A Guerra das Laranjas (1801) foi o primeiro episódio da Guerra Peninsular que se estenderá até ao fim das invasões francesas, mas tudo tinha começado antes, por volta de 1795, quando a Europa absolutista, apadrinhada pela liberal Inglaterra, declara guerra à República jacobina que se instalara em França em 1792. Desengane-se quem quiser ver aqui uma guerra de ideologias, porque isto quase não passa de guerra de cobiça e de rapina. Não são assim todas as guerras?
A Inglaterra e a Espanha faziam parte da aliança para combater a França (a 1.ª das coligações com esse propósito, criada em 1793 e que, além das nações referidas, contava ainda com a Áustria, a Prússia, a Sardenha e a Holanda). Uma e outra, alegando alianças antigas, exigem que Portugal lhes forneça contingentes navais, homens, armas e dinheiro. Ambas, como pode ver-se, marimbavam-se para as nossas necessidades de defesa. O príncipe regente D. João governava o País havia pouco tempo e não soube, por isso e por estar tão mal rodeado de ministros e embaixadores, impor as necessidades do País às exigências dos aliados. Mesmo assim, as nossas embarcações seriam fundamentais para os sucessos de Nelson no Mediterrâneo e a campanha do Rossilhão teria sido ainda mais torpe se não fosse a acção das nossas tropas superiormente conduzidas por Gomes Freire de Andrade.
A verdade militar é que a França derrota a Espanha e, suprema ironia e maldade, a Espanha alia-se à França e, de seguida, as duas exigem que Portugal rompa com a Inglaterra, lhe declare guerra; aprisione navios e pessoas inglesas em terras portuguesas e lhes confisque os bens. Portugal não pode, obviamente, aceitar porque sabe que, no preciso instante em que se afaste dos ingleses, perderá os arquipélagos atlânticos e a Índia. Contra a França combate, agora, a 2.ª coligação (Áustria, Inglaterra, Rússia e Turquia – 1798). É neste contexto que se inscreve a Guerra das Laranjas. As praças alentejanas vão caindo sem que os defensores disparem um tiro, mas, apesar disso, os invasores vão pilhando e sobrecarregando os povos com impostos imorais. Contrariamente, no Norte, Gomes Freire, inconformado com tudo isto, avança pela Galiza onde as populações conquistadas se vão declarando Portuguesas.

Tudo começara a 20 de Maio; a 7 de Junho assinava-se, em Badajoz, a paz que não seria ratificada por Napoleão, ainda primeiro cônsul. Queria muito mais do que o muito que o embaixador português aceitara, de motu proprio, conceder. Novo tratado será assinado em Madrid (29 de Setembro de 1801): a França assegura o pagamento de uma indemnização de vinte e cinco milhões de libras tornesas (das quais, cinco milhões não seriam declarados, para proverem o lucro pessoal dos negociadores); alargamento enorme da Guiana francesa, além das medidas contra a Inglaterra que tinham motivado o início da guerra. A Espanha garante para si a posse das praças de Elvas, Campo Maior e Juromenha, bem como todo o território além do Guadiana onde se inclui, naturalmente, Olivença.
O Príncipe D. João tarda em aceitar semelhante acordo de paz, e novo tratado virá pela mão da sua aliada que assina separadamente, com a França, a paz de Amiens (os preliminares desse acordo datam de 1 de Outubro). Esse tratado parece prever a integridade do território nacional e possessões ultramarinas (artigo 6.º), mas um artigo secreto sanciona a extorsão territorial decidida em Madrid. Bem dizia Talleyrand que Portugal estava metido entre dois terrores e que o menor não era, certamente, o das esquadras britânicas!
Napoleão está imparável: já é imperador dos franceses e a grande parte da Europa tem-na, ou conquistada, ou vassala, ou aliada, que é outra maneira de dizer vassala. Nova aliança se organiza contra si (a terceira, de 1805, que conta com a Inglaterra, a Áustria e a Rússia); Portugal e Espanha negoceiam a neutralidade paga com a França. A Inglaterra, que fecha os olhos no que toca a Portugal, não aceita tal neutralidade à Espanha que se vê, de novo, envolvida na guerra (os seus navios estarão em Trafalgar). Chegamos a 1806 e Napoleão decreta o “Bloqueio Continental”, pedindo à Espanha que o ajude a obrigar Portugal a fechar os seus portos aos ingleses. D. João vai protelando, escrevendo para Inglaterra, propondo alternativas a França, etc. Em 1807 Napoleão está farto de tanta conversa e, em 12 de Agosto, dá um prazo até 1 de Setembro para que Portugal declare guerra à Inglaterra e junte os seus navios à esquadra francesa, notícia que será corroborada pelo embaixador espanhol em Portugal.
Creio que Napoleão sabe que Portugal não tem alternativas, mas percebe que pode enganar Godoy, assinando, com ele, o Tratado de Fontainebleau (27 de Outubro de 1807). Tal tratado prevê a partilha de Portugal: Entre-Douro e Minho tornar-se-iam no Reino da Lusitânia Setentrional governado pelo rei da Etrúria (da família dos reis de Espanha e recentemente desapossado do seu trono por Napoleão); o Alentejo e o Algarve formariam o Principado dos Algarves e seria entregue ao próprio Godoy, e tudo o resto ficaria para a França que decidiria o que fazer depois da paz.
Passaram-se duzentos anos e há portugueses que acreditam que Espanha esqueceu o seu sonho hegemónico. Diriam o mesmo os portugueses de 1383? Os de 1580? Os de 1801?
Por mim, creio que a Espanha, jamais esquecerá que a liberdade portuguesa lhe desfeia o mapa!



































