11/09/2006
Dedicatória
10/09/2006
Mais Carlinhos
O gesto de semear manualmente o cereal é um gesto único: o saco cai dependurado do ombro esquerdo; a mão direita entra no saco e sai, não muito cheia . Os três primeiros dedos seguram a semente enquanto o polegar e o indicadir se harmonizam de modo a deixar cair o número certo de grãos. Esses gestos são repetidos vezes sem conta, à medida que o camponês percorre cada centímetro da terra que lhe irá dar o sustento do ano.
Certo dia, o Carlinhos da Sé andava pela praça como se estivesse a semear, mas não tinha saco nem tinha nada. Umas pessoas que passavam perguntaram-lhe:
- Tu que fazes, Carlinhos?
- Estou a botar milho ós pombos! E continuou com o seu gesto de tirar milho do nada.
- Mas aqui não há pombos, Carlinhos!
- Tamém pró milho qu'ou les boto! Rematou, cerce e lógico, o Carlinhos
Boa semana para todos!
09/09/2006
Jornais
Associo as minhas primeiras leituras de jornal ao acto de lavar a loiça, vejam bem! Eu, infanta minúscula, implorava à minha mãe que ma deixasse lavar. Que não, eu era muito pequena e deixava-a mal lavada eram os argumentos habituais. Mas, de quando em vez, perdia o amor por malgas e pratos e lá me dizia que sim. Para que a parede não ficasse salpicada, forrava-se de jornal o bocado em que se encostava a selha. Não sei se foi o aspecto gráfico ou se foi a beleza das letras semeadas em código que despertou a minha atenção, o que sei é que, em vez de poupar tempo à minha mãe, constantemente a chamava para que me lesse as que tinham a cor vermelha, ou as que vinham destacadas de algum modo (aprendi depois que se chamava itálico). Aos poucos, fui querendo identificar as letras que ouvia repetidas nas lições de meus irmãos até que, certo dia, perguntei a minha mãe se aquelas letras escritas ali, no lugar que o meu dedo apontava, se liam assim. Que sim! Depois desse dia, os livros da escola passaram a abrir-se para que eu também aprendesse, com minha mãe por mestra. Desde então, associo o acto de ler a esses momentos de ternura que eram as horas debruçada sobre a mesa com o cabelo de minha mãe a acariciar-me o rosto enquanto o seu abraço me conduzia a mão e o olhar e a sua voz me corrigia a leitura.
Vem isto a propósito de jornais. Fechou O Independente que de independente só tinha o nome, vai ser lançado o Sol, título que não parece de jornal e o Expresso foi remodelado. Para que se compreenda o primeiro parágrafo, eu não leio o Expresso desde o seu início, porque em 1973 começava eu a entrar na adolescência, embora haja gente mais nova do que eu que jura a pés juntos que o leu desde o primeiro número. Comigo não foi assim porque era adolescente normal e os adolescentes normais lêem outras coisas. Tornei-me sua leitora assídua desde os meus 16 anos e só parei com isso vai para quatro anos. O motivo foi a remodelação. É que o Expresso tinha uma revista extraordinária recheada de artigos bem escritos que apetecia ir lendo ao longo da semana. A Revista foi transformada na Única , não passando esta de recolha de "faits divers", daqueles que se encontram em qualquer revista tonta (digo eu que as não leio). O meu amor pelo Expresso acabou aí e, com ele, as rotinas dos sábados de manhã. Hoje, propagandeada nova remodelação, voltei a comprar o jornal, agora em formato "Berliner". O caderno principal vem reduzido a 32 páginas das quais, três são páginas inteiras de publicidade. Das restantes, 14 têm metade do espaço ocupado com publicidade. Esta só não está presente nas páginas de opinião (págs. 28 e 29) e nas duas centrais. Tudo somado: as catorze metades são sete páginas, mais as três integrais dá a bela soma de 10 páginas de publicidade compradas sem querer (falta somar todos anúncios que não contabilizei)! Quanto à Revista? Mantém-se integralmente Única, por isso, cheia de pena, continuo sem motivos para voltar a comprar o Expresso. Vou tentar o Sol, talvez me faça esquecer o nome!
05/09/2006
Vamos por partes (II)
Garotos de 12 anos precisam de brincar. Em que tempo o poderão fazer? O horário escolar tolhe a infância. São sete horas por dia encafuados em buracos sombrios ( a maior parte das salas de aula não passa disso mesmo) onde o ar se não renova porque as persianas da janelas têm de estar corridas para que o sol não frite as cabeças e a luz exterior não impeça a utilização do quadro preto (quem desenhou estas escolas devia ser obrigado a aprender nelas)! Onde é que estas crianças gastam as energias e soltam raivas e frustrações, se até perderam o direito aos intervalos entre aulas? A escola está a transformar-se numa fábrica de infelizes e inadaptados.
Nas trinta e cinco horas semanais aprende-se, de facto, o que é importante? Duvido de novo. As 35 horas semanais são divididas entre:
L. Portuguesa
L. Estrangeira I
L. Estrangeira II
Matemática
História
Geografia
C. Naturais
F. Químicas
E. Visual
E. Tecnológica (ou outra)
E. Física
E. Acompanhado
A. Projecto
F. Cívica
ou seja, 35 horas a dividir por muitas disciplinas dá quase nada a cada uma. Esclarecendo melhor: os professores de Inglês, Francês, História, Geografia, C. Naturais e F. Químicas têm, conforme os anos, entre 90 e 135 minutos semanais para ensinarem tudo o que é preciso. Hora e meia ou duas horas e um quarto! Parafraseando Matilde Rosa Araújo, é "uma mão cheia de nada e outra de coisa nenhuma". Tudo se agrava se atendermos à organização dos tempos lectivos em blocos de 90 minutos, o que significa que a miudagem, boa parte das disciplinas, tem-nas uma vez por semana. De que se lembra cada um quando chega à aula na semana seguinte? E se faltou? Não há aprendizagem efectiva quando o assunto só volta a ser tratado muito tempo depois, se se não relembra e se não treina.
Há ideias que nascem de geração espontânea, pegam de estaca e medram mais do que erva regada. É aqui que se incluem as áres curriculares não disciplinares que só existem pelo gosto, óbvio, que quem as criou tem pela perífrase. Tais áreas integram a Área de Projecto; o Estudo Acompanhado e a Formação Cívica. Para que existem e para que servem? Para nada, a não ser maçar os garotos, roubar-lhes horas preciosas do seu dia e tempo às disciplinas, ou seja, ao saber. Eis o único motivo pelo qual os professores foram mandados avaliar "competências" em vez de saberes. Foram transformados em amestradores.
A tudo isto some-se a dispersão a que os professores são obrigados: têm que, na sua disciplina, agarrar no programa nacional e fazer dele adaptações sucessivas: umas são "adaptações a" e outras são "adaptações segundo". As "adaptações a" são as que se fazem ao meio escolar; a cada uma das turmas que lecciona (que podem chegar a 11!) e, dentro destas, ao desenvolvimento e interesses de cada um dos alunos. As "adaptações segundo" são as que são feitas para respeitar e integrar os seguintes projectos: "projecto educativo de escola"; "projecto curricular de escola"; projecto curricular de turma (um por cada turma que lecciona) e projecto da "Área de Projecto". Alguém que conte o disparate que é o número de projectos existentes numa escola!
É de doidos! A senhora ministra quer fazer o favor de me explicar como é que tem cara de assacar aos professores a responsabilidade pelos maus resultados dos exames nacionais? Exames nacionais?! A lógica, a continuar a do parágrafo anterior, exige um exame por aluno!
Alguém ainda se lembra do seu horário escolar? Eu conservo os meus porque não fui ensinada a odiar a escola.
Eram tão longas as tardes! Tão cheias de liberdade!
02/09/2006
Carlinhos da Sé
O Carlinhos era um doido a quem se queria bem e devia ter voz fanhosa porque é com voz nasalada que todos falam quando contam histórias das dele. Na graça e na mansidão opunha-se ao outro maluco, seu contemporâneo: o Laribau.
Pois bem, ao tempo em que havia prostíbulos com outro nome, as prostitutas eram obrigadas a fazer regularmeente um exame sanitário. Àquelas que se não apresentassem à inspecção médica a polícia ia buscá-las para as obrigar.
A rua da Caleja era onde residia a avó do Carlinhos e, também, lugar de muitas prostitutas. Certo dia, enquanto brincava com o aro, o Carlinhos ouviu dizer a uns polícias que iam buscar as raparigas da Caleja e não esteve com meias medidas: desatou a correr rua abaixo, rodando o seu aro enquanto gritava:
Fuja, minha avó! Fuja, que vêm a prender as putas todas da Caleja!
*
Outra vez, estava ele cantando o fado:
É numa rua bizarra
A casa da Mariquinhas...
Duas raparigas que passavam quiseram meter-se com ele:
- Ó Carlinhos, diz lá qual de nós é a mais bonita?
- Oh!Oh!Oh! Num cheguêis!
- Anda, diz lá que te damos cinco c'roas!
- Vvvvvotai cá!
As raparigas deram-lhe o dinheiro que ele guardou cuidadosamente no bolso. Mas continuou a cantar, em vez de lhes responder:
É numa rua bizarra...
- Então, Carlinhos, demos-te o dinheiro e não respondes?
O Carlinhos, mirando as duas de alto abaixo, remata:
- Ora, o qu'é que qu'rêis, coisa ruim num tem escolha!
*
Só mais uma, para terminar:
Certa noite, o Carlinhos ia a passar pela igreja da Misericórdia onde estavam a velar um morto. Ouviu dizer:
- Coitadinho, ficou-se como um passarinho!
O Carlinhos prosseguiu o passeio até que chegou à Sé, ali perto. Alguém perguntava sobre o morto:
- Ele de que morreria?
- Com algua fisgada nos cornos, foi a resposta pronta do Carlinhos!
****
Por ser fim-de-semana faço descanso das coisas sérias.
01/09/2006
Vamos por partes (I)
Um direito que, para mim, ganharia muito em ser entendido como dever é a educação.
O direito do indivíduo à educação assenta no dever de a comunidade se organizar e disponibilizar os meios necessários, que são onerosos, para a sua concretização. Ora, não me parece equilibrado nem justo que uns tenham os direitos e os outros os deveres. Por indivíduo entendo aqui cada um dos estudantes e cada uma das unidades familiares respectivas.
Por que conjunto de razões deve, então, a educação considerar-se um dever? Antes de mais, porque é ela que garante que o indivíduo tenha uma vida. Alguém quer prescindir de viver a sua? Então prepare-se para ela.
É a educação que permite que o indivíduo conquiste o seu lugar: se não trabalhou para o alcançar, de que se queixa no fim? O país ganharia muito se, em vez de se apiedar dos coitadinhos que não tiveram oportunidades, lhes perguntasse e às famílias: quanto trabalhastes? Um indivíduo instruído sabe mover-se, entender o mundo, interpelá-lo e interagir com ele; sabe colaborar com a comunidade e ousa transformá-la. Dito de outro modo: cria-se e cria; não se lamenta, constrói a sua vida.
Um indivíduo sem educação nem sequer é um espaço vago porque nas sociedades o vazio não existe. É, pois, da responsabilidade de cada um, encontrar o seu lugar e preenchê-lo.
Não se pode pedir a uma criança que tenha consciência da importância da educação e a noção de que escola é trabalho. Mas compete à família a assunção dessa responsabilidade em nome da criança e do futuro que irá construir. À comunidade, representada pela escola, compete fornecer os instrumentos do saber e o próprio saber, única forma de se não transformar em fraude.
Valores e atitudes como o respeito, a obediência e a honestidade têm que vir de casa, têm que ser praticados em casa, impostos se necessário. É intolerável, para mim, ver a facilidade com que as crianças faltam à escola, com autorização dos pais. Mais intolerável, ainda, é a Lei dar total cobertura a essas faltas.
Enquanto se brinca aprende-se muito, mas a educação não pode ser vista como uma brincadeira de que se desiste quando deixa de apetecer. Estudar pode ser divertido? Pode, mas não tem que ser! Enquanto andarmos a culpar os professores acusando-os de que não sabem estimular os alunos estamos a contribuir para a desresponsabilização das crianças e jovens e das suas famílias. A educação tem que ser entendida como um remédio: às vezes adoça-se, mas tem que ser tomado, às horas certas e durante o tempo recomendado! Alguém culpa o médico pelo mau sabor do medicamento? Então porque é que se aceita como pertinente que um estudante se desculpe dos maus resultados dizendo que o professor não estimula?
Nunca se fala em estímulo que me não lembre dos cães de Pavlov. À nascença, as crianças não o são, mas rapidamente aprendem a ser. Aprendem que a preguiça compensa porque não é castigada; aprendem que a mentira compensa porque a sua voz é ouvida em igualdade com a dos pais e a dos mestres; aprendem que a desonestidade compensa porque vêem o logro ser elogiado.
Ora, tudo, nas famílias e no sistema de ensino está organizado de molde a desincentivar o trabalho. Para que há-de a criança esforçar-se se, no fim do ano, tem tratamento igual às trouxas que se esforçam e levam a vida a sério? Quando tal deixa de acontecer é já demasiado tarde. Não é aos 14 anos que vai alguém aprender a ler e a escrever porque, nessa idade, exige-se que interpretem, que comentem, que justifiquem e proponham alternativas!
*
Vêm estas reflexões a propósito do artigo que a senhora ministra da Educação escreveu, hoje, no DN. Nele, repete integralmente o discurso que já lhe conhecemos, antecipando novo ano de conflitos, tragicamente insistindo em não querer ver qual a dimensão e a origem do descalabro da educação pública em Portugal.
Conheço muitos professores que são relapsos, alguns, até, não deveriam exercer a profissão, uns porque são incapazes de amar e de conviver com outras gerações; outros porque pouco mais são do que analfabetos diplomados. Como chegaram à docência, estes, que já são fruto das modernas pedagogias de que a culpa é sempre do professor? A senhora ministra faça o favor de responder.
31/08/2006
Devoção popular
Deixo aqui alguns excertos de orações recolhidas em:
Firmino A. Martins (P.e) , Folklore do Concelho de Vinhais, ed. Câmara Municipal, Vinhais, 1997
A edição citada é fac-similada da original de 1927 e a transcrição é textual
Ó altíssimo Senhor,
estais pregado nesse madeiro;
aqui tendes a minh'alma,
ponde-a de travesseiro
(...)
*
No alto daquela serra
está Nosso Senhor deitado,
sem lençol nem cabeceira.
Cheira a rosas e a cravos
e à flor d'amendoeira;
já omilho está em cana
e o trigo em flor;
já os passarinhos cantam
à ressurreição do Senhor. Amén
*
(Eis como se conta a história de Lázaro)
S. Lázaro se fezo pobre
p'ra um bom senhor servir,
à porta de rico home
esmola foi a pedir.
Rico home estava jantando
non no quisera ouvir.
Levanta-te, Manuel Gonçalves,
por ser o moço bem mandado
vai lh'abrir àqueles libréus
daquela boca mais cruel;
libréus que lá chegueram
de rodilhas se puzeram
lamberam as suas chagas;
por Deus e Santa Maria
morreram ambos num dia.
Da boca de São Lázaro
sai uma fonte menar,
da boca do rico home
sai um fogo infernal.
- Deixa meter o pol'gar
na tua fonte menar!
Se ó outro mundo tornar,
órfãs e viúvas mando casar,
igrejas e altares mando pintar.
- Vai-te daí, home rico,
no outro mundo já estiveste,
não me fizeste bem neum
se não mal quanto pudeste.
29/08/2006
Carvalhos
Digo eu, que nada percebo de botânica, que o carvalho é inimigo da silva, por isso os passeios pelas matas de carvalhos não requerem nem o cuidado nem a atenção que exigiriam se, nelas, existissem silvas. Os passeios fazem-se, pois, pisando húmus: ramos apodrecidos, folhas e o que resta das flores das giestas que crescem de permeio. É inenarrável o perfume desse húmos, acrescentado daquele que é exalado pelos líquenes que cobrem por inteiro os troncos e os ramos de todas as árvores, assim como é inexprimível o sentimento de paz e de conforto que se apodera de quem, internando-se na mata, nela se acolhe como a ventre de mãe.

O fruto do carvalho é a bolota que, a par da castanha, sempre foi apanhada para cevar o porco doméstico que, deste modo, partilha da abundância que a natureza concede ao seu irmão montês. Este não se deve importar muito porque, livre, circula e alimenta-se também dos frutos que o homem plantou. Na altura certa tocar-lhe-á a ele a vez de ser alimento. E assim se completa o eterno retorno que é vida.
24/08/2006
Amigos
Foi assim que me chegou, entre outras, esta imagem da túnica de S. Francisco de Assis.De S. Francisco todos conhecemos a opção pelo despojamento total dos bens terrenos atestada, aqui, pela sua túnica remendada e disforme. Importa realçar que, no seu tempo, o traje, além de indiciar pertença social, era usado como símbolo de estados de espírito, de dedicação a uma pessoa ou a uma causa, etc. É extraordinária a simbologia que tem a indumentária durante a Idade Média. Desde o século XI que a moda tem vindo a revestir-se de exageros, ora alongando e afilando de tal modo o bico dos sapatos que tem que ser preso ao tornozelo, ora exagerando as mangas, ora variando o corte e adicionando chapéus de todas maneiras e feitios. Esta moda era criticada pelos conservadores, mas foi ela que venceu e se instalou até ao século XV. A Europa enchia-se de peraltas enjanotados nas suas vestes coloridas de tecidos ricos e raros que os mercadores traziam pela longuíssima rota da seda. Ao abdicar de tudo isto, ao tornar-se no oposto de tudo isto, S. Francisco e os frades menores intoduziram um profundo contraste nas cidades por onde circulavam, lembrando, nas suas pessoas, a pureza do Evangelho.
Nos magníficos séculos XII-XIII (tempo de S. Francisco) ,as cidades cresciam em dimensão e beleza, rivalizando umas com as outras pela altura dos pináculos das catedrais que eram capazes de edificar. O mundo urbano começava a ganhar a importância que hoje tem para nós. S. Francisco (e também S. Domingos), atento a esse fenómeno, inicia o processo de desruralização das ordens religiosas, chamando os frades à cidade que é, agora, o espaço onde se concentra o povo de Deus. Fiel aos seus princípios, rejeita a construção de uma sede, pois o céu é o melhor dos tectos, porque ofertado pelo Senhor.
Em tempo de cruzadas, o Povorello defendeu que a verdadeira cruzada é a da palavra e, à guerra, preferiu a missionação, tornando-se no precursor do ecumenismo. Alguém o escute, de novo, hoje! S. Francisco escreveu pouco. Sempre, no entanto, com beleza e sensibilidade raras. O nosso tempo, no que à guerra e à injustiça diz respeito, superlativizou o tempo de S. Francisco. As suas palavras fazem, hoje, ainda mais sentido!
Oração:
Senhor
Fazei de mim um instrumento da Vossa Paz:
Onde houver ódio, que eu leve o Amor;
Onde houver ofensa, que eu leve o Perdão;
onde houver discórdia, que eu leve a União;
Onde houver dúvida, que eu leve a Fé;
Onde houver erro, que eu leve a Verdade;
Onde houver desespero, que eu leve a Esperança;
Onde houver tristeza, que eu leve a Alegria;
Onde houver trevas, que eu leve a Luz.
Senhor
Fazei que eu procure mais:
consolar que ser consolado,
compreender que ser compreendido,
amar que ser amado.
Pois é
dando que se recebe,
é perdoando que se é perdoado
e é morrendo que se ressuscita para a Vida Eterna
22/08/2006
Günter Grass
São caras de cu à paisana. À paisana por fora porque, por dentro, vestem a farda da perfeição que os impede de errar. Os seres perfeitos não mudam de ideias nem hesitam e é por isso que não sabem o que é o conflito de cada um consigo próprio. Arvoram-se em juízes do mundo e acirram-se mais quando constatam que aqueles a quem estenderam tapetes de flores, afinal, não integravam as hostes dos senhores da perfeição.
Somos tão tontos quando temos 17 anos! Como era ter 17 anos em 1945, ser de nacionalidade alemã e ser convocado para a guerra? Que pensa da guerra um garoto de 17 anos amante da sua pátria? Não sei responder a estas perguntas, mas anseio pela tradução portuguesa do Descascar a Cebola porque me há-de esclarecer. Sem resposta ficam as minhas perguntas àqueles que, tendo ultrapassado em muito os anos da adolescência, teimam em encontrar explicações para os crimes do Pol Pot as revoluções culturais maoistas, etc. ou, do outro lado, as ditaduras sangrentas dos Pinochets deste mundo. Mas eles são perfeitos! Cá por mim prefiro alinhar com aqueles que, sentindo vergonha, vestem-se de coragem e têm a suprema honradez de o confessarem.
O Tambor continuará a honrar a minha estante.
21/08/2006
O devir das estações
E sempre que o céu o permite, a Serra mostra o seu perfil erecto de menina!
É este o Sol que embeleza as minhas noites e me faz ansiar pelo dia que virá; é esta a Serra, meridiano das estações do meu ano.
20/08/2006
Brincadeiras e brinquedos
A canalha, à solta, de qualquer coisa faz brinquedo. O carvalho, na sua abundância, é pai de muitos deles.À esquerda temos os bulharacos, estes ainda frescos, mas que irão secar. Antes de secos apresentam-se coloridos de vários matizes de vermelho e há-os, também, verdes. Na fase de crescimento têm uma cola que não pega, semelhante à do 'post-it' e que é agradável ao tacto.
Tocar-lhes; tentar encaixar os cornichos de um nos de outro; abri-los, conhecer-lhes o interior esponjoso, encontrar o sítio em que o insecto está anichado é uma brincadeira de descoberta dos sentidos, da atenção e das mudanças da vida.
E as boixas (2.ª fot.)? Não dão magníficas contas de colar? Sendo leves para berlindes, têm o tamanho exacto para serem manejadas por mãos infantis. É bom rodá-las por entre os dedos, senti-las e sentir cada nervo da mão. Pôr uma boixa no meio de cada um dos dedos, faz mãos ágeis de pianista. Podeis-vos fintar em mim! (E não me lembro de nenhum imporém engasgado com uma boixa!)Na Primavera nascem as maçacucas, tão leves que podemos soprá-las ao vento. Não estão aqui, porque estas são fotografias de Verão. As
maçacucas, levemente humedecidas pelos dentes são excelentes borrachas para as pedras de lousa em que aprendíamos a escrever e a fazer as primeiras contas. Procurarei fotografá-las na Primavera, que é o tempo delas.

Mas a rainha das brincadeiras é a dança-palhinhas (fot. 3 e 4). Nasce na folha do carvalho, é redonda e pequenina, embora apresente colorações variadas.
Colocada e soprada por uma palha centeia que se abriu em três (ou em quatro, como é o caso presente) dá horas seguidas de brincadeira ao desafio:
quem é capaz de a fazer subir mais alto? quem é capaz de a fazer rolar por mais tempo?E a capacidade pulmonar a desenvolver-se!
Brincávamos sem brinquedos como se afirma peremptoriamente por aí? Não! Brinquedos tínhamos e muitos! Nenhum, porém, comprado. Todos se podiam estragar e ninguém choraria o dinheiro gasto; nenhum ultrapassava o tempo de validade da criança encafuado na caixa em que foi comprado para se não estragar.
Os brinquedos renovavam-se em cada estação, ano após ano. E se o Inverno fornecia poucos materiais, lá estavam os jogos das beladas a entreterem todo o mundo. Nunca o tempo era comprido e nenhuma criança se entediava. Eram tão felizes, os meninos!
Nota: utilizei expressões que, provavelmente, só os transmontanos conhecerão. Na barra lateral está o link para o "Brègancês", um dicionário que tenho vindo a organizar de vocábulos da região de Bragança.
18/08/2006
Luar de Agosto
"Luar de Agosto dá-lhe no rosto".As palavras são poesia pura e, também, portadoras da verdade do trabalho de Verão: prolonga-se noite dentro.
No mundo rural o trabalho é intenso e, até há poucos anos, pago à jorna ou justado por inteiro a camaradas de segadores vindos da terra quente transmontana. Era, pois, necessário que o dia se prolongasse para além do sol posto e a Lua, que não torrava os corpos, servia de luzeiro certo naquele céu sem fim.

As espigas nascidas nas bordas das terras são aí deixadas, em forma de agradecimento, digo eu, ou em pagamento de primícias ou, talvez, para alimentar as aves, também elas criaturas de Deus, e sou eu que continuo a dizer.
Enquanto segavam, os segadores cantavam, que era a forma de se animarem mutuamente e de marcarem o ritmo do trabalho. Cantar enquanto se está dobrado exige muito esforço e, por isso, os que não cantavam eram brindados desta forma no arremata da cantiga:
A cantiga está cantada,
bem haja quem a cantou
fui ou e o mou camarada
foi ele quem me ajudou!
E o compadre Epamilongas
tem ua burra amarela
quem não ajudou à cantiga
há-de lebar o que a burra leba (lubar)
(Ai leba leba, o que a burra leba em Maio!)
Já nada disto se canta, a não ser na saudade dos mais velhos!
Este ano o luar de Agosto pôs-se assim, tão belo, que me fez subir à serra para melhor o ver. E até perdoei ao, ainda grande, quarto minguante, que tornasse menos espampanante a chuva de estrelas que por essas noites caiu.
Revisionismo
Quem não soubesse o que eram os serviços noticiosos da ditadura, confundidos com propaganda, aprendeu ali como, em tempo de democracia, se mimetizam os mesmos. Um documentário tem, por força, que documentar, mas aquilo não documentou, por isso não foi um documentário; aquilo serviu-se do material do Estado Novo e reproduziu-o sem mais! Aliás, a única voz ouvida foi a do próprio Marcello Caetano (mais lá para o fim ouvir-se-ia a voz de Spínola lendo o comunicado da Junta de Salvação Nacional). Assim, ficámos todos a saber o que era a oposição no entendimento do ditador: um bando de traidores que andam lá por fora a difamar a Pátria junto dos governos estrangeiros e que se reuniram "numa cidade de província" sabe-se lá porquê (a isto foi resumido o Congresso de Aveiro). Vimos enormes manifestações de apoio popular sem que fosse dita uma palavra acerca do modo como eram organizadas essas "manifestações espontâneas", nomeadamente aquela com que o ditador foi recebido no regresso da sua visita ao Reino Unido para comemorar o centenário da aliança luso-inglesa. Nessa visita fora recebido em apupos por manifestantes londrinos que, pela sua imprensa livre, souberam do massacre de Wiriamu (nome que o locutor de serviço da democracia não sabe pronunciar!) e a recepção no regresso à Pátria quis-se de desagravo. Nas palavras que dirigiu à multidão junto ao aeroporto, Caetano referiu-se à maldade da oposição no estrangeiro, afirmando que "até tinham convencido um dos maiores partidos ingleses a oporem-se à sua visita"; a filha, na entrevista, afirmara "nós alcançámos os nossos objectivos e eles (a oposição) alcançaram os deles". Eloquente!
Pelas "Conversas em Família" ficámos a saber como era perniciosa a acção da oposição no meio estudantil e sindical. Quem não sabia, aprendeu que os movimentos de libertação das colónias eram terroristas, etc.
O documentário provocou-me náuseas. No final, aqueles que tivessem menos de 50 anos e soubessem pouco de História tiveram razão em questionar-se acerca das causas do 25 de Abril porque, afinal, Marcello Caetano era um anjo do céu cujas asas se chamavam PIDE e censura, e o colonialismo era a sua dádiva de civilização ao mundo!
Haja decoro! A palavra fascismo primou pela ausência. Apenas a expressão de uma senhora do povo escapou a esta lavagem da História com lixívia: "este Salazar é mais simpático do que o outro"! Os autores do programa da RTP acharam piada à frase mas não a compreenderam, de outro modo tê-la-iam ignorado do mesmo modo que ignoraram tudo o que não fosse a propaganda do ditador.
Que miserável regresso de férias!
Nota: não sendo sobre o programa, vale a pena ler este artigo de Nuno Brederode Santos no DN de domingo dia 20 de Agosto
27/07/2006
Líbano

Para nos lembrarmos de que o Líbano não é só deserto e guerra, está aqui uma página que merece ser vista. Agradeço as indicações ao Human flower Project (com link aqui ao lado).
O Líbano, lembra-nos a Bíblia, forneceu a Salomão os cedros necessários para a construção do templo de Jerusalém. O ódio ainda se não tinha metido de permeio!
26/07/2006
André le Chapelin: palavras sábias

Il est évident et pour ma raison absolument clair que les hommes ne sont rien, qu'ils sont incapables de boire à la source du bien s'ils ne sont pas mus par les femmes. Toutefois, les femmes étant l'origine et la cause de tout bien, et Dieu leur ayant donné une si grande prérogative, il faut qu'elles se montrent telles que la vertu de ceux qui font le bien incite les autres à en faire autant; si leur lumière néclaire personne, elle sera comme la bougie dans les ténèbres, qui ne chasse ni n'attire personne. Ainsi, il est manifeste que chacun doit s'efforcer de servir les dames afin qu'il puisse être illuminé de leur grace; et elles doivent faire leur mieux por conserver les coeurs des bons dans les bonnes actions et honorer les bons pour leur mérite.
25/07/2006
Guerra
Que gente é esta que deixa mulheres e crianças para trás, por não terem dinheiro?
Onde está a caridade, o auxílio aos pobres, um dos cinco pilares do islão?
Onde estão os crentes?
Onde ficou a humanidade?
Será a guerra que nos põe assim?
22/07/2006
21/07/2006
Docas de Lisboa
O espaço entre as docas de Alcântara e da Rocha Conde d'Óbidos está lindíssimo. São veleiros e mais veleiros, grandes veleiros de numerosos países que se concentraram em Lisboa, local de pausa da regata comemorativa dos 50 anos do Tall Ships' Races. Deixarão Lisboa no próximo domindo, dia 23. Por volta do meio-dia desfilarão, em cruzeiro, frente à Torre de Belém, mas vê-los à saída da barra será espectáculo a não perder.
Entretanto, as suas bandeiras vão enfeitando a zona ribeirinha de Lisboa.
A gare marítima da Rocha está, ainda, mais bonita, com o cordame da Sagres a sobressair-lhe por detrás.
A Sagres, vista da popa

Por estes dias, o Tejo mira-se assim.
Alguns navios franqueiam a entrada a quem queira visitá-los.
O passeio vale a pena!
19/07/2006
Rosa Casaco
Foi-se, gozando da liberdade que negava aos outros;
acrescentado nos anos que roubou a tantos.
Foi-se.
Tarde!






