheiros autorizam o "rebusco". O rebusco é uma prática secular e funciona como uma interrupção no direito de posse. No tempo do rebusco, aqueles que nada têm são livres de procurar em qualquer terra e em volta de qualquer castanheiro, os frutos que haja ainda por apanhar. No tempo do rebusco lembra-se que Deus deu a Terra e os seus frutos a todos os homens e, por isso, uma pessoa sem alimento é uma ofensa à pessoa de Deus. Deus irmana os homens e, em certas ocasiões, os homens lembram-se disso. Castanha era caldo e era pão; castanha era sustento e sobrevivência. Como negar isso aos irmãos?

***
Nos campos enlameados da Flandres, a morte era o sustento da raiva. Nas trincheiras nem sequer se sobrevivia: apenas os corpos escapavam à morte. Nas trincheiras, o inferno era de frio e de lama e os danados eram os corpos dos jovens em putrefacção.


Nos campos da morte, talvez alguém se tenha lembrado que era o tempo da castanha. No tempo da castanha assinou-se a paz. Os irmãos só existem se houver paz. No tempo da castanha assinou-se a vida.

Bendita seja a paz!

09/11/2007

Castanha


Este ano tem sido como primeiro parto em mulher madura: aos ouriços custa-lhes a abrirem-se e caem prenhes no chão. Cada castanha tem que ser desouriçada, rebolada pela ponta do pé e retirada pelos dedos fórcipes dos apanhadores. Custosamente, embora, o fundo da cesta vai-se enchendo de brilho doce e bom sabor.

Muitas castanhas estão, ainda, em leite, concebidas que foram fora de tempo - o pouco calor do Verão nem às árvores convidou ao devaneio!

O ritual da apanha da castanha exige tempo frio e a chuva agradece-se para que os pães se possam ir semeando. Este ano a tradição quebrou-se e, por sob os castanheiros, mulheres e homens envergavam vestes frescas de Verão. As terras de lavoura lá estão, lavradas, à espera que o céu as venha humedecer e as torne capazes de acolher a semente.

Enquanto nas cidades se discute a relevância do modo como se há-de obter energia eléctrica, nos campos reza-se para que nos devolvam as estações do ano já que, lá, nada existe sem a certeza da permanência.

28/10/2007

João Bénard da Costa e o Público que me perdoem, mas não resisto a trazer para aqui um pedacinho daquilo que um escreveu e o outro publicou, hoje, no caderno P2.


A acção situa-se a 14 de Agosto de 2089, por ocasião das comemorações do terceiro centenário da Declaração Universal dos Direitos do Homem. A humanidade progrediu muito desde os bárbaros tempos de 2007, quando só eram punidas discriminações étnicas, religiosas, etárias, de género, por deficiência ou por orientação sexual. Tinha já quarenta anos a célebre lei sobre a Igualdade de Oportunidades para os Inteligentes e para os Imbecis, que proibia, sob severas coimas, e em casos contumazes sob pena de prisão, quem favorecesse, na escola, na vida privada ou na vida pública, determinado individuo em detrimento de outro, alegando a comprovada inteligência de um ou a comprovada estupidez de outro. Aperfeiçoamentos sucessivos, na gloriosa década de 50, haviam mesmo estabelecido que qualquer pessoa que fizesse prova de que fora prejudicada pelo seu atraso ou lentidão mental, tinha direito a receber uma pensão do Estado, destinada a compensa-la da injustiça "natural" que dela fizera, sem qualquer culpa própria, uma besta quadrada. Escusado será dizer que expressões como esta ou equivalentes ("estúpido como as casas", palerma, estólido, obtuso, bronco, idiota, tapado, etc etc) haviam sido rigorosamente proibidas e os códigos deontológicos de qualquer órgão de comunicação audio-visual, de qualquer estabelecimento de ensino, ou de qualquer profissão, proibiam-nas drasticamente. De 2069, datava lei ainda mais revolucionária sobre a Igualdade de Oportunidades para Competentes e Incompetentes, acabando com o escândalo da secular segregação dos últimos face aos primeiros, que, se era certo conhecer desde tempos imemoriais múltiplas excepções, antes da data histórica continuava, às vezes, a servir de valorização para uns e de desvalorização para outros. Também se lhe sucederam sanções jurídicas, sempre que alguém invocava a incompetência de um médico, de um professor, de um cineasta, de um electricista, de um pedreiro ou de um cozinheiro, para a profissão que livremente decidira abraçar. Em 2081, já nos prolegómenos da data célebre, o Parlamento mundial adoptara as leis que proíbam qualquer discriminação entre bonitos e feios. Dera-lhe origem o celebérrimo "affair Merna Parker". Foi o caso da referida senhora, actriz de profissão, que já havia beneficiado do subsídio de imbecilidade e do subsídio de incompetência, se ter candidatado ao papel de Cleópatra numa superprodução centesimal. Os responsáveis tinham-na preterido a favor de outra actriz, alegando que a sua manifesta anorexia, os seus proeminentes beiços leporinos, os seios que lhe pendiam até ao umbigo, o acne que lhe cobria o corpo e as tortíssimas pernas não a tornavam apta a reencarnar a mítica rainha do Egipto. O processo demorou quase dois anos e terminou com a vitória de Merna Parker.

20/10/2007

O Lírio





Ela convenceu-se que aquele lírio ocupava, em sua casa, o lugar das avencas na casa da mãe.

Em casa de D. Teresa as plantas dos vasos eram sempre belas e fartas. Mesmo as mais delicadas medravam num viço de espantar. Mas as avencas não! Ela abrigava-as; mudava-lhes a terra; plantava novos rebentos – mas qual quê! As coitadas iam mirrando e amarelecendo até que, por fim, morriam. Em toda a vida, nunca a D. Teresa conseguiria a vitória de um belo vaso de avenca a enfeitar-lhe um lugar da casa.

Com ela e com o lírio estava a acontecer o mesmo. Até gostava pouco de lírios, mas aquele era especial e nem sabia dizer porquê. Ao longo de mais de vinte anos viu-se a repetir os gestos da mãe: mudava o vaso e a terra; escolhia lugares novos. E nada! Nem uma flor a dar graça àquelas tiras compridas e verdes que são as folhas dos lírios. Em contrapartida, o vaso da avenca, embora apenas um, era o maior da sua casa e um regalo para a vista.

D. Teresa faleceu num dia de Primavera prestes a chegar. Nesse Verão, o lírio do vaso da filha floriu em abundâncias de espanto. Em todos os outros vasos nasceram-lhe raminhos frescos de avenca.

13/10/2007

Memórias ao lado de casa


As aranhas envolvem em casulo de seda a memória daqueles que partiram sem deixar quem deles quisesse lembrar-se. Será que um dia nascerão crisálidas?




10/10/2007

Trabalhos bons

Tudo partiu da interdisciplinaridade - palavra horrorosa para classificar algo que quem quis sempre fez e quem não quer continua a não fazer: colaboração entre as disciplinas dos alunos. A História propôs-se estudar personalidades marcantes da Humanidade. Poderia fazê-lo sozinha, mas desta vez assim não aconteceu. Porque em Educação Visual se estudaria a técnica do cartaz, aproveitou-se o tema escolhido pela História e porque em Ciências Naturais se estudariam os fósseis fez-se o estudo através dos ossos fossilizados dos australopitecus.




O Zé foi o autor do cartaz vencedor ...



...e também pintou esta belíssima savana



Tudo deveria ter começado e acabado no ano passado, mas o terramoto que o ME provocou nas escolas tal não permitiu. O material ficou em bruto, embora as ideias estivessem claras no pensamento de quem tudo concebeu. Teminadas as aulas e a avaliação dos alunos, houve que lançar mãos ao trabalho, Julho e Agosto dentro. Primeiro éramos duas pessoas sozinhas, mas quando nos viram atrapalhadas, mãos generosas e hábeis vieram oferecer-se: as da Belmira que nos ensinou a fazer as tintas e, ela própria, pintou a maior parte do enorme mapa de África, a partir de uma imagem de satélite.



Já em Setembro e sem dificuldade, o Conselho Directivo deixou-se convencer de que as imagens reunidas eram matéria-prima a preservar, por isso se mandaram fazer numa tipografia e alargou-se o leque a toda a hominização. Por enquanto só a Lucy e os australopitecus estão expostos, mas na próxima semana os restantes hominídeos far-lhe-ão companhia, de modo a que os alunos visualisem todo o percurso da Humanidade.





E são estes prazeres que, por
mais que insista, ministro nenhum consegue tirar-nos.

Aspecto geral da exposição

28/09/2007

Passar bem!

U outro dia seve Don fuan
a mi começou gran noj' a crescer
de muitas cousas que lhe oí dizer.
Diss' el: – Ir-me quero, ca já se deitar an –
E dix' eu: – Bõa ventura ajades,
Porque vos ides e me leixades.

E muit’ enfadado do seu parlar
Sev’ i gran peça, se mi valha Deus,
E tosquiavam estes olhos meus.
E quand’ ele disse: – Ir-me quer’ eu deitar
E dix' eu: – Bõa ventura ajades,
Porque vos ides e me leixades.

El seve muit’ e diss’ e parfiou,
E a mim creceu gran nojo poren.
E non soub’ el se x’ era mal, se bem.
E quand’ el disse já m’ eu deitar vou
E dix' eu: – Bõa ventura ajades,
Porque vos ides e me leixades.


D. Dinis (in: António José Saraiva, O Crepúsculo da Idade Média em Portugal )





Apetece dizer esta cantiga a tanta gente!
(Fotografia retirada daqui)

21/09/2007

Bem-haja

Há gestos que, de tão generosos, nos reconciliam com o lado bom da vida.

A generosidade está em oferecer, gratuitamente, tempo e trabalho àqueles que se desconhecem.

Hoje, a generosidade entrou em minha casa pela mão da Porca da Vila: leu os meus lamentos e ofereceu-me uma urzeira mais a meu gosto.

Bem-haja!


São para si estas pascoelas.


16/09/2007

Laranjas e traições

Foram os espanhóis que lhe deram o nome: guerra de las naranjas porque, ao entrar em Portugal pelo Alentejo, Godoy, o “Príncipe da paz” (haverá título mais descabido?), colheu um ramo de laranjeira que enviou à sua amante, nada menos do que a rainha Maria Luísa, esposa de Carlos IV de Espanha (Carlota Joaquina, a horrenda esposa de D. João VI tinha bem a quem sair!). Com este gesto, Godoy, primeiro ministro de Espanha e favorito do rei, pretendia simbolizar a conquista de Portugal com cuja coroa sonhava.

A Guerra das Laranjas (1801) foi o primeiro episódio da Guerra Peninsular que se estenderá até ao fim das invasões francesas, mas tudo tinha começado antes, por volta de 1795, quando a Europa absolutista, apadrinhada pela liberal Inglaterra, declara guerra à República jacobina que se instalara em França em 1792. Desengane-se quem quiser ver aqui uma guerra de ideologias, porque isto quase não passa de guerra de cobiça e de rapina. Não são assim todas as guerras?

A Inglaterra e a Espanha faziam parte da aliança para combater a França (a 1.ª das coligações com esse propósito, criada em 1793 e que, além das nações referidas, contava ainda com a Áustria, a Prússia, a Sardenha e a Holanda). Uma e outra, alegando alianças antigas, exigem que Portugal lhes forneça contingentes navais, homens, armas e dinheiro. Ambas, como pode ver-se, marimbavam-se para as nossas necessidades de defesa. O príncipe regente D. João governava o País havia pouco tempo e não soube, por isso e por estar tão mal rodeado de ministros e embaixadores, impor as necessidades do País às exigências dos aliados. Mesmo assim, as nossas embarcações seriam fundamentais para os sucessos de Nelson no Mediterrâneo e a campanha do Rossilhão teria sido ainda mais torpe se não fosse a acção das nossas tropas superiormente conduzidas por Gomes Freire de Andrade.

A verdade militar é que a França derrota a Espanha e, suprema ironia e maldade, a Espanha alia-se à França e, de seguida, as duas exigem que Portugal rompa com a Inglaterra, lhe declare guerra; aprisione navios e pessoas inglesas em terras portuguesas e lhes confisque os bens. Portugal não pode, obviamente, aceitar porque sabe que, no preciso instante em que se afaste dos ingleses, perderá os arquipélagos atlânticos e a Índia. Contra a França combate, agora, a 2.ª coligação (Áustria, Inglaterra, Rússia e Turquia – 1798). É neste contexto que se inscreve a Guerra das Laranjas. As praças alentejanas vão caindo sem que os defensores disparem um tiro, mas, apesar disso, os invasores vão pilhando e sobrecarregando os povos com impostos imorais. Contrariamente, no Norte, Gomes Freire, inconformado com tudo isto, avança pela Galiza onde as populações conquistadas se vão declarando Portuguesas.

Tudo começara a 20 de Maio; a 7 de Junho assinava-se, em Badajoz, a paz que não seria ratificada por Napoleão, ainda primeiro cônsul. Queria muito mais do que o muito que o embaixador português aceitara, de motu proprio, conceder. Novo tratado será assinado em Madrid (29 de Setembro de 1801): a França assegura o pagamento de uma indemnização de vinte e cinco milhões de libras tornesas (das quais, cinco milhões não seriam declarados, para proverem o lucro pessoal dos negociadores); alargamento enorme da Guiana francesa, além das medidas contra a Inglaterra que tinham motivado o início da guerra. A Espanha garante para si a posse das praças de Elvas, Campo Maior e Juromenha, bem como todo o território além do Guadiana onde se inclui, naturalmente, Olivença.



O Príncipe D. João tarda em aceitar semelhante acordo de paz, e novo tratado virá pela mão da sua aliada que assina separadamente, com a França, a paz de Amiens (os preliminares desse acordo datam de 1 de Outubro). Esse tratado parece prever a integridade do território nacional e possessões ultramarinas (artigo 6.º), mas um artigo secreto sanciona a extorsão territorial decidida em Madrid. Bem dizia Talleyrand que Portugal estava metido entre dois terrores e que o menor não era, certamente, o das esquadras britânicas!

Napoleão está imparável: já é imperador dos franceses e a grande parte da Europa tem-na, ou conquistada, ou vassala, ou aliada, que é outra maneira de dizer vassala. Nova aliança se organiza contra si (a terceira, de 1805, que conta com a Inglaterra, a Áustria e a Rússia); Portugal e Espanha negoceiam a neutralidade paga com a França. A Inglaterra, que fecha os olhos no que toca a Portugal, não aceita tal neutralidade à Espanha que se vê, de novo, envolvida na guerra (os seus navios estarão em Trafalgar). Chegamos a 1806 e Napoleão decreta o “Bloqueio Continental”, pedindo à Espanha que o ajude a obrigar Portugal a fechar os seus portos aos ingleses. D. João vai protelando, escrevendo para Inglaterra, propondo alternativas a França, etc. Em 1807 Napoleão está farto de tanta conversa e, em 12 de Agosto, dá um prazo até 1 de Setembro para que Portugal declare guerra à Inglaterra e junte os seus navios à esquadra francesa, notícia que será corroborada pelo embaixador espanhol em Portugal.

Creio que Napoleão sabe que Portugal não tem alternativas, mas percebe que pode enganar Godoy, assinando, com ele, o Tratado de Fontainebleau (27 de Outubro de 1807). Tal tratado prevê a partilha de Portugal: Entre-Douro e Minho tornar-se-iam no Reino da Lusitânia Setentrional governado pelo rei da Etrúria (da família dos reis de Espanha e recentemente desapossado do seu trono por Napoleão); o Alentejo e o Algarve formariam o Principado dos Algarves e seria entregue ao próprio Godoy, e tudo o resto ficaria para a França que decidiria o que fazer depois da paz.


Este tratado era um engodo porque, dez dias antes, Napoleão ordenara que Junot entrasse em Espanha onde se reuniria com as tropas espanholas para conquistar Portugal mas, uma vez em Salamanca, o general recebe ordens para não esperar pelos espanhóis e entrar sozinho no nosso País. Fê-lo a 19 de Novembro de 1807. Portugal definhava!

Passaram-se duzentos anos e há portugueses que acreditam que Espanha esqueceu o seu sonho hegemónico. Diriam o mesmo os portugueses de 1383? Os de 1580? Os de 1801?

Por mim, creio que a Espanha, jamais esquecerá que a liberdade portuguesa lhe desfeia o mapa!

08/09/2007

D. Afonso Henriques

Alexandre Herculano chamou-lhes Crónicas Breves de Santa Cruz de Coimbra. Inscrevem-se no registo histórico dos cronicões ou da história analística, mas estes diferem um pouco, porque entram na narrativa, aproximando-se da crónica. Duas são dedicadas a D. Afonso Henriques, a terceira e a quarta, mostrando bem essa espécie do culto que os monges de Santa Cruz criaram em torno da figura do nosso fundador. Aqui transcrevem-se excertos da terceira dessas crónicas breves.

D. SOLEIMA

[O papa, sabendo que D. Afonso Henriques se recusava a soltar a mãe, mandou excomungar a terra pelo bispo de Coimbra. Este lançou a excomunhão e fugiu de madrugada.] E el-rei foi-se logo à sé e chamou todos os cónigos na crasta e disse-lhes que dessem de antre si um bispo. E eles disserom que o nom fariam, que tinham bispo. E el-rei lhes disse que aquele que eles diziam (que) nunca jamais em todos seus dias seria bispo. E ele, vendo que nom queriam fazer o que lhes ele mandava, degredou-os todos de sua terra.
E em saindo el-rei da crasta, viu vir um crérigo que era mui negro de sua color e disse-lhe como havia nome. E o crérigo lhe respondeu que havia nome Martinho. El-rei, porque o viu assi negro, perguntou-lhe por nome de seu padre, e ele lhe disse que havia nome Çoleima. E el-rei lhe perguntou se era bom crérigo ou se sabia bem o ofício da igreja.
E ele lhe disse:
__ Senhor, nom há na Espanha dous que o milhor saibam do que eu.
E el-rei lhe disse entom:
__ Tu serás bispo dom Soleima, e guisa-te logo como me digas missa.
Respondeu o crérigo:
__ Nom sou ainda ordenado de missa como bispo que vo-la possa dizer.
E el-rei disse:
__ Eu te ordeno como me digas missa, senom cortar-teei a cabeça com esta espada.
E o crérigo, com medo, vestiu-se com as vestiduras e fez-lhe o ofício. E este feito foi sabudo em Roma e cuidarom que era hereje. E o Papa mandou a ele um cardeal que lhe mostrasse a fé.

O EMISSÁRIO DO PAPA

O cardeal partiu-se de Roma e veio em Espanha e os reis per onde ele vinha honravam-no muito. E foi dito a el-re Dom Afonso:
__ Senhor, eis aqui vem um cardeal que vem a vós de Roma porque sodes miscrado com o Papa por este bispo que fezeste.
E el-rei disse:
__ Ainda me nom arrependo.
E disserom-lhe:
__ Sabede, senhor, que todos os reis, per u ele vem, provam de lhe beijar a mão.
E el-rei disse:
__ Certo nom será tão honrado cardeal em Roma que a Coimbra viesse que me tendesse a mão pera lha beijar que lha nom cortasse, e desto se nom poderia ele falecer.
[O cardeal soube disto e ficou com medo. O rei recebeu-o na alcáçova e entabulou-se o seguinte diálogo]
__ Cardeal, que viestes aqui fazer de Roma, que de Roma nunca me veio senom mal? E qual riqueza me trazedes de Roma pera estas idas que faço amiúde contra os Mouros? Dom cardeal, se me trazedes, que me dedes; senom ide-vos vossa via.
E o cardeal disse:
__ Senhor, eu sou vindo aqui pera vos mostrar a fé de Jesus Cristo.
E el-rei disse:
__ Certo, cardeal, tão bons livros havemos nós aqui como vós em Roma e tão bem sabemos como o Filho de Deus descendeu do céu (…)
[ D. Afonso Henriques continuou a desbobinar as verdades da fé, mostrando que sabia bem o credo de Niceia]
E depois que lhe disse todas estas cousas, mandou-lhe dar pousada e tudo o que lhe era mester.
E o cardeal, logo que foi na pousada, mandou poer cevada e mandou por todos os crérigos da vila e, ao cantar dos galos, excomungou toda a vila, e foi-se de guisa que, quando foi luz, tinha ele já andado duas léguas. (…)
[D. Afonso, mal deu pelo sucedido, montou em seu cavalo e foi no encalço do cardeal. Foi encontrá-lo na Vimieira e quis logo cortar-lhe a cabeça, mas quatro nobres que o acompanhavam, dissuadiram-no:]
__ Senhor, por Deus e por mercê, nom matedes o cardeal, ca dirão em Roma que sodes hereje.
E el-rei disse:
__ Certas, vós lhe dades a cabeça.
E o cardeal quando se viu em tal medo, disse a el-rei:
__ Senhor, nom me matedes, ca eu farei qual preito vós quiserdes.
E el-rei lhe disse:
__ Pois quero que Portugal nom seja excomungado (…). E dês i quero que me mandedes de Roma uma carta que nunca Portugal nem eu sejamos excomungados em todos meus dias, ca eu o ganhei com esta minha espada. E para esto quero que me leixedes aqui este vosso sobrinho em penhor atá que me mandedes a carta. E se atá quatro meses me nom mandades a carta, eu cortarei a cabeça a vosso sobrinho.
E o cardeal outorgou tudo o que el-rei quis e dês i foi-se sua vida. E ante que os quatro meses fossem cumpridos, lhe veio a carta: dês ali em diante fez el-rei em toda sua terra arcebispos e bispos e beneficiados quais ele quis.
E depois que el-rei e o cardeal houverom todo o seu preito firmado, e ao tempo que lhe havia de mandar a carta, como já ouvistes, desvistiu-se el-rei de todas suas vestiduras e disse:
__ Quero-vos mostrar, dom cardeal, como eu sou hereje.
E entom lhe mostrou todas as feridas que houvera em seu corpo, dizendo e assinando quantas e quais feridas houvera em as batalhas, e quais em as combater e quais em as entradas das vilas que tomara aos Mouros.


Citado a partir de: Maria Ema Tarracha Ferreira, Prosa e Poesia Medievais
(cortes e texto intercalado meus)

25/04/2007

Cravos roubados



Roubei esta imagem daqui. Ninguém me há-de levar a mal por roubar cravos em Abril!

Salgueiro Maia


(Hoje não poderia permanecer em silêncio!)


As palavras de quem deu substância ao sonho

A marcha para o Carmo foi extraordinária pelo apoio popular que agregou, o que contribuiu bastante para que o Carmo perdesse a vontade de resistir. Nunca tinha visto o povo a manifestar-se assim. No Carmo, ao chegar, houve desde senhoras a abrir portas e janelas para colocar os homens nas posições dominantes sobre o Quartel, até ao simples espectador que enrouquecia a cantar o Hino Nacional. O ambiente que lá se viveu não tem descrição, pois foi de tal maneira belo que depois dele nada mais digno pode acontecer na vida de uma pessoa.

Foi o povo sem nome que incitou e guiou a última companhia de Infantaria 1 que estava com o brigadeiro a passar-se para o nosso lado, que me informou constantemente dos movimentos da Polícia de Choque, da PSP, da GNR, etc.

Salgueiro Maia, Capitão de Abril (Histórias da Guerra do Ultramar e do 25 de Abril), Editorial Notícias


Salgueiro Maia, Aspirante na Escola Prática de Cavalaria

Salgueiro Maia, Alferes em Moçambique


A guerra toldou-lhe o semblante e maculou-lhe o olhar. Maldita seja a guerra!

25/03/2007

Trabalhos e trabalheiras

Digam lá que, visto desta perspectiva, não parece mesmo o Parténon?


Mas não! É o trabalho do David Borges do 7.ºB. Dele e da família, tal como alguns dos outros aqui publicados. Refiro a família porque me parece muito bonito que ela se reuna em torno de um projecto escolar dos filhos. Eles sentem-se acarinhados e a sua vida escolar ganha com isso, bem como toda a Escola e a comunidade.

Em baixo estão mais duas imagens do mesmo trabalho. Repare-se na atenção com que foram trabalhadas as colunas (fuste e capitel correctíssimos da ordem dórica); a arquitrave, o friso (muito bem dividido em tríglifos e métopas); o frontão (onde não faltam os relevos e o fundo de cor garrida) e o telhado de duas águas.

Este trabalho é, sem dúvida, o vencedor a bsoluto!




Também em 3D, merece destaque especial o trabalho do André Ribeiro do 7.ºB!

Dos trabalhos em papel, realço este, da Yara Castro do 7.º C. A Yara, tal como o André, compreendeu muito bem a importância que a cor tinha na arquitectura da Grécia Antiga. Também ela se encantou pelo Parténon e desenhou-o numa perspectiva que lhe destaca a imponência, apesar de não ser um templo de grandes dimensões!


A Rita Geraldes, do 7.ºB, merece o prémio da representação mais original: massinhas e arroz combinaram-se, nas suas mãos, para esta representação originalíssima do Parténon! Que bonito!


Os dois trabalhos que se seguem motivaram a inclusão deste artigo neste espaço: não sei se é por serem feitos a lápis, mas a verdade é que não consegui amazená-los nas fotos do Sapo. Como não quis deixar de os mostrar publicamente, tive que recorrer a este estratagema!




Este é, de novo, o Parténon, assim imaginado pelo Gelson Pimenta, do 7.º E, que nem sequer se esqueceu dos acrotérios! Os acrotérios são aquelas esculturas colocadas nos ângulos do frontão. Muito bem, Gelson!


Este trabalho é de alguém do 7.ºF (tenho quase a certeza!) que se esqueceu de assinar. Seja lá quem for o responsável, faça o favor de se identificar para que tenha o devido aplauso (é mais fácil fazê-lo no História7 do sapo). Merece aplauso porque:

foi o único que representou um templo de ordem jónica que, como vemos, é muito mais elaborada do que a dórica;

aqui não se vê bem, mas as caneluras do fuste estão lindíssimas e perfeitas, tal como a base da coluna, de que se não esqueceu, nem das bandas sobrepostas da arquitrave, etc.

Parabéns a todos e ... BOAS FÉRIAS!

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Nota: não pude incluir trabalhos do 7.º D porque estão a ser feitos em colaboração com a disciplina de EV.