23/02/2007

Zeca

Hoje vou tentar cantar as tuas cantigas
embora saiba que hoje, sobretudo hoje,
aquele nó na garganta
toldará a minha voz
- e as tuas trovas exigem a perfeição do cristal!

Hoje, só de ti terei saudades;
não do tempo da promessa
nem da jovem que me ajudaste a ser.

Hoje, como em todos os dias de quebranto,
ouvir-te-ei a ti,
que é a forma que tenho
de encontrar forças
e prosseguir de queixo erguido.

Hoje não me insurgirei contra quem disser que são do povo
cantigas que sei escritas por ti!

Hoje será para ti que canto: tudo quanto escreveste
porque tudo sei de cor!


E porque "o velho se quer levantar", hoje, como todos os dias, tua voz há-de acompanhar-me na denúncia.


11/02/2007

É tão fácil ajudar!



Casa da Criança Madre Maria Clara
orfanato em Moçambique


apadrinhe uma criança

Esta casa acolhe mais de 100 meninas, dos 1 aos 18 anos. Quase todas são órfãs de pai e mãe, devido à guerra ou a doenças e muitas estavam abandonadas na rua e em situação de risco.Estas crianças têm vivido graças à solidariedade de pessoas como você!Sim! Você pode apadrinhar uma criança em Moçambique!
Após a inscrição, ser-lhe-á enviada uma nota biográfica e fotografia da sua afilhada.
Você acompanhará o desenvolvimento da sua afilhada, através dum relacionamento por carta, aconselhando-a, incentivando-a, e ela sentirá que é amada e respeitada.
Não existe nenhum compromisso legal com a sua afilhada.

Você estará a ajudar activamente esta gigantesca missão, que é reconstruir o tecido humano e social, nesta sociedade moçambicana do pós-guerra!
Veja como é simples:Caso você pretenda apoiar mensalmente a sua afilhada, será mais prático inscrever-se em
PaisProtectores.com.


É este o texto que se pode ler na apresentação desta autêntica casa refúgio de muitas crianças.


Veste-se de dificuldades a normalidade dos dias destas crianças e dos adultos que as acompanham. Neste momento, no entanto, a situação agravou-se muito devido às cheias provocadas pelas chuvas diluvianas. O apelo chegou-me e sinto que é meu dever dar dele conhecimento:
os alimentos armazenados estragaram-se com as chuvas;
as crianças estão a ser vítimas de diarreias e malária e perderam-se os medicamentos.


A maioria das crianças é órfã das vítimas da sida. São tragédias a mais para tão pequenos corpos e tão curtas idades.

Bem-haja, pois, quem possa e queira ajudá-las!

09/02/2007

Mulher e menoridade

O estudo do aparelho reprodutor feminino e do aparelho reprodutor masculino integram o currículo nacional de Ciências Naturais, disciplina obrigatória no ensino básico, também ele obrigatório. As escolas, em parceria com os centros de saúde, multiplicam-se em sessões de esclarecimento sobre sexualidade e meios contraceptivos, enquanto nas bibliotecas das escolas existe literatura abundante sobre o assunto, adequada à idade adolescente. Ou seja: a informação existe! Já nenhum adolescente acredita que os meninos são trazidos pela cegonha. Porque se engravida, então, sem querer? Só há uma resposta possível: descaso das consequências!

Enfatizo a pergunta anterior: porque se engravida? Mulher alguma engravida sozinha e ela e o parceiro sabem que um acto sexual sem protecção pode originar gravidez. Mesmo assim não se importam. Não são coitadinhos, são inconsequentes. Estes garotos arranjam dinheiro para o tabaco; arranjam dinheiro para as primeiras drogas, mas falta-lhes dinheiro para preservativos! Como pode ser? Aos jovens adultos vemo-los gastar somas consideráveis em noites de discoteca e bebedeira, mas não usam o preservativo. Não me importam para nada os argumentos que usam em defesa de semelhante comportamento, mas importa-me a leitura que, inevitavelmente, se tem que fazer dele:

homem que se não protege e não quer ser pai, faz da mulher instrumento de prazer ao seu serviço;
mulher que se não protege e não quer ser mãe reduz-se, a si própria, a objecto de prazer;
mulher que se não protege porque vai na cantiga do parceiro está a aceitar uma canga.

É, em qualquer caso, um retrato de menoridade, porque de submissão, voluntária ou imposta. Onde estão as feministas?

Em vez de mais educação; de acesso gratuito aos meios contraceptivos e de responsabilização do homem, o Estado Português propõe que se liberalize o aborto. Não se caia no sofisma de que despenalizar não é liberalizar porque, quando o Estado deixa de contar determinado acto como crime, está a dar-lhe licitude, a dizer que, praticá-lo, não está errado! E a mulher lá continua, submissa e menor; ainda mais só e desprotegida se for maioritário o voto “sim” no referendo ao aborto.

Não é só com o aborto clandestino que se deve terminar. É com o aborto ele próprio! E porque se não acaba com o alcoolismo encontrando solução médica para a ressaca, não é legalizando o aborto que se combate tal flagelo. Mas a novilíngua reinante não quer saber disso para nada. Tratou de inventar um eufemismo perifrástico para dourar a pílula. A novel expressão ignora o feto; finge que ele não existe - aliena consciências! Mas quem interrompe voluntariamente uma gravidez está, de facto, a abortar, que é o nome que o dicionário dá ao crime de matar um ser antes do nascimento. Tudo o resto é desamor à mulher e descaso pela vida!

06/02/2007

Vida humana

“Banhamo-nos e não nos banhamos sempre no mesmo rio” é um dos aforismos de Heraclito que mais me fez pensar e gosto de o aplicar à pessoa humana e à sua condição. Quantos milhares de células perdemos por dia e quantos milhares cria de novo o nosso corpo? Todo o corpo vivo sofre revoluções diárias e, no entanto, a essência permanece de tal modo que somos capazes, a cada instante, de dizer: sou eu; és tu!

A primeira identificação que se faz de alguém é a identificação biológica e mesmo que uma pessoa que conhecemos comece a ter comportamentos diferentes do habitual continuamos a chamar-lhe o mesmo nome, porque, de facto, não o sendo, é da mesma pessoa que se trata! Qual é, então, o seu verdadeiro eu? Aquele que conhecemos primeiro ou aquele que observámos depois? O que é que faz com que digamos que alguém é um ser humano? O seu comportamento? A sua biologia?

Responder a estas perguntas é encontrar a resposta para outras duas: o que é um ser humano? Quando começa a vida humana? Alguém, em completa honestidade, pode responder?

Sei que um óvulo não é vida humana e que um espermatozóide também não. Ambos são células humanas e nada mais. Mas um ovo, que é um óvulo fecundado por um espermatozóide, é muito mais do que a união de duas células, uma masculina e outra feminina. Por isso se chama ovo e a sua análise química traduz a existência de um novo indivíduo. Humano? Não sei responder, mas interrogo-me e inquieto-me porque não sei definir o que é a vida humana. A criança que fomos é a mesma pessoa que somos? Sim e não, de novo! Sei que se a criança que fomos tivesse morrido, as pessoas que somos não poderiam existir porque só daquele conjunto de células poderia resultar o conjunto de células que hoje somos. Do mesmo modo, a criança que fomos só pôde acontecer porque um espermatozóide do nosso pai fecundou o óvulo da nossa mãe. A única certeza que se pode extrair daqui é que a vida é um processo contínuo e cumulativo.

Há quem argumente que só se pode falar de vida humana depois de dez semanas de gestação, altura em que começa a formar-se o sistema nervoso central. Confesso que esse argumento me faz reflectir mais do que qualquer outro. Mas… Quem acompanhou pessoas que sofrem de esclerose ou da tremenda doença de Alzheimer dá-se conta de como vão perdendo capacidades porque o seu sistema nervoso central vai morrendo até que a pessoa chega ao ponto de ser incapaz de identificar quem mais ama e vai deixando, mesmo, de saber quem é – até o próprio nome! Aquele ser deixou de ser pessoa? Há cientistas que admitem que sim e até defendem que devem ser utilizadas em experiências científicas. Não perfilho tal opinião. O sistema nervoso pode fazer de nós pessoas brilhantes ou limitadas, pessoas boas ou perversas mas, sozinho, não chega para definir alguém enquanto ser humano. Poderíamos dizer que, neste caso, há um passado a ter em conta…

O feto de dez semanas poderá não ter sistema nervoso, mas há um futuro que deve ser levado em conta! Tudo o resto resvala perante este modo de ver e só quem não considera a vida como um direito absoluto e inviolável pode defender a liberdade de abortar!

02/02/2007

O senhor ministro da economia

Alcântara, quinta-feira à tarde, junto a um contentor de lixo que serve as docas de barcos de recreio:

- O senhor está a olhar muito para mim, mas olhe que eu não despejo no chão os sacos em que mexo!

O homem, que teria à volta de cinquenta anos, foi desfiando o seu rosário:

- Aqui encontra-se comida muitas vezes e quase sempre em bom estado. É com isso que me vou alimentando. No Verão é melhor porque há mais pessoas a sair com os barcos e quando voltam despejam aqui a comida que lhes sobra. No Inverno… olhe, já fico contente se, ao menos, puder fazer uma refeição diária!

O homem exprime-se correctamente. No tom e na atitude são invisíveis quaisquer marcas de revolta ou de auto-complacência. O seu interlocutor é que vai remoendo o que ouve e nem sabe o que há-de dizer.

- Vivo ali, debaixo das arcadas – prosseguiu – e não gosto de pedir. Só pedi uma vez, porque em dois dias só tinha comido uma maçã e já não me aguentava em pé.

- Venha comigo! – Convidou o interlocutor a quem a voz, finalmente, se soltou. Dinheiro não lhe dou, mas pago-lhe o almoço.

********

Este homem (e quantos mais?) aceitaria, certamente, trabalhar algumas horas por dia em troca de almoço e jantar. Tem razão, pois, o senhor ministro da economia ao referir os baixos salários nacionais como factor de estímulo ao investimento estrangeiro em Portugal. O que eu não sabia e me surpreendeu nas suas declarações, foi o facto de sua excelência considerar que os nossos baixos salários podem competir com os miseráveis salários da China!

****

Face às reacções dos sindicatos, nada mais ocorreu ao senhor ministro do que apodá-los de "forças de atraso". Confesso-me, de novo, rendida à sabedoria de sua excelência! Tem toda a razão! Não fora a corja sindical e o mundo do capital estaria muito mais rico por não ser obrigado a pagar salários que garantam algo mais do que a sobrevivência estrita! O mundo do capital seria muito mais dinâmico se pudesse continuar a empregar crianças de seis e de quatro anos em vez de despender dinheiro a inventar soluções mecânicas que possam substituir os seus dedos pequenos! Não fora a corja sindical, os conceitos de férias, segurança social, pensão de reforma, escolaridade obrigatória e sufrágio universal estariam para o nosso tempo como a vida está para Marte! Não fossem essas “forças de atraso” e os capitalistas generosos continuariam a poder dar-se ares de filantropos, permitindo generosamente que as mães de filhos pequenos os amamentem e lhes fiquem eternamente gratas em vez de exigirem a aplicação dos seus direitos legais.



Tem toda a razão, senhor ministro! Não fossem as forças sindicais, a riqueza de uns quantos seria muito maior do que é!

27/01/2007

História e memória

A filosofia da História importará somente aos historiadores, mas os seus rudimentos deveriam interessar a todos quantos fazem gosto de ler livros de História.

A grande revolução no modo de encarar a História operou-se no início do séc. XX, reflectindo directamente as novas teorias da Física de Einstein. Ela está associada à revista Annales mas, sobretudo, à História Nova cuja cúpula é Fernand Braudel. Entre nós, o seu representante maior é Vitorino Magalhães Godinho que, numa interpretação muito original e lúcida dos tempos e ritmos da História, criou o conceito de Complexo Historico-Geográfico. Tal conceito significa que uma determinada realidade tem que ser interpretada à luz das estruturas da época e das diversas conjunturas que estabelecem relações múltiplas entre si e com outras de outros lugares, construindo um todo com sentido. É uma História vista à luz de modelos e, para mim, continua a ser aquela que melhor interpreta o tempo histórico que não é linear nem simples nem simplista. A ideia de que a velocidade confere características diferentes ao tempo é, pois, o grande contributo da Física para a História.

A História é antiga como a ciência e a sua mãe é a Grécia clássica. A História ciência, porém, nasceu no séc. XIX pela mão dos positivistas. Se quisermos, Herculano foi um positivista. A sua História é cristalina porque rigorosa; avessa a sentimentos porque contrários à real explanação dos factos. O positivista é escrupuloso na leitura dos documentos; apresenta apenas os factos que pode comprovar – somente esses – e recusa qualquer veleidade interpretativa. Foi por isso que Herculano rejeitou a integração na sua História de Portugal do milagre de Ourique, o que lhe valeu crítica acesa dos contemporâneos. Mas é por isso que, ainda hoje, se queremos a verdade dos factos é em Herculano que os procuramos. Nele e em Oliveira Marques (e em poucos mais), o último historiador positivista que sempre se recusou a utilizar a História como instrumento político. É por isso que a sua História de Portugal, ao contrário de outras, integra a minha biblioteca e, ao contrário de outras também, fornece-me os dados de que preciso, sempre que busco informação. O seu critério é a verdade, por isso é fidedigno.

Mas não deve o historiador combater a ditadura? Deve! Como? Estudando os assuntos proibidos e aqueles que são deturpados pelo regime, porque usados como propaganda! E foi por isso que Oliveira Marques estudou a I República, tema tabu para o Estado Novo, e nos deu a conhecer os documentos que nos ensinam como era a vida quotidiana durante a Idade Média.


Uma sociedade que preza a sua História deveria conhecer os seus historiadores. Oliveira Marques faleceu outro dia. Quem deu por isso?

20/01/2007

Fiama Hasse



Fiama Hasse Pais Brandão escreve de forma despojada. Ela afasta o acessório e usa as palavras em sentido rigoroso e coloca-as na frase em lugar medido ao milímetro. Resultam poemas límpidos e de significado claro. Em muitos, além do sabor da poesia, encontramos a militância política que significa desejo de verdade e ânsia de liberdade:

A Matéria Simples

Os brilhos que na noite vêm
são dos olhos dos que sonham,
viagens pelos mares de outras águas.
São os que não gostam de se elevarem
no ar sobre os antigos oceanos
e amam os pequenos riachos
e o fundo invisível dos poços.

(in, Fábulas)

Não creio que Fiama Hasse Pais Brandão integre a vaga dos poetas do Neotrovadorismo, termo inventado por Rodrigues Lapa; mas utilizou a recriação poética. No poema Barcas Novas inspira-se directamente na cantiga de amigo En Lixboa, sobre lo mar, de Joan Zorro, um dos poetas dos cancioneiros galaico-portugueses.


Lisboa tem barcas
agora lavradas de armas

Lisboa tem barcas novas
agora lavradas de homens

Barcas novas levam guerra
As armas não lavram terra

São de guerra as barcas novas
ao mar mandadas com homens

Barcas novas são mandadas
sobre o mar

Não lavram terra com armas
os homens

Nelas mandaram meter
os homens com a sua guerra

Ao mar mandaram as barcas
novas lavradas de armas

Barcas novas são mandadas
sobre o mar

Em Lisboa sobre o mar
armas novas são mandadas

(in: Barcas Novas , 1967)





En Lixboa, sobre lo mar

En Lixboa, sobre lo mar
Barcas novas mandei lavrar.
Ai, mia senhor velida!

En Lixboa,, sobre lo ler
Barcas novas mandei fazer.
Ai, mia senhor velida!

En Lixboa, sobre lo mar
Barcas novas mandei lavrar.
Ai, mia senhor velida!

En Lixboa,, sobre lo ler
Barcas novas mandei fazer.
Ai, mia senhor velida!

Barcas novas mandei lavrar
E no mar as mandei deitar.
Ai, mia senhor velida!

Barcas novas mandei fazer
E no mar as mandei meter.
Ai mia senhor velida!

Joan Zorro



Eis, como, um poema repleto de alusões eróticas se transforma em poema contra a guerra colonial (atente-se no ritmo e na repetição das palavras): a guerra não faz sentido porque As armas não lavram terra.


Fiama Hasse deixou-nos hoje. A minha memória não partilha do esquecimento a que tem sido votada.



Os calhordas

Deu à sola no instante em que a rapariga lhe anunciou a gravidez: a criança, afirma, tanto pode ser dele como de outro qualquer.

O tipo tem mau ar e o rosto marcado pelo vício de que não fala. A rapariga vê-se só. Só falo em rapariga porque ninguém é adulto bastante para aguentar a solidão e o sofrimento. No seu BI pode ver-se que ultrapassa em muito os trinta anos.

A criança nasceu e a mãe está desempregada. Depois de terminar o seu, compra a primeira lata de leite com o dinheiro de uma entrega prostituída. Lava-se com lixívia e percebe que não é capaz de trilhar aquele caminho. Aos três meses, entrega a menina a um casal que a recebe como uma bênção. Do acto fazem escritura notarial.

Na certidão de nascimento da menina estava escrito que era filha de pai incógnito, situação que a lei portuguesa rejeita há trinta anos. O tipo de que falei acima recusara-se a dar o nome à filha mas, como a lei exige que a mãe indique nomes possíveis, lá estava o dele como único figurante.

O tribunal convocou o tipo para que realizasse testes de ADN, mas o tipo não compareceu. O tribunal, então, mandou a GNR a casa do tipo e foi assim, de modo coercivo, que o tipo facultou a gota de sangue necessária para atestar a paternidade. Passara mais de um ano!

Entretanto, o casal que recebera a menina iniciara o processo de adopção. O tipo agora sente-se valente, requer o poder paternal, o tribunal dá-lhe razão e ordena a devolução da menina ao tipo. Os pais da menina recusaram-se a cumprir a ordem. Em nome da verdade, da justiça e da moral não se pode chamar outra coisa a este casal. Eles são os pais! A mãe vai mudando de casa enquanto o pai se apresenta diariamente no seu local de trabalho. É sargento do exército português e o tribunal, vendo nele presa fácil, acusa-o de desobediência e de sequestro. Seis anos de cadeia é o veredicto unânime dos três juízes do tribunal, acrescidos de uma indemnização de 30 000€ a pagar ao tipo que, coitadinho, tem vertido muitas lágrimas por não poder ser pai.

Da última vez que lhe vi a cara já não tinha aquele ar mau. Agora também é calhorda, tão calhorda como os três juízes que decretaram a sentença e insistem em que é do superior interesse da menina – agora quase com cinco anos – ser entregue a um tipo que a não quis e a quem nunca viu.

13/01/2007

!Kung San





Os !Kung San habitam a África Austral há mais de 20 000 anos.

A sua ancestralidade pode ser atestada pelas inúmeras pinturas rupestres que foram deixando pelos caminhos do tempo. São caçadores-recolectores, autênticas relíquias vivas do nosso passado humano. Usam uma linguagem de estalidos (representada graficamente por !) e o nome que se dão a si próprios pode ser traduzido por “Pessoas”. São geralmente conhecidos pela designação inglesa, “Bushmen” que adaptamos para “Bosquímanos”.


Os !Kung vivem no deserto do Kalahari que não é um deserto de dunas, antes, uma espécie de savana que ocupa uma extensa área partilhada pelos actuais territórios da África do Sul, Namíbia e, sobretudo, Botswana. A Norte, algumas franjas entram por terras angolanas. O Kalahari é atravessado por alguns rios que determinam os caminhos dos !Kung e tem época de chuvas que permite que a vida vegetal e animal sejam abundantes. O modo de vida deste povo do deserto que, inesperadamente, passou a contar com uma garrafa de coca-cola, ficou ternamente registado no filme de Jamie Uys, Os Deuses Devem Estar Loucos.


Há cerca de 25 anos, o Professor Viegas Guerreiro, decano da antropologia em Portugal, apresentou-me aos !Kung, exibindo um filme que ele próprio realizara durante os dois anos em que vivera com este povo. Aprendi, assim, que os San não têm chefes e que as decisões que interessam ao grupo são tomadas em grupo. Esses grupos podem ser extensos – até 100 pessoas – se os alimentos disponíveis forem bastantes, mas normalmente são menores, podendo não ultrapassar os 10 indivíduos.

Os San abrigam-se em cabanas que constroem recorrendo à vegetação alta que fazem assentar sobre uma estrutura de ramos. Os homens dedicam-se à caça e não importa os dias que demore até capturarem uma presa, porque a maior vergonha é regressar ao acampamento sem o suprimento de carne necessário. Caçam usando lanças feitas com as próprias mãos, com pontas de sílex (?) habilmente trabalhadas e que embebem em veneno eficaz. Sobre as mulheres recai a obrigação de serem elas a garantir o sustento diário, recolhendo frutos e raízes. Com que mestria o fazem! Onde nós não vislumbramos nada a não ser areia, elas abrem um buraco fundo com as mãos e encontram raízes enormes que o saber ancestral lhes ensinou a descascar bem com as suas lâminas de pedra e a pisar cuidadosamente para lhes extrair o suco venenoso. Depois resta uma farinha que assam sobre as brasas da fogueira pequena. Quando escasseiam as bagas e os frutos vão-se embora, seguindo os trilhos do rio. Pelo caminho vão deixando registos nas pedras com as suas magníficas pinturas rupestres ao ar livre.

Quando morre alguém metem-no na sua cabana. Os vivos, mesmo que haja alimentos, levantam o acampamento e partem, levando consigo o nada que possuem e quase nada deixando que permita o estudo do seu modo de vida a quem se queira guiar pelos restos materiais. O abandono dos mortos, segundo o professor Viegas Guerreiro, é das poucas manifestações religiosas dos San. A outra é a dança ritual dos curandeiros, para curar os doentes ou para pedir ao tempo que mande a chuva da sobrevivência.

Nem historiadores nem antropólogos são capazes de explicar por que razão alguns povos evoluíram no seu modo de vida enquanto outros se deixaram permanecer imutáveis. Quando, há cerca de 8000 anos o Neolítico chegou a África, os povos que se sedentarizaram e começaram a praticar a agricultura viram a sua população crescer e passaram a exercer grande pressão sobre os territórios percorridos pelos povos nómadas. Assim aconteceu com os Bantos e os !Kung San. Estes foram empurrados para o deserto que nunca foi terra que apetecesse a ninguém. Mas o golpe maior chegaria com os Boers, os puritanos holandeses que, em guerras sucessivas, iriam reduzir este povo a números insignificantes.

Em data que não sei precisar, o governo do Botswana delimitou uma área, a que chamou reserva, e encafuou lá os bosquímanos. Área sem acesso a água e pouco extensa para permitir o modo de vida tradicional, condenando-os à morte lenta. Em 1997, o supremo tribunal desse país, alegando prejuízos para o meio ambiente, decidiu expulsá-los da reserva. O mesmo organismo, há poucos dias, permitiu o seu regresso, mas desobrigando o governo do abastecimento de água e de alimentos.




Falta dizer que, na reserva, tinham sido encontradas importantes jazidas de diamantes. Pobres !Kung San!

08/01/2007

Rosas de Jericó

Chega uma altura em que o chão a que se agarram já não é capaz de as alimentar. Então, em dia que só elas conhecem, retraem as raízes e desprendem-se do solo. Depois deixam-se murchar para, leves e secas, serem levadas pelo vento. São as rosas de Jericó.



Enquanto a rosa de Jericó aceita o colo do vento tem o aspecto das coisas sem vida. Parece um novelo quebradiço; um resto de lixo que alguém esqueceu.


A viagem pode demorar muito tempo, com paragens marcadas pelo descanso da aragem. A certa altura, porém, a rosa decide que é ali, naquele sítio, que quer ficar. Os nossos olhos, pouco habituados a distinguir os matizes do deserto, não vêem a diferença entre esse lugar e o outro que foi abandonado. Mas ela sabe que ali subsiste uma gota de água, disfarçada entre os grãos de areia. Então, as raízes descem de novo às entranhas da terra e aquela gota de água vai permitir que a rosa reverdeça, ganhe viço e beleza.

Percebemos, assim, que o deserto faz sentido!

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As rosas de Jericó, como o nome indica, são naturais do Médio Oriente e terão sido introduzidas na Europa pelos cruzados. Não é difícil entender que esses homens, tantos deles boçais e todos guerreiros de coração endurecido pelos combates, viram nelas a imagem perfeita da ressurreição.


Para o Jorge e para a sua família, com um abraço!


Recolhi daqui as fotografias que ilustram o post.

06/01/2007

Epifania

A festa da Epifania encerra o ciclo do Natal.

Normalmente fala-se do simbolismo dos presentes que os Reis Magos oferecem a Jesus (ouro, porque Ele é rei; incenso porque é Deus e mirra, porque é Homem e o Seu corpo há-de morrer), mas o verdadeiro presente é outro: é Jesus a oferecer-Se a todos os Homens, sem distinção. É por isso que, liturgicamente, a Epifania significa a apresentação de Cristo aos gentios corporizados nos Reis do Oriente que seguiram a estrela misteriosa.

Apesar de ser apenas S. Mateus a falar-nos deste acontecimento, ele está na essência do Cristianismo enquanto religião universal e S. Paulo haveria de sintetizar isso de forma sublime: “não há judeu nem gentio”.

Na verdade, até à pregação de Jesus, todas as religiões eram religiões de um povo, acontecendo o mesmo com os Hebreus que reclamam o título de “povo eleito” e se referem a Deus como o “Deus de Abraão, Isaac e Jacob”. Eram poucos os prosélitos. Com Cristo difundiu-se a ideia de proselitismo: todos são bem-vindos porque a casa do Pai é grande.

Maomé – que também bebeu nos evangelhos – percebeu isso muito bem e incentivou os submissos de Alá a expandirem a sua crença. O Cristianismo e o Islamismo são, por isso, das grandes religiões do mundo, aquelas que mais se dedicam à expansão dos seus credos. Porque Deus de todos é Pai. Tudo deveria ser assim: simples!


Painel de azulejos representando o presépio (Convento da Madre de Deus / Museu Nacional do Azulejo)

04/01/2007

O Presépio da Madre de Deus

Por decreto do Mata Frades, em 1834 foram extintas as ordens religiosas: as dos homens imediatamente; as das mulheres proibidas de admitir novos membros para que, falecida a última, os conventos desaparecessem um por um. Foi nessa data que se desmontou o presépio, em terracota, da Madre de Deus que era um convento de clarissas. Em 1872, após a morte da última monja, o presépio reverteu para o Estado e seria integrado no espólio do Museu Nacional de Arte Antiga. Só neste Natal voltou a ser exposto, de novo no seu lugar de origem.




O presépio foi restaurado (obra de mecenato) e do todo original só se perdeu o burrinho. A vaquinha, por não ter par, ficou de fora da exposição. Notam-se, aqui e ali, umas lascas nas figuras, uma cabeça decepada, etc. mas o conjunto, é esplendoroso.



É o mais belo presépio que já vi! Da autoria conjunta de Dionísio e António Ferreira, terá sido produzido entre 1700 e 1730. As figuras principais e maiores devem ter uma altura média de 70 cm e, porque colocadas sobre um pedestal, ficam da altura do observador que se coloque de joelhos, integrando-se no cortejo daqueles que querem adorar o Menino. A cena torna-se mais vívida porque participada.




É pena que não haja bela sem senão – senão que se alarga a todo o convento: a iluminação incomoda os olhos do visitante e, no caso do presépio, reflecte-se no vidro e não deixa ver bem o conjunto. Talvez mais grave, na tabuleta que identifica a obra escreve-se que é um dos presépios europeios (sic)!

30/12/2006

Tiro nos miolos

Abraão estendeu a mão e agarrou a faca, para sacrificar o próprio filho. Mas, do céu, o mensageiro do Senhor chamou por ele: “Abraão! Abraão! (…) E Deus disse-lhe: “Não levantes a mão contra o menino; não lhe faças nenhum mal.(…)Abraão voltou-se e viu atrás de si um cordeiro que estava preso pelos chifres a um arbusto. Foi buscá-lo e ofereceu-o em sacrifício, em lugar do seu filho. Génesis, 22, 10-13

Todos conhecemos esta história que vem narrada no primeiro dos livros da Bíblia. Para os muçulmanos, que também entendem Abraão como seu fundador, este acontecimento transformou-se numa festa importante: a do Aid El Quebir que se celebra, anualmente, após o Ramadão, sendo a festa do sacrifício ou do cordeiro.

Dando cumprimento a uma sentença iníqua, o governo iraquiano enforcou, hoje, Saddam Hussein. Dificilmente poderia haver decisão mais estúpida: a festa do Aid El Quebir coincidirá, este ano, com a nossa passagem de ano! (1)


Este não é um tiro no pé, é um tiro nos miolos! Pode argumentar-se que foi uma decisão de muçulmanos, mas todos sabemos que ela só aconteceu devido à invasão ocidental do Iraque. E, embora haja iraquianos a comprazerem-se com a morte do seu tirano, muitos outros milhões por todo o mundo entenderão o acontecimento como intromissão dos cristãos em assuntos e terras islâmicos. Apesar de detestado por quase todos os muçulmanos do mundo, na sua morte, Saddam transformar-se-á em pretexto para agudizar as tensões religiosas do nosso tempo. Quem decidiu a sua morte e a data da execução tinha obrigação de pensar em tudo isto!

Reli, hoje, estas palavras que o ismaelita Faranaz Keshavjee publicou na véspera de Natal:


Já tinha ouvido o Aga Khan, o Imã dos Ismailitas, dizer numa entrevista recente que não se pode pensar em choque de religiões quando existe tanto em comum entre as religiões de Abraão. De resto, também o sr. cardeal-patriarca Dom José Policarpo recentemente o disse, que há muito mais convergências do que divergências nestas tradições religiosas. Agora, reflectindo sobre o que fiquei a conhecer, compreendo melhor o que isto quer dizer.Jesus é para os muçulmanos não só um Profeta mas também um Guia Espiritual que se demarcou de muitos outros tanto na forma como o Alcorão o descreve, enquanto um ayat (sinal) de Deus, mas também como um exemplo a seguir, na forma como os Evangelhos Muçulmanos proporcionaram o conhecimento sobre Jesus e moldaram a espiritualidade nas várias civilizações islâmicas. Jesus surge no Alcorão e nos Evangelhos (ditos) Muçulmanos como o Profeta do Amor; o Guia das virtudes cardinais: a Paciência, a Humildade, a Renúncia ao materialismo, o Silêncio. Jesus também aparece como o "obreiro dos milagres"; o "viajante"; o "arrependido"; o "Redentor". Jesus é para os muçulmanos o Selo dos Santos. Jesus, é o grande Sufi. Jesus também é muçulmano! (…)



Há uma semana, estas palavras pareceram-me uma porta aberta. Hoje, a náusea só me deixou sentir um nó na garganta.

(1) Pelos vistos não fui a única a dar importância à coincidência das datas. No seu editorial do dia 1 de Janeiro no DN, António José Teixeira faz notar isso mesmo.




17/12/2006

Acende-se Jesus

Acenda-se de novo o presépio no mundo!
Acenda-se Jesus nos olhos dos meninos!
Como quem na corrida entrega o testemunho,
Passo agora o Natal para as mãos dos meus filhos.

E a corrida que siga, o facho não se apague!
Eu aperto no peito uma rosa de cinza.
Dai-me o brando calor da vossa ingenuidade,
Para sentir no peito a rosa reflorida!

Filhos, as vossas mãos! E a solidão estremece,
Como a casca do ovo ao latejar-lhe a vida...
Mas a noite infinita enfrenta a vida breve:
Dentro de mim não sei qual é que se eterniza.

Extinga-se o rumo, dissipem-se os fantasmas!
O calor destas mãos nos meus dedos tão frios!
Acende-se de novo o presépio nas almas,
Acende-se Jesus nos olhos dos meus filhos.

David Mourão Ferreira



Este poema de David Mourão Ferreira tornou-se, desde que o li pela primeira vez, no meu poema de Natal. Ofereço-o a quem me lê, muito embora não seja meu!

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Fui ler o Público depois de ter publicado o post. Um artigo de António Marujo intitulado "Quando Celebrar o Natal é Proibido" deixou-me uma sensação indescritível de mágoa, porque de perda. Transcrevo o início e o fim do artigo que vale a pena ler na íntegra (não há link disponível):

Espanha, Reino Unido e Estados Unidos com polémicas sobre comemorações natalícias para não ofender não-cristãos
Festas de Natal proibidas numa escola em Saragoça (Espanha) para não ofender crentes não-cristãos, empresas que não querem festas natalícias no Reino Unido, árvores de Natal removidas e depois recolocadas no aeroporto de Seattle (EUA) na sequência de polémicas sobre as decorações. O Natal, festa que comemora o nascimento de Jesus Cristo, está a ser limpo da sua raiz, com argumentos como o pluralismo e a laicidade.
(…)
Em Portugal, a Associação República e Laicidade resolveu protestar com a lembrança dos factos históricos que estão na origem do Natal. Em causa está a revista Professores do 1º e 2º Ciclos do Ensino Básico. No seu número de Dezembro, a publicação decidiu apoiar os professores que queiram desenvolver uma "Representação do Nascimento de Jesus". Citando excertos do texto sugerido na revista, a associação pergunta: "Quantos professores estarão habilitados para "trabalhar", para "analisar" e "aprofundar", com as crianças que têm sob a sua tutela pedagógica, as questões que aquele "simples" auto de Natal pode facilmente suscitar?"


Historicamente não me lembro de tal esquizofrenia, de tamanha onda suicida! É como se as árvores de uma floresta transformassem os galhos em mãos possantes e se arrancassem a si próprias pela raíz! Para tal mundo nem um "rico enterro" se pode augurar!

11/12/2006

O mestre e os discípulos



Li um livro que me foi emprestado. Gosto de ler livros emprestados, simplesmente, porque gosto de ler e comprar todos os livros que a minha ânsia exige seria incomportável. Assim, as bibliotecas e os amigos fazem o favor de permitir que sacie a minha sede. Eles nem sabem o tamanho do meu bem-hajam!

A Senhora Sócrates, de Gerald Messadié é um excelente romance aparentemente policial. Entenda-se: a Senhora Sócrates é Xantipa, esposa do filósofo Sócrates, ateniense do séc. V a.C. O texto é um excelente retrato de Atenas, mãe da democracia, aquela que excluía as mulheres de qualquer participação na vida da pólis. O autor propõe-se narrar toda a história segundo um ponto de vista feminino, ou seja, segundo a interpretação de Xantipa, pessoa de quem, na História, apenas conhecemos o nome. Claro que tudo resulta num relato crítico, mas esclarecido e correcto.

Sócrates foi mestre de Péricles, o homem que consolidou a democracia, nomeadamente acabando com o patronímio que, queiramos ou não, é sempre motivo de distinção social, pela positiva ou pela negativa. Atenas pagou a Péricles acusando-o do roubo de bens da cidade, mesmo usufruindo de todos os edifícios que se construíram a seu mando durante os 15 anos em que, sucessivamente, foi eleito estratego e devendo-lhe a derrota dos persas.


Os tempos a seguir à morte de Péricles foram conturbados: Alcibíades, seu protegido, foi eleito estratego. Alcibíades fora, desde menino, discípulo de Sócrates, nas suas andanças peripatéticas. Era belo, encantou o filósofo e ambos tornaram-se amantes. A par de Alcibíades (no estudo, entenda-se) outros discípulos rodeavam Sócrates, sendo Platão aquele que, no nosso tempo, mais destaque merece. Mas Alcibíades conduziu Atenas a uma guerra imperialista para a qual não tinha vocação. Julgado e condenado, fugiu e foi oferecer-se a Esparta, a maior inimiga da democracia que não perdeu tempo a voltar à guerra e a perpetrar pesadas derrotas a Atenas. Eu só não sei como é que ele, amante do luxo, conseguiu tragar o caldo dos espartanos, mas enfim… A verdade é que não respeitou a hospitalidade e envolveu-se amorosamente com a rainha. Apanhado, fugiu novamente e foi oferecer-se aos persas, ou seja: Alcibíades foi responsável por muitos anos de guerra mas, acima de tudo, é um grande traidor. Ainda regressará a Atenas, mas o seu ser não dá descanso a ninguém. Atenas, cansada da democracia, regressa a uma forma de tirania onde pontuam outros discípulos de Sócrates.

Ora, é aqui que bate o ponto, pois parece-me Gerald Messadié deixa uma acusação a Sócrates: foram os seus ensinamentos e os seus conselhos que formaram estes homens que são traidores ou tiranos ou defensores da tirania. Deixo no ar a mesma questão: é o mestre responsável pelos actos dos seus discípulos?

01/12/2006

1.º de Dezembro

Há algumas décadas que se perdeu, em Portugal, a ideia de povo. O povo iletrado, terceiro elemento do corpo social, foi substituído pela classe média ignara. Nunca Portugal esteve tão em perigo!

Ao longo destes oitocentos e sessenta e três anos de existência, sempre o povo primou por não ceder às pretensões hegemónicas, primeiro de Castela, depois, de Espanha, mesmo que a lei lhe não desse razão, como aconteceu em 1383. O povo pensou bem: os acordos insanos celebrados por um rei vaidoso e fraco não têm que condenar a Pátria. Exerceu, então, aquilo que os iluministas, muito mais tarde, viriam a designar por “direito à revolta”.

Em Santarém, em Junho de 1580 o povo, e só ele, proclamou D. António, Prior do Crato, rei de Portugal. D. Henrique, o cardeal-rei, falecera em Janeiro, velho e doente, acompanhando no destino as vinte e cinco mil mortes nacionais provocadas pela peste. Desde Abril do ano anterior que os pretendentes ao trono escreviam à coroa, a seu rogo, expondo os argumentos em defesa da respectiva pretensão. O velho rei nunca chegou a decidir. Decidiu o povo por ele! Mas o povo não tem armas, nem tácticas militares, nem dinheiro para subornos. Filipe II tinha e serviu-se em abundância!

Recebi de V.M. a três de Agosto e outra de D. Cristóvão em que me diz quanta mercê V.M. deseja fazer a esta sua casa; e só com entender a muita justiça que V.M. tem à sucessão destes reinos eu estava determinada de pôr por ela os filhos, estados e vassalos, com diferente gosto o farei agora que V.M. se mostra disso servido e mais ficando de novo obrigada com esta tão grande mercê e favor que V.M. me fez. (…) Meu filho beija os pés de V.M. Da Vidigueira a 5 de Agosto de 1579
Beija as reais mãos de V.M.
A Condessa da Vidigueira


*
Por último, direis ainda ao Sereníssimo Rei, meu tio, que pois o tenho no lugar de pai, me não negue o de filho primogénito, que me deram Deus e as leis; e considere atentamente nas misérias e calamidades públicas (…), obrigando-me a tomar outro caminho que não o da brandura, amor e liberdade, que proponho (…)

(Carta de Filipe II ao duque de Ossuna, seu embaixador em Portugal, escrita a 24 de Agosto de 1579 )

Nesta carta Filipe II fazia inúmeras promessas que repetirá nas Cortes de Tomar de 1581 em que será aclamado rei: que o herdeiro do trono será educado em Portugal; que teremos administração própria, moeda própria, lei própria, separação de impérios, mas que o império espanhol estaria aberto aos portugueses, enfim… haveria união dinástica mas não de reinos. Este é o pedacinho do cinismo que lhe fica bem a ele mas muito mal à nossa nobreza.

Cedo se constatou que tudo não passava de palavras, saindo à nossa nobreza o tiro pela culatra. Distantes da corte, tornámo-nos periféricos e a nossa nobreza tornou-se provinciana (veja-se Rodrigues Lobo e as “Cortes na Aldeia”). O povo tinha razão, mas a nobreza só se deu conta disso 60 anos mais tarde, porque deixou de ter o que pensava que teria.

Hoje, já o disse, não existe povo. Temos uma classe média que lhe não herdou o ser, e se consome na ânsia de ter. O pecado da nobreza atingiu as classes baixas. Hoje, qual aristocracia de há 623 anos e de há 426 anos, estes nacionais a nada mais aspiram senão a ser espanhóis. Porque lhes invejam o ter e se esquecem da História.

Amo profundamente a minha pátria, mas já não sei se amo os portugueses!

28/11/2006

Há dias!



Há dias em que a dor é tão intensa


que só sabemos gritar para dentro!



Dali, Persistência da Memória

26/11/2006

Cesariny



Ontem, saudades de um. Hoje saudades de outro - Mário Cesariny, poeta e pintor do surrealismo português.




Lembra-te
que todos os momentos
que nos coroaram
todas as estradas
radiosas que abrimos
irão achando sem fim
seu ansioso lugar
seu botão de florir
o horizonte
e que dessa procura
extenuante e precisa
não teremos sinal
senão o de saber
que irá por onde fomos
um para o outro
vividos















ESTADO SEGUNDO

XX


Não houve

nunca

acima do mundo

a alegre aventura

de um sol militar


24/11/2006

Gedeão

Poema da Malta das Naus

Lancei ao mar um madeiro,
espetei-lhe um pau e um lençol.
Com palpite marinheiro
medi a altura do Sol

Deu-me o vento de feição,
levou-me ao cabo do mundo,
pelote de vagabundo,
rebotalho de gibão.

Dormi no dorso das vagas,
pasmei na orla das praias,
arreneguei, roguei pragas,
mordi peloiros e zagaias.

Chamusquei o pelo hirsuto,
tive o corpo em chagas vivas,
estalaram-me as gengivas,
apodreci de escorbuto.

Com a mão esquerda benzi-me,
com a direita esganei.
Mil vezes, no chão, bati-me,
outras mil me levantei.

Meu riso de dentes podres
ecoou nas sete partidas.
Fundei cidades e vidas,
rompi as arcas e os odres.

Tremi no escuro da selva,
alambique de suores.
Estendi na areia e na relva
mulheres de todas as cores.

Moldei as chaves do mundo
a que outros chamaram seu,
mas quem mergulhou no fundo
do sonho, esse fui eu.

O meu sabor é diferente.
Provo-me e saibo-me a sal.
Não se nasce impunemente
nas prais de Portugal.


Rómulo de Carvalho faria hoje anos. O cientista e o professor são um com o poeta Gedeão que me acompanhou na descoberta da poesia. É dele uma das sínteses mais poderosas acerca do ser português: "provo-me e saibo-me a sal". Bem-haja por ela, uma vez que "não se nasce impunemente nas prais de Portugal."

23/11/2006

Apontmentos

Tem-se discutido muito sobre se a Europa pode manter o Estado social. Ora, eu pergunto-me é se a Europa o pode dispensar!

Estas são palavras que ouvi ontem, dia 22 de Novembro, ao Dr. e ex-Presidente da República, Jorge Sampaio. Não são textuais porque, como é meu hábito, cito de cor.

Já tinha saudades de ouvir uma voz de esquerda. Afinal, nem toda a gente se esqueceu do essencial. Que bem me fez ouvi-lo!

*

Também ontem, na RTPN, assisti a um debate sobre a TLEBS. Fraquinho e redundante, diga-se de passagem, já que a entrevistadora resolveu fazer as mesmas perguntas duas vezes, porque um convidado chegou atrasado. Depois da segunda ronda esgotou-se o tempo e tudo ficou por ali, que é como quem diz, com respostas por dar e com muitas perguntas por fazer.

Eu já tinha lido e não queria acreditar, mas ontem ouvi-o pelas vozes da Presidente da Sociedade Portuguesa de Linguística e do Presidente da Associação dos Professores de Português. Os grandes argumentos a favor da nova nomenclatura são os seguintes:

1 – os alunos não aprendem todos a chamar os mesmos nomes às coisas da gramática;

2 – nas escolas não se estuda, ou estuda-se pouco e mal, o funcionamento da Língua.

Estes senhores mereciam um valente chumbo em qualquer curso elementar de retórica e de dialéctica! Aqueles não são argumentos e, muito menos, convincentes. É preciso quase nada de inteligência e de bom-senso para os fazer cair pela base.

1 – Se os professores não ensinam, todos, aquilo que os programas exigem e a nomenclatura em vigor manda, que sejam mandados cumprir a lei e que as universidades, responsáveis pelos estágios pedagógicos, não aprovem a competência científica de quem fizer diferentemente!

2 – Ideia peregrina: como, dizem, não se ensina gramática nas escolas, a solução encontrada foi... inventar novos nomes para os nomes antigos! Então é por causa de ser criada nova nomenclatura que a gramática passa a ser ensinada? Se não fosse trágico estaria a rir-me!

Hoje deu-me para isto.